Na Trilha
Zane Grey



agora!
  Como rplica, ouviram-se alguns tiros e algum projctil
do calibre usado na caa ao bfalo assobiaram sobre a
cabea de Bruce.


          1 - FOGO, Luis Campos (Thriller)
          2 - A CaSA DO TERROR, Marie E Edward (nnacaero)
          3 - TRON, Brisn Daley (Fico Cientfica)
          4 - A LANA QUEBRADA, Frank Gruber (western)
          5 - UMA VEZ EM ROMA, Ngaio Marsh (Polcial)
          6 - "SO-LONG" JIM, Ross Pynn (Western)
          7 - HSTIA, C. J. Cherryh (Fico Cientfica)
          8 - OS OLHOS MALVADOS DO TIO JONATHAM, Simon Ganett
(P. Silva) (Polcial)
          9 - O NOME DELA  CLAIRE, Ross Pynn (mrller)
          10 - POLTERGEIST, James Kahn e Steven Spielberg
(Terror)
          11- A QUADRILHA, Frank Gruber (Western)
          12 - A MORTE INDECENTE DE MNiCA B, Lus Campos
(Thriller)
          13 - O ENCICLOPEDISTA; John Brunner (F. cientfica)  
        14  O TERROR DE RAILSTONE,
  John Blackbum (Terror)
          15 - MORTE DE GRAVATA BRANCA,
Ngaio Marsh (Policial)
          16 - VINGANA E MORTE EM LAS CRUCES,
Miguel Barbosa (Western)
          17- COMPUTADOR UNIVERSO,
A. E. Van Vogt (Fico Cientfica
          18 - CASO DE MORTE,
Luis Campos l Jorge Curvelo (Policial)
          19 - O PAP FOI  CAA,
Mike St. Clair (Terror)
          20 - SO-LONG JIM, MATOU,
Ross Pynn (western)
          21 - VAGA SEM PRAIA,
C. J. Cherryh (F. Cientfica)
          22 - O ESTRIPADOR, Luis Campos (Terror)
          23 - ANTOLOGIA, Diversos (Policial)


                            Ttulos a publicar:

          25 - CHAMPANHE ASSASSINO, Ngaio Marsh (Policial)     
     26 - GUERREIROS DO SOL, J. BliSh (F. Cientifica) 


                                NA TRI LHA


                             Ttulo original.
                            THE FUGITIVE TRAIL


                           Coleco: Bolsoraite

                           Direco de Lus CamPos

                             Ttulo: Na Trilha

                             Autor: Zane Grey


                   (C) pydgM 1984 by E. Grey e Europress

                            Editora: Europress.
             ed e distribuidores - Praa da Repblica, Loja-A  
                  Pvoa de Sto. Adrio 2675 ODivelaS

                        Capa de: Estdios Europress

               Conposio, impresso e acabamento: Eurograt


                                    1.


   A cidade estava cheia de condutores de gado e de
trabalhadores, que acabavam de receber os salrios e iam a 
correr consumi-los em bebidas. Na sala traseira do
estabelecimento de Lafe Hennesy, estavam seis homens sentados
a uma mesa redonda, jogando o pquer a dinheiro. Dois
eram vaqueiros e tencionavam passar ali o resto da noite,
outro era um forasteiro naquelas paragens. O jogador
profissional, Quade Belton, moreno, tisnado pelo sol e de
olhar acerado, tinha a maior pilha de ouro e prata na sua
frente,   O jogador do lado, Steve Henderson, tambm estava a
ganhar. O sexto homem fazia esforos desesperados, transpirava
copiosamente, mas perdia contnuamente. Teria vinte e tal
anos, a pele fina do rosto e das mos indicavam claramente que
no era cavaleiro e, a julgar pela sua forma de jogar, tambm
no parecia batoteiro habitual. Chamava-se Barse Lockheart.   
Subitamente, alguns circunstantes foram arredados e um
rapaz aproximou-se da mesa. Excepto na dureza das feies
e na frieza do olhar, era uma cpia quase perfeita de Barse
Lockheart. A sua voz, ao falar, parecia morder.
   - Barse, levanta-te? Acaba j com esse jogo!
   Os seis homems levantaram a cabea, surpreendidos.
   Barse fez-se vermelho.
   - Que diabo de bicho te mordeu? - exclamou.
   - Ests em m companhia. Anda embora - foi a resposta do
recm-chegado.
   - Mas, estou a perder. No abandono a partida.  preciso
lata para me interromperes a meio de uma jogada!
   Henderson deu uma palmada na mesa e pediu a Barse:
   - Mande-o r ver se chove.
   - Bruce, podes ir  fava! - gritou Barse.

   Mas, o seu pestanejar desmentia o suposto desafio e a  
arrogncia da sua voz.

   O forasteiro olhou para o intruso, com um trejeito dos
lbios.
   - Olhe l, voc anda a guardar o seu irmo?
   - Acertou em cheio! Especialmente, quando ele se encontra
na companhia de Steve Henderson e de um grupo que  conhecido
por todos como sendo to sombrio como o prprio inferno.
   Os seis homens lanaram as cartas na mesa. Vrias
cadeiras foram arrastadas para trs. Os dois vaqueiros
pareciam pouco  vontade.
   - Lockheart, sinto-me ofendido - grunhiu Henderson.
- Parece-me que tenho de te desafiar.
   No havia bravata na voz fria e cortante de Bruce, ao
rePlicar:
   -  a maior asneira da tua vida, se o fizeres.
   O forasteiro levantou-se, lentamente, da sua cadeira a
mo direita contrada perto da arma. Belton meteu os seus
ganhos ao bolso. Os dois vaqueiros deixaram os seus assentos e
juntaram-se ao grupo dos circunstantes, afastando-se da
mesa.
   - Senhor Lockheart - disparou o forasteiro - incluiu-me
tambm a mim nesse grupo que classificou de sombrio?
   - Sim, mas foi apenas como elogio.
   - Ah! Sim? Como?
   Bruce replicou, com um sorriso.
   - Sombrio poderia qualific-lo nesta cidade sem rei
nem roque. Mas; no exterior; onde os homens - so duros,
chamar-lhe-ia um patife, com muito mais propriedade:
   Num relmpago, a arma do forasteiro estava c fora,
mas, com a mesma incrvel velocidade, Bruce puxara da
sua e premira o gatilho. A detonao da sua arma atroou
a casa, e o forasteiro tombou sobre a mesa, que virou,
deixando-se escorregar para o solo. Um segundo mais tarde;
Henderson empunhava o seu revlver, mas nem teve tempo
para apontar, ao ser atingido por Bruce. Este recuou, com a
arma fumegante; e foi absorvido pela multido que se comprimia
em volta de Henderson. Quade Belton e Barse Lockheart
deslizaram para o exterior e dirigiram-se aos cavalos. O mais
velho montou e voltou-se para o outro.
   - Vens ou vais ter com o teu irmo?
   A ira apossou-se novamente do jovem.
   - O meu irmo que v para o diabo! - respondeu Barse.
   Montou lestamente e cavalgo atrs de Belton,
embrenhando-se na pemumbra.
   

   Naquele crepsculo dos comeos da Primavera, Trinity
estava sentada num tronco, perto do ribeiro que corria veloz,
 espera de un namorado que era sempre inconstante e
tardio. A corrente murmurante reflectia os tons de oiro e
rosa-plido do poente; uma pata, com a sua ninhada, passeava
sob a folhagem pendente; as aves pipilavam, sonolentas, nas
copas das rvores; havia uma sensao de humidade e
frescura no ar temperado. Atrs da rapariga, ouviam-se os
sons distantes do rancho Spencer, onde ela vivia, e mais para
alm o rumor abafado da povoao de Denison, invulgarmente

animada naquela noite primaveril, em virtude do acampamento de
construo da via frrea nos arrabaldes, e da chegada
dos guias de gado com as manadas do Sul.
   Olhar para o Sul sempre fascinara Trinity. Fora do Sul
que ela viera e de l o futuro chamava-a vagamente. Uma
larga clareira na linha escura do arvoredo abria-se para as
terras vastas e selvagens do Texas. De dia e de noite, quando
ela esperava naquele local de encontro, era como se a sua
vista alcanasse at ao rio Trinity, onde fora encontrada
abandonada em tenra idade e recolhida por aquela boa famlia
dos Spencer. Tinham-lhe dado o nome de Trinity e nunca mais se
soubera nada da sua origem nem ascendncia.
Recordava longas jornadas nos carros cobertos, plancies
verdejantes e interminveis, manadas negras de bfalos,
acampamentos e fogueiras junto dos rios, homens barbudos
de aspecto feroz, tiroteios e a vozearia selvagem dos
ndios, com os seus gritos de guerra que faziam gelar o sangue
nas veias.
   Uma solido que convidava ao sonho e  meditao
impregnava as prprias guas do ribeiro que se estendia

6  7

para Sul. A ela nunca a beleza daquela regio texana a tocara
to dolorosamente. O crepsculo de prpura movia-se
lentamente desde a zona arborizada, sobre as ramarias
ondulantes, em direco  aurola dourada do solpoente.
Trinity chegava a preferir as terras pacficas e desconhecidas
do Sul ao tmulo constante do rancho Spencer e da povoao de
Denison.
   O rudo distante da vida fez que o seu esprito se
concentrasse de novo em Barse. Ele tinha mudado, no havia
dvida. O rapaz simPtico, alegre e estouvado, embrenhara-se
nas ms comPanhias e na vida dissoluta. No gostava que ela
lhe falasse no assunto e por mais de uma vez fizera cenas
desagradveis quando lhe chamara a ateno. E,
contudo, ainda tinha lampejos da sua anterior conduta,
como da vez em que insistira em comprar-lhe aquele vestido
caro. Ela ficara maravilhada mas, ao perguntar-lhe onde
arranjara o dinheiro, o rapaz tornara-se agreste e intratvel,
deixando-a preocupada. e Julgo o mesmo que a me de
Barse, pensou ela.  uma criana irresponsvel.
   Depois, o seu pensamento voltou-se para Bruce, como
sucedia com mais frequncia ultimamemte. Era muito diferente
de Barse, animoso, srio, circunspecto, com uma esplndida
reputao de caador de bfalos, guia de gado e tambm como
pistoleiro. Trinity meditava na conversa que
escuhara acerca do orgulho de Bruce no manejo das armas.
Nos ltimos tempos, pouco vira o rapaz, pois ele andara
bastante ocupado nos campos, Mas, ainda assim, viera ao
rancho vrias vezes, mais para a ver a ela, bem o sabia,
do que aos prprios pais. E, apesar de sua afeio por Barse,
havia qualquer coisa de slido em Bruce que a cativava,
certamemte a sua integridade e formao moral. Da ltima
vez - e recordava-o com uma sensao de culpa - quase o
deixara beij-la. E, mesmo naquele momento, achava a ideia
perturbadora e excitante. No, ele no podia ser um assassino.
Mas, o seu dever imPelia-a para Barse. Devia tentar

modific-lo e ao seu modo de vida. Ele precisava dela e, se
prometesse emendar-se, ela desposlo-ia.
   A jovem sabia que Barse no acorreria ao encontro
daquela noite; por isso, abandonou a margem do ribeiro e
meteu pelo carreiro que lhe era to familiar, atravs da
escurido. Ao cruzar as campinas, os cavalos que tasquinhavam
a erva ergueram a cabea para resfolegar. Os cavalos estavam
ultimamente ligados  sua vida. Poucos rapazes a suplantavam
na arte de cavalgar. Ento, lembrou-se de que Barse era um
texano que no gostava de cavalos, e sentiu um aperto no
corao.
   Trinity pemetrou na alameda que circundava o edifcio
do rancho. O coaxar das rs no charco formava uma msica
doce e triste que lhe era grata ao ouvido. Havia luz na sala
de estar. Entrou, na disposio de se confinar ao isolamemto
do seu quarto, mas resolveu ir primeiro comunicar aos
Spencer a sua deciso.
   - Trinity, vieste cedo - disse a senhora Spencer, uma
mulher robusta, de cabelo grisalho.
   - Barse no veio - respondeu Trinity. - Onde est o pai?
   - Anda l por fora. Hal foi a correr para a vila. Um
dos cavaleiros trouxe notcias de um assalto. Bandidos,
creio eu. Denison j era uma terra bastante m antes de
   chegarem os trabalhadores da via frrea, essa canalha da   
pior espcie, afora os jogadores profissionais e as
mulheres dos "dancings". Mas, agora,  a pior vila do Texas
que jamais conheci.
   - Decidi que. eu. resolvi casar com Barse - tartamudeou a
rapariga.
   - Ah! No, Trinity! - exclamou a dona da casa.
   - Estou completamente desorientada! - replicou a
jovem. - Hal  o melhor de eles todos, mas no sinto
inclinao por ele. Eu. eu gosto de Bruce, bastante mesmo, e
no me tenho furtado  sua corte. Mas, Barse  o que tem
mais direitos, porque precisa de mim.
   - No te aflijas, Trinity - disse a senhora Spencer.
- SinTo pena de ti. H rapazes bonitos em demasia! No
admira. E concordo que no h muitas raparigas atraentes
como tu, nem to boas. E sabes ajudar em qualquer trabalho de
um rancho, j para no falar da tua habilidade com os cavalos,
o lao e o revlver! Sabes o que te digo?
Escolhe o rapaz que mais te agradar.
   - Me, julgo que  Barse - retorquiu Trinity.
   - Contudo, no tens a certeza.
   - Ah! No, no tenho.  como sE o tiVeSSe trazidO ao
meu cuidado durante anos. 
   - Pois : Tens sido uma espcie de me e de patro
para ele. Tentas regener-lo porque ele  mau. Acautela-te,
por isso. Muitas vezes, d mau resultado.
   Os ps pesados de Spencer soaram no alpendre,
atravs da cozinha. Entrou na sala de estar. Era um texano
tpico, estatura elevada, seco de rosto, cabelo embranquecido
e olhar penetrante.
   - Ol, pequena. Pareces cansada - dise
ele, com a sua voz acolhedora.
   - Pai, Tenho estado a contar as minhas preocupaes.
e aquilo que tenciono fazer - disse Trinity.
   E relatou a sua situao e as suas razes sobre o que se

propunha e considerava mais acertado.
   - Bem, pequena, definiste os teus propsitos. Agora,
segue-os e no tens mais com que te apoquentar
   - O pai aprova?
   - No digo que aprove, Trimity. Mas, trata-se da tua vida e
 a ti que compete decidir. No vai longe o tempo em
que Barse era um rapaz mediano, aceitvel, digamos. Mas,
modifcou-se, tal como Denison, com este crescimento contnuo
de gente, dinheiro e gado, e agora com a malfadada via frrea. 
  - Mas, Bruce diz que a via frrea tornar Hal rico!
   - No posso neg-lo. Quando a obra terminar e esta
horda de parasitas debandar, Denison voltar  calma.
Mas, presentemente,  um horror. Hoje, s seis da tarde,
quando o pagador das obras da via frrea ia comear a
pagar aos homens, foi assaltado por uma quadrilha de
cavaleiros mascarados. Levaram a mala com milhares de dlares!
E nem um tiro dispararam!
   - Com essa facilidade toda! -
exclamou a senhora Spencer, com ar desdenhoso. - Onde estavam
Bruce Lockheart e esses outros texanos com fama de valentes?   
 - Me, tenha a certeza de que Bruce no est metido
nisso - interveio Trinity.

10

   - No, eu vi Bruce depois, felizmente para ele - replicou
Spencer. - No era do grupo dos bandidos, embra alguns de ns
reconheamos que os roubos e assaltos dos ltimos tempos sejam
obra de gente nova.
   - Pai! - exclamou Trinity, muito plida.
   - Ento, pequena! No te atormentes com isso!
   - Como no hei-de apoquentar-me?
   - No sei, realmente. A coisa no se apresenta boa.
Tenho visto vaqueiros azougados desencaminharem - e muitas
vezes. H sempre uma razo qualquer. Ou pouco dinheiro no
bolso ou muito dinheiro  vista. Hohart Smith, que presenciou
o assalto, jurou que s havia um homem maduro no grupo; o
resto eram cavaleiros jovens!
   Trinity pensava, com um pexo no corao, que ultimamemte
Barse andava sempre bem fornecido de dinheiro e no parecia
dar-lhe grande valor. Sem dizer mais nada, retirouse para o
seu quarto e, sem sequer acender a luz, lanou-se sobre a
cama. Meditou longamente. Um dia, encontrara Barse na vila;
ele estivera a beber e quisera comprar-lhe tudo quanto havia
no armazm. Quando ela fizera perguntas, ele dissera que era
infeliz nos amores e feliz ao jogo. Ela tentara semPre
esquecer as suas evasivas, mas aquela deixara-a suspeitosa. E
agora voltava com redobrada fora. Bruce, na sua amargura pelo
amor que ela dedicava a Barse, dissera uma vez que ela no o
conhecia nem metade. Ele raramente falava de algum e muito
memos de Barse. Em outros tempos conturbados, ela fora
demasiado animosa e leal para duvidar, mas daquela vez no
conseguia sobrepor-se aos factos. Havia qualquer coisa
profundamente errada. Reflectia agora nas inmeras ocasies em
que deliberadamente fechara os olhos  realidade. Quase todos
lanavam o descrdito sobre Barse Lockheart. 
   Todavia, embora Trinity admitisse que era disparate,
estaria do lado de Barse e acreditaria que os seus vcios no

seriam outros que os da bebida e do jogo. Calaria dentro
de si receios e dvidas e evitaria ver ou ouvir tudo quanto a
tornasse infeliz.
   Subitamente, escutou rudo de cavalos. Espreitou pela
janela e viu um carro puxado por uma parelha de cavalos

11

negros parar junto do porto. Caleb Green, um rancheiro
vizinho, segurava as rdeas e o seu companheiro era Hal
Spencer. O pai de Trinity foi ao encontro deles. Green
falou e Trnity apercebeu-se de que havia novidade. Depois,
notou que Hal estava plido e sem chap. Spencer conduziu-os
para casa.
   Trinity, apressadamente, correu para a sala de estar.
A senhora Spencer parecia surpreendida e olhava para Hal
que, era evidente, acabava de falar. Os olhos cinzentos de
Spencer estavam brilhantes.
   - Ol; Trinity - saudou Green, com um sorriso. - Cada dia
ests mais bonita. Onde  que arranjaste essas rosetas que
tens na cara?
   - Como est, senhor Green? Obrigado pelo cumprimento. Julgo
que  da excitao.
   - s rpida nos palpites, hem? Bem, Spencer, tenho
de ir andando e quero ir contar as novidades.
   E saiu pela porta aberta, que SPencer se encarregou de
fechar a seguir.
   - Agora, diz l o que ocorreu, Hal - disse, secamente.
   - Trinity,  melhor ires-te embora - alvitrou a senhora,
nervosamente.
   - Nada disso. Ela tem de ouvir tudo -
replicou o rancheiro.
   - Me,  melhor eu contar a Trinity. Eu assisti  cena.
   - Oi! Hal. Que sucedeu?
   Hl encarou-a, muito plido e de olhar sombrio
   - Trin. no vale a pena afligires-te. Bruce Lockheart
apenas disparou sobre dois homens. Matou um forasteiro que
armou em valento e feriu Steve Henderson. mortalmente. ao que
parece.
   - Oh.  terrvel! - balbuciou Trinity. - Bruce!.
Por qu? Onde?
   - Coisas que acontecem. O certo  que Bruce foi provocado
primeiro. Uma rapidez incrvel, espantosa! Em Denison, nunca
mais ningum por em dvida as histrias que se contam a seu
respeito. Foi maravilhoso, arrepiante!
   - Bem, continua, filho - interveio Spencer.
   - Barse! Ele. estava l? - perguntou Trinity, num
-fio de voz.
   - Se estava l? A culpa da luta foi dele. Diabos levem
esse trapaceiro de uma figa. !
   - Oh! - exclamou Trinity, com desespero. - Mas;
ento, no pode ter participado no assalto - acrescentou,
aliviada.
   - Hal, no te percas em comentrios - ordenou o pai.
- E depois?
   Hall sentou-se e enxugou a transpirao que lhe perlava
o rosto.
   - Desculpe, pai.  da excitao. Sente-se e no ponha

essa cara assustada. O caso passou-se assim: logo depois
de Jeff Hawkins ser atingido... 
   - Hawkins? - exclamou Spencer, surpreendido.
- Quando foiisso?
   - Esquecia-me de que o pai j tinha sado da vila antes
- replicou Hal. - Deve ter sido pouco depois do assalto.
Hawkins foi morto por um pistoleiro desconhecido que, mais
tarde, cometeu o erro de desafiar Bruce. Nunca vi tal
destreza! Imaginem.
   - Filho, importas-te de referir apenas os factos?atalhou
Spencer, impaciente.
   -  preciso calma!
   E Hal relatou o incidente no estabelecimento de Lafe
Hennesy. Estava ainda excitado e a histria saiu-lhe num
foguete.
   - H cada uma! - comentou Spencer.
   - Oh! Que horror! - lamentou-se Trinity.
   - Bem, depois houve o burburinho habitual - prosseguiu Hal.
- Belton e Barss escapuliram-se. No voltei a ver Bruce. Os
homens juntaram-se  volta de Henderson; ele
estava ferido gravemente, embora vivo.  natural que morra,
Levaram-no ao mdico do acampamento das obras.
   - Que  que diz essa gente l fora? - perguntou
Spencer.
   - J nem se lembra. Mas, houve grande alvoroo, pode
crer. Quando a atmosfera desanuviou, o pistoleiro morto foi
identificado como sendo o que Hawkins tentara prender.
Nessa altura, comearam a elogiar Bruce pelo seu feito.
   - Mas, Barse. que foi feito dele? - indagou Trinity.

12   13

   - Ningum parecia saber. nem importar-se - respondeu Hal,
secamente. - Mais tarde, ouvi dizer que tinha sado da
povoao com Belton. Provvelmente, foi para o
acampamento de Belton.
   - Bruce tinha razo - disse Spencer. - A gente de
Beltom  suspeita.
   - Bem, pai, j h dois a menos - observou Hal,
significativamente. - Me, vamos comer depressa. Quero voltar
 vila outra vez.
   - Hal, eu vou contigo.
   - Trinity, que diabo tens tu na ideia? - objectou
Spencer.
   - Eu. nem sei! - retorquiu a rapariga. Subitamente, Trinity
concebera o plano de ela prpria armar em espia, descobrir
quais eram as relaes entre Barse Lockheart e Belton. A ideia
chocava-a e fascinava-a a um tempo. Calculou as suas
possibilidades. Era forte, gil, e sabia montar e seguir
pistas como qualquer vaqueiro; deslizava atravs dos arbustos
como um ndio. Nenhuma sensao de medo a impedi-la:
   "Sou capaz", pensou. Depois da jantar, heide descobrir
o acampamento de Belton.
   Trinity foi ao seu quarto e envergou as suas botas e as
calas de montar. Costumava ir com frequncia  vila ao
cair da tarde e, quando encontrava Barse, demorava-se s
vezes bastante. Poderia faz-lo naquela ocasio; era possvel
que descobrisse alguma coisa, se no naquela noite, em

qualquer outra. O sangue fervia-lhe nas veias, na expectativa
de se ver livre dos seus receios ou confirm-los. 
   Uma hora depois, quando cavalgava para os lados do
rio montada no seu cavalo, eBuckskinm, verificou que o seu
crebro estava cheio de pensamentos e determinaes. No
tinham passado muitos cavalos pelo caminho desde aquela
manh. Metendo eBuckskin a um trote ligeiro, dirigiu-se
no sentido para o qual vira Belton encaminhar-se havia
vrios dias. O carreiro ia at  floresta, que se tornara
espessa at  completa escurido, de tal forma que ela no
via nada para a frente. Por isso, desmontou e, afastando-se um
pouco da montada, tentou distinguir rudo de cascos.

14

Os ouvidos de Trinity estavam bem treinados a diferenar
os diversos sons das pradarias e dos bosques.
   Em cinco milhas, a jovem parou dez vezes. Entrara j
na zona do rio, onde de vez em quando se apeava para ouvir
melhor e procurar rastos.
   Estava a cerca de sete milhas de casa naquele momento.
Em vista disso, Trinity resolvera regressar, mas, de repente,
sentiu cheiro a fumo. Pouco tempo decorrido, escutou o
bater de um machado. Era mais abaixo. Caminhou devagar
por mais uns quatrocentos metros e, por fim, distinguiu o
tremeluzir de uma fogueira. Escorregando da sela, levou
eBuckskina para fora do carreiro e amarrouo. Depois,
fixou a direco por uns ramos secos que via ao longe na
sua frente, na capa de uma rvore.
   De novo no caminho, Trinity encostou-se a um tronco
e considerou cautelosamente a situao. Parecia-lhe natural
investigar por conta prpria, sem auxlio alheio. Por
hereditariedade e pela prtica, estava adaptada quela espcie
de trabalho solitrio. Mas, at ento, todas as suas provas
se haviam resumido  caa e  pesca, a procurar cavalos
e gado tresmalhado, e a fingir-se perseguida pelos
"comanches". Naquela ocasio, porm, procurava homens, homens
maus e perigosos.
   Trinity acalmou a sua agitao e decidiu no provocar
o mais leve rudo nem fazer qualquer movimento que pudesse
tra-la perante os foragidos. Sim, Porque ela j conclura
que os homens de Belton eram bandidos.
   A noite primaveril era calma e fresca. Ouvia o coaxar
das rs, o brando murmrio de um regato; o grito dos
falces nocturnos e o restolhar furtivo dos animais acoitados  
nas moitas. Lobrigando uma vez mais a fogueira, comeou
a rastejar para l, silenciosamente, completamente absorvida.  
Possua uma arma, mas queria evitar a todo o custo ter de a  
empregar.
   Por momentos, a vegetao rareou e ela deslocouse de
rvore em rvore, ocultando-se nos troncos. Evitava pisar
ramos secos e pedras. A fogueira tornara-se mais brilhante.
Por vezes, perdia-a de vista, para logo a voltar a ver.

15

   Depois de um longo e cuidadoso avano, rodeando um
pouco, viu o fogo obscurecido por instantes. Subitamente,

ao tornear um macio, ficou espantada e m pouco assustada
por ver distintamente o claro a menos de cinquenta metros
de distncia; o lume brilhante luminava os vultos de trs
homens. Um era Belton, com aspecto carregado; outro,
nunca ela tinha visto; o terceiro era Barse.
   Trinity sentiu um baque e lutou por se refazer e ganhar
coragem. Os homens conversavam.
   Belton falava em voz sonora, sem cuidados. A rapariga
distinguiu: "o pistoleiro estragou-nos os planos. temos
o negcio do Banco". Os outros argumentavam em voz
baixa, mas com manifesto interesse. Barse abanou a cabea,
em notrio desacordo com Belton.
   Trinity estava muito longe e resolveu rastejar para mais
perto, para um local protegido por uns troncos. A erva e
os arbustos pareciam suficientes para resguardar a sua
progresso, mas o corao batia-lhe descompassado e ela
estremecia ao atravessar o espao aberto.    Conseguiu, por
fim, esconder-se atrs de um pequeno outeiro, e respirou mais
 vontade. A voz de Belton soava mais perto. Ela acaapou-se
no terreno e apurou o ouvido:
   "a sorte mudou.  melhor roubar o Banco. fugimos
amanh. farto disto". O esforo de Trinity para ouvir
melhor tornava-se quase doloroso. Roubar o Banco? Oh!
No, Barse no.
   Escutou um leve rumor muito prxmo de si. O corao
deu lhe um salto e como que parou. Rudo de pssos mesmo
junto dela. Ficou paralisada, o sangue gelou-lhe nas veias.
Ento, duas mos enluvadas, duras como ferro, agarraram-na,
uma pela nuca e outra tapando-lhe a boca e impedindo-a
completamente de proferir palavra.


                                    2.


   Num pice, enquanto Trinity era forada a voltar o rosto
para as estrelas, um desesperado instinto de salvao subjugou
os seus receios. Introduzindo a mo no bolso do casaco, tentou
voltar a arma contra o assaltante.
   - Eh! Ralssz, que diacho te mordeu? - ouviu, num
murmrio feroz.
   Trinity reconheceu a voz. Perdeu a sua rigidez e, ao
tombar para trs, o chapu caiu-lhe, deixando-lhe expostos
os cabelos e o rosto. Ao v-los, o seu captor largou-a, com a
respirao ofegante.
   - Trinity!
   - Ol, Bruce - replicou ela, num susurro. - Tu,
quase me partiste o pescoo.
   Ele debruou-se, para a fitar, atnito. Depois, relembrando
a proximidade dos bandidos, conservou-se calado e, ajudando-a
a erguer-se, afastou-se com ela, conservando-se sempre fora do
alcance da vista dos outros. De novo na floresta, parou e
encarou-a.
   - Que andas a fazer por aqui? - perguntou Bruce, em
voz baixa.
   - O mesmo que tu, aposto - replicou ela.
   - Andas a espiar Barse?
   - Sim.

   - s doida! Mas, pelo menos, s corajosa, a no ser
que no faas a menor ideia da qualidade destes homens.
   - Fao, sim. Queria saber se Barse estava com eles.
E tu tambm!
   - Enganas-te. Eu sei que ele est ali.
   - Oh! Bruce, eu j o receava!
   - Ele precisa de uma ensinadela. Se a de hoje no chegou,
eu lhe tratarei da sade!
   - Hoje! - repetiu ela, tragicamente. - Derramaste
sangue por causa dele!

   17

   - Quem te disse?
   - Hal assistiu a tudo.
   - Ah! Sim? J devia calcular. Mas, tive de o fazer,
Trinity, ou Barse arranjar complicaes. Anda.
   Bruce conduziua, silenciosamente, atravs da floresta
at ao carreiro, e ento perguntou-lhe onde deixara a sua
montada. Depois, prosseguiram. Parando, por fim, Bruce
observou:
   - O meu cavalo pressentiu o teu quando passmos por aqui.   
- Anda para casa comigo - pediu ela.
   - No. Vou espreitar aquela gente. Palpita-me que
andam a tramar alguma. Se conseguir descobrir o que 
inutilizo-lhes os planos.
   - Jim, Belton planeia qualquer coisa - replicou Trinity.   
E contou a Bruce as escassas palavras que tinha percebido.     
   - O Banco, amanh. S se eu no puder evit-lo.
Mas, deixa l, Trin. Agora, vai para casa.
   - Bruce, vais arriscar-te outra vez? Lutar. e. e talvez.
ser atingido! - balbuciou Trinity, subitamente presa de
indizvel emoo.
   A proximidade dele afectava-a. Agarrandolhe nas mangas,
fitava-o, angustiada.
   - Claro que posso sairme mal - replicou ele, amargamente. -
Mas, isso a ti pouco te importar.
   - Caluda! No digas isso, Bruce Lockheart.
   A voz sumiu-selhe, enquanto as suas mos lhe deslizavam ao
longo dos braos, at aos ombros dele. Estavam desejando
enlaar-Lhe o pescoo e a jovem seria incapaz de os
impedir, a no ser que ele a repelisse. A sua indmita coragem
atraaa incomparvelmente mais do que a fraqueza de Barse.
   Bruce soltou uma gargalhada spera.
   - s tal qual como as outras. Agora, que o mal est
feito e a conscincia te acusa. comeas com.
   - Qual comeo, nem meio comeo! - interrompeu ela,
profundamente comovida. - Eu nunca disse que tu no me
interessavas. Bruce.
   - E Barse? - perguntou ele, calmamente.
   - No sei. Estou to confusa!
   De repente, ps-se nos bicos dos ps e beijou-o. Ele
ficou imvel como uma rvore e ela correndo para o seu
cavalo, desprendeu-o, montou e partiu a galope.
   - Trin! - chamou Bruce, desesperado.
   Mas, ela j no se atrevia a voltar. Que  que lhe passara
pela cabea? Sentia o corpo todo a tremer, frio e calor
alternadamente, transtornada pela convico de que

devia amar realmente Bruce Lockheart. Fossem quais fossem as
suas relaes com Barse ou a responsabilidade que sentisse em
salv-lo, o certo era que estava enamorada de Bruce.
Os acontecimentos dos dois ltimos dias tinham-lhe
esclarecido o esprito e feito ressaltar a diferena existente
entre os dois irmos. Barse no era sequer uma sombra de
Bruce. Outra escorregadela de Barse ganhar-lhe-ia o seu
desprezo absoluto, e outro gesto nobre da parte de Bruce
desfaria de vez o precrio equilbrio em que os dois se
encontravam na balana do seu corao.
   Foram necessrias vrias milhas de concentrao e luta
consigo mesma para Trinity apaziguar o tumulto que a
desorientava e conseguir efectuar com segurana a viagem de
regresso, que apresentava perigos de diversa ordem.
Felizmente, no encontrou cavaleiros. Quando alcanou terreno
mais aberto, meteu o cavalo a trote, parando de vez em
quando para escutar e olhar em frente.
   Algumas milhas antes do rancho, Trinity mudou de direco e
dirigiu-se para casa por outro caminho. Chegou j tarde.
Desaparelhou Buckskine e penetrou no edifcio
sem rudo. A excitao deixara-a exausta e adormeceu mal
se deitou.
   No dia imediato, recomeou as suas tarefas domsticas,
mais pensativa do que nunca. Por muito que se esforasse,
no podia evitar o seu estado de alma. Lealdade, compaixo
e responsabilidade, chamavam-na para Barse, mas nenhum
desses sentimentos era amor.
   Spencer e Hal tinham ido  vila. Trinity receava o seu

18   19

regresso, com medo de ouvir ms notcias. Para retardar
esse momento foi at ao rio e, oculta por uma rocha, ps-se
a meditar. Qualquer coisa mais iria acontecer ainda, antes de
ela mudar definitivamente de resoluo, o que tomava
como absolutamente certo. Tinha de acontecer.

   Ao incio da tarde, um rudo de cavalos aproximando-se
a trote no caminho ao longo do rio alertou a ateno de
Trinity. Espreitou atravs da vegetao e viu quatro
cavaleiros. O chefe era Belton, mas parecia-Lhe diferente; os
outros eram estranhos a Trinity. Antes de desaparecerem
da sua vista, observou que todos trajavam do mesmo modo,
chapus pretos, casaco e camisa escura e cala azul-escura.
Montavam cavalos que a rapariga nunca vira. E ela reconhecia
sempre um cavalo, pela sua constituio, cor e forma    de
andar, com mais certeza at do que uma pessoa.
   -  estranho - murmurou Trinity, ao v-los desaparecer. -
Que belos animais! Tm fibra de corredores.
Cavalos de bandidos. Que andar Belton a preparar. No   
pode ser nada de bom. e tenho um palpite de que.
   Comeou a fazer conjecturas. Se Spencer estivesse em
casa teria corrido a contar-lhe. Aquele caso
afigurava-se-lhe suspeito e tinha de fazer qualquer coisa. Mas
o qu? Sentia-se inibida pela relao de Barse com aqueles
homens e temia tambm por Bruce.
   - Oh! Se Bruce aparecesse!. Talvez ainda venha. Vou
   aguardar.

   Nem uma hora era decorrida quando Trinity ouvi o
   galope ritmico de cavalos, vindo do caminho da vila.
Aproximavam-se rpidamente. Ento, viu-os, quatro homens em   
fila. Embora velozes, ela reconheceu os animais e os trajos   
dos cavaleiros. Mascarados! Os cavaleiros levavam mscaras
vermelhas, improvisadas com lenos. Apesar disso,    Trinity
conheceu o ltimo: Belton. Este olhava contnuamente para
trs. Depois, desapareceram e apenas o matraquear dos
cascos manteve no esprito da rapariga a certeza    de que de
facto vira passar o bando naturalmente de regresso de mais um
crime cometido.
   Logo que o som dos cascos se desvaneceu, distinguiu outro
vindo da direco da nascente do ribeiro. No mesmo
instante, lobrigou dois cavaleiros lado a lado, lutando. Um
deles agarrou o brido do outro cavalo e tentou det-lo.
Ambas as montadas pararam bruscamente a cerca de quinze
metros de Trinity, que quase gritou, tomada pelo terror.
O cavaleiro mais agressivo era Bruce Lockheart, branco de
raiva e olhar em fogo. O outro homem, apesar da mscara
vermelha, fora fcilmente reconhecido por Trinity como
sendo Barse.
   - Larga-me! Qual  a tua ideia? Queres derrubar-me?
- arquejou Barse, com voz enrouquecida.
   - Sabes muito bem. Salta de a! - replicou Bruce,
frio e severo, desmontando num pice.
   - No!. Que diabo queres tu? Vou safar-me com Belton
No percebes?
   Bruce arrancou o leno vermelho do rosto do irmo e
arremessou-o ao cho. Barse estava plido e transpirava.
Ento, Bruce puxou-o violentamente para o cho.
   - Barse, tu no nasceste para levar esta vida. Belton
 que fez de ti um tratante. Depois, ps-se a andar e   
abandonou-te. O que est nesse saco? O dinheiro do assalto.   
- No. Apenas o meu quinho.
   - Barse, deixaste cair esse chapu durante o assalto ao
Banco?
   - Foi uma bala. que o fez cair. Olha aqui! - E
Barse meteu um dedo trmulo no orifcio feito pelo
projctil. - Mas, eu apanhei-o de novo.
   - Foi por um triz que escapaste. Supe que te tinha
atingido e que ficavas estendido defronte do Banco,  vista   
de toda a gente; era uma coisa linda, para a me e para
Trinity, no era?
   - Cala a boca! J te disse que vou com Belton. Se d
pela minha falta... volta para trs.
   - Isso  o que tu julgas. E, se o fizer, mato-o enquanto   
o diabo esfrega um olho. Barse, corre por toda a vila
que um dos Lockheart participou no roubo.
   - Ah! Sim? Mais uma razo para eu me ir embora.
   No percebo porque me queres impedir.
   - Pois, no - retorquiu Bruce, desdenhoso. - Se eu
tivesse conseguido encontrar-te esta manh, Ter-te-ia

   20  21

impedido, sim, oh, isso tinha! - E, quando Barse tentou montar
novamente, Bruce agarrou-o.
   - Talvez isto te convena. Simmons, que alvejou o teu

chapu, jurou ter reconhecido um dos Lockheart, mas no pde
garantir qual.
   - Ah! No te apoquentes que ningum te acusar. Ningum
acreditar que estivesses no assalto.
   - F-los-ei acreditar - disse Bruce, amargamente, enquanto
trocava o chapu do irmo pelo seu. - Despe essa camisa e o
casaco.
   - Tu. no podes... - comeou Barse.
   - Posso, sim. Anda, veste a minha roupa. Avia-te
ou levas uma tareia.
   Bruce ajudou o irmo a despir as duas peas do vesturio e
rapidamente fez-se a troca da indumentria. Depois, saltou
para o cavalo de Barse.
   - Ouve com ateno. Leva o meu cavalo. Vais para casa
pelo caminho das traseiras. No deixes que a me te veja
mudar de calas. Esconde-as. Depois, vai at  vila, como
se no soubesses de nada. Entendido?
   - Sim. Mas, Bruce...
   Barse estava atnito.
   -  por Trinity. e pela nossa me - continuou Bruce,
com voz pouco firme - Trin ama-te. Casa com ela. e
regenera-te. Procura ser um homem em vez de um co tinhoso!
Despacha-te. Que Trinity nunca saiba o que se passou.
   Bruce esporeou a montada em direco ao rio. Naquele
ponto era pouco profundo e fcil de vadear. Bruce no
olhou para trs at se encontrar na outra margem. O seu
rosto moreno brilhou. Depois, embrenhou-se no arvoredo.
   Trinity saiu da sua estupefaco e tentou gritar a Bruce
para que voltasse. Mas, a sua garganta no conseguiu articular
um nico som. Quando se virou, viu Barse afastar-se a cavalo.
Trinity deixouse cair na relva; prostrada por sucessivas vagas
de espanto e desespero.
   
   A surpresa, a dor e a paixo assoberbavam Trinity
simultneamente e a ltima no a deixava, mesmo depois de 
ela ter ganhado uma calma exterior. Os acontecimentos
queimavam-lhe o crebro. Barse era um ladro e um cobarde.
Bruce sacrificara-se por amor dela e por um errado sentido de
lealdade, acreditando cegamente que podia salvar Barse e a
felicidade da jovem. 
   Barse e a situao ali em casa no conseguiam permanecer no
seu esprito mais do que um fugaz momento. Era a lembrana de
Bruce que Lhe enchia a alma. Fez a si prpria inmeras
perguntas e para quase todas achou resposta. Bruce levara o
dinheiro roubado porque era a nica coisa
que havia a fazer. Tornar-se-ia um fora-da-lei; lutaria, se
fosse acossado, para salvar a sua vida. E acabaria por
tombar, vtima da situao voluntariamente criada!
   Pela mente de Trinity perpassou um sopro de insPirao.
Antes que fosse demasiado tarde, seguiria a pista de Bruce,
compartilharia a sua vida de fugitivo, insistiria com ele para
que a levasse consigo para o longnquo Arizona,
e l, comeariam uma vida nova. Casar com Barse, agora?
monologou. Nunca! Nem que fosse o nico homem  flor
da terra!a. A sua admirao por Bruce transformara-se em
adorao. Esta transformao, aliada  sua deciso, mudou
todos os aspectos do passado e do presente, transfigurando-a,
fazendo-a dominar a angstia do seu ntimo conflito. Ia agir

de modo a tornar-se digna de Bruce. Havia como que um xtase
na aventura, na dureza, no perigo que
teria de afrontar ao tentar seguir a pista de Bruce Lockheart
atravs da vastido bravia do Texas.
   Trinity sacudiu os seus devaneios, para se dedicar ao
presente prximo. Alguns momentos de concentrao bastaram-lhe
para traar o seu plano e decidir a melhor maneira de o pr em
prtica. Esperaria para ver a evoluo dos acontecimentos
durante mais um dia ou dois e depois partiria.
   O ocaso coloria j o ondulante panorama quando ela
regressou ao rancho. O jantar estava pronto, mas os homens
ainda no tinham chegado. Depois da refeio, Trinity
sentou-se no alpemdre, consumida pela ansiedade e expectativa.
J era escuro quando os Spencer voltaram. Vinham

22   23

taciturnos e nem palavra Lhe dirigiram. Mais tarde,
aps terem ingerido algum alimento, ela entrou.
   - Hal. pai, porque  essa cara? - interrogou.

   - Ms novas, pequena - replicou Spencer.
   - Trin, o Banco foi assaltado hoje por cinco bandidos
- acrescentou Hal.
   - Vo  ento para nos pormos todos a chorar - disse
Trinity.
   - Ah! este atinge-te especialmente.
   - Como? - perguntou ela, afectando surpresa.
   - Um dos bandidos mascarados foi atingido no chapu
e foi reconhecido. Era... era Bru... um dos membros da
famlia Lockheart - balbuciou Hal.
   - Hal, ias a dizer o nome de Bruce - retorquiu Trinity,
incisiva.
   - Sim. infelizmente a.
   - No acredito nisso.
   - Ningum quis crer, a princpio, mas tivmos de nos
render  evidncia. Barse apareceu na vila pouco depois
do roubo, com o seu fato habitual. Ora os bandidos tinham
todos roupa nova; calas azuis, chapus negros.
   - E Bruce? -- inquiriu Trinity.
   - Era o ltimo de um grupo de seis cavaleiros a fugir
 desfilada pelo caminho do rio. Alguns dos rapazes viram-no e
a senhora Perry tambm. Ouviu galopar perto da casa dela e
quando olhou teve a certeza de que era Bruce. Depois disso,
no voltou a ser visto.
   Spencer abanou a cabea, tristemente.
   - Se no se tratasse de um roubo. A coisa est m.
   - Hal, viste Barse?
   - Sim. cerca de uma hora depois do roubo. Ouviu falar
no caso e estava preocupado.
   - Que disse ele? -- perguntou Trinity-, com intensa
curiosidade.
   - Bom, no ligou grande importncia. Disse que lamentava o
ocorrido, pela me, mas no se mostrou surpreendido. E
acrescentou que os anos passados com os caadores    de
bfalos tinham estragado Bruce.

24

   - Ento. Barse disse isso! - exclamou Trinity, mal
disfarando a sua indignao.
   A senhora Spencer soltou um profundo suspiro e comentou:    
   - Era fcil de ver que Bruce se transformou. Aquela
vida to dura que levava! No podia estar ocioso. Mas,
um bandido? uma pena; era um texano s direitas. Valia
por dez como Barse, um preguioso! Oh! Como o Texas
mudou desde a guerra!
   - Mulher, tens razo - concordou Spencer, pesaroso.
- Mas, ainda assim, no percebo bem este negcio.
   - Trin, que  que tu pensas disto? - perguntou Hal,
com interesse.
   - Eu por enquanto... no fao ideia. Estou muito chocada -
replicou Trinity.
   - No leves as coisas muito a srio, pequena - disse
o rancheiro. - Bruce era quase um estranho para ns.
Estava c em casa, to pouco tempo! Se no fosse pela vergonha
e pelos comentrios, a me no se apoquentaria muito.
   - Barse era o favorito dela - retorquiu a senhora Spencer.
-  um dos tais casos de predileco pelo filho mais fraco.
   - Bom, nessa conformidade, foi prefervel ter sido
Bruce a ovelha ranhosa - disse Spencer.
   - Mas, pai Bruce era um tipo formidvel - observou
Hal, discordante. - Barse no vale o que come!
   - Oh! Filho, essas coisas no se dizem - censurou a me.
   - Desculpa, Trin - ajuntou Hal, de olhar brilhante ao
fixar a jovem. - Mas,  verdade. Oh! Isto at me causa
nuseas! 
   - Hal, agradeo sinceramente a tua franqueza - replicou
Trinity, simplesmente. 
   E, bruscamente, foi para o seu quarto, receosa de se
trair pelo torvelinho de emoes que a assaltavam.
   A rapariga comeou imediatamente a arrumar as suas
roupas num saco,  mistura com o 5 de estimao

25

e algumas economias, que havia longo tempo no contava.
Ficou contente ao verificar que possua algumas centenas
de dlares. Parecia-Lhe uma fortuna. Andava a poupar
quanto podia para o casamento.
   Ela ouviu Hal dizer:
   - Trin encarou o assunto com muita frieza. Sempre
gostava de saber...
   - A pequena ficou atarantada - justificou a me.
   - No admira. Eu tambm fiquei.
   Spencer acrescentou, na sua voz sonora:
   - Filho, aposto que ela j no casa com Barse.  a tua
altura de te candidatares.
   - Ela nunca ser para mim, pai.
   Trinity viu nisto mais uma razo para se ir embora.
Hal conhecia-a e suspeitava que todo o assunto respeitante ao
roubo do Banco se passasse de forma diferente. Quando
Trinity tivesse partido, ele adivinharia a verdade. Mas, a
rapariga no se importava com isso.
   Apagou a luz e deitou-se. Custou-lhe a adormecer mas,
quando o conseguiu, havia dominado a sua excitao. Deixaria
Denison no dia seguinte, tomando a diligncia no cruzamento

das estradas perto do rancho de Spencer. Queria ardentemente
ver Barse, mas, se ele no aparecesse pela manh, no
esperaria mais.
   Trinity dormiu at to tarde que a senhora Spencer teve
de ir acord-la.
   - Levanta-te, preguiosa! Barse est c e quer falar
contigo!
   - Ele que espere. - respondeu Trinity.
   Mas, logo comeou a vestir-se e em breve estava pronta
para ir ter com Barse Lockheart.
   A senhora Spencer comentou:
   - O teu amigo vem todo janota. At parece que vai
para uma festa. Preferia v-lo com o seu trajo normal.
   - Tambm eu, me. Vou falar-Lhe antes de tomar o
pequeno-almoo.
   Saiu a porta da casa para o exterior. Barse estava sentado
no alpendre. Vestia o seu melhor fato e barbeara-se com
 
26

esmero. Trinity no estava preparada para o encontrar com
aquele ar despreocupado, ao lembrar-se das suas ltimas
palavras de desespero para Bruce. Mas, couraara j o seu
esprito contra todas as eventualidades e o melhor processo
era no dar parte de fraca e aparentar naturalidade.
   - Ol, Barse. Hoje madrugaste. para o que  costume -
saudou ela, prazenteira.
   - Ouviste falar... sobre Bruce? - perguntou ele, hesitante
mas esperanado, pois no esperava encontrla de to bom
humor.
   - Sim. Hal contou-me ontem  noite. Fiquei terrvelmente
desapontada.
   - Tambm eu, acredita - replicou Barse, apressadamente,
 medida que o mal-estar da incerteza se esfumava.
   - Como  que a tua me reagiu?
   - Ainda no lhe disseram.
   - Oh! Tencionas ocultar-lhe o caso?
   - Enquanto puder. Trin, esta coisa abaloume. Bruce
enganou-me, tal como a ti e aos outros. Os seus sermes
e tentativas para me regenerar eram apenas uma capa. A
histria de Henderson e a do jogo das cartas faziam parte
do seu plano. E teria dado resultado, sem dvida, se ele
no fosse reconhecido.
   - Parece que Bruce tinha tudo muito bem arquitectado
- respondeu Trinity, fitando Barse serenamente.
   - Trin. isto no... ter influncia nas nossas relaes,
pois no?
   - Oh! Evidentemente que no, Barse.
   - Ainda bem, Trin! s formidvel. Assim, creio que
no precisamos de esperar mais tempo.
   - Esperar? O qu?
   - Para nos casarmos - retorquiu ele, a custo.
   - Tens razo - afirmou a rapariga, no mesmo tom
monocrdico. - Aparece por c logo para combinarmos.
   - Oh! Trin! s incomparvel.
   - Tenho muito que fazer e ainda no tomei o pequeno-almoo. 
  - Vou-me j embora e logo c me tens.
   - Ento, adeus, at...

   27

   Trinity interrompeu-se e foi para dentro.
   - Trinity, comprometeste-te com Barse? - indagou a
senhora Spencer, com aspereza.
   - Sim, me - replicou a jovem.
   - Bom, no posso deixar de dizer que  uma pena -
prosseguiu a velhota, com amargura. - Tu. requestada por todos
os rapazes!. Hal, por exemplo. No  da minha conta o motivo
da tua preferncia, mas o meu filho vale por uma dzia de
Barses.
   - No o nego. Mas no se trata de uma questo de valor.
   - Queres ento dizer que amas tanto Barse que nem reparas
na sua mesquinhez?
   - Am-lo?. Eu desprezo Barse Lockheart.
   - Olha l, pequena tu estars boa da cabea?
   - A me h-de pensar que no, claro.
   - Pelo menos no te compreendo. Por Hal. e por
todos ns. sentir-me-ei aliviada quando te fores embora!
   A Senhora Spencer, habitualmente calma, falara com
um ardor fora do comum.
   - Pois, no tero muito que esperar!
   E, rompendo em soluos, Trinity correu para o seu
quarto. Mas, logo se recomps. A declarao da senhora
Spencer reduzia-lhe o constrangimento. Por isso, decidiu-se a
ir comer.
   - Desculpa, Trin. No ligues ao que eu te disse. Tens
sido boa pequena e todos gostamos de ti. De mais, at creio eu
- declarou a dona da casa, com ar contente.
   - E eu gosto de todos. Nunca o esquea - respondeu
Trinity.
   - Vou  vila hoje. Queres vir comigo!
   - No, senhora. No me est a apetecer.
   - Concordo contigo. Deve haver falatrio e toda a gente
te olhar como a um bicho raro.
   Com as suas ocupaes e no seu estado de esprito, as
horas passaram a correr para Trinity. A diLigncia partia
de Denison cerca da uma hora e passava na encruzilhada
pouco depois. A jovem sentia-se aliviada por estar szinha.
Custava-lhe imenso escrever aquelas poucas palavras, a
justificar a sua atitude quela que para ela fora como me.
Deixou esse encargo at quase  hora de partir. Depois de
tomar um almoo improvisado  pressa, foi ao quarto e
envergou o seu melhor vestido e chapu. Compreendia que
ia abandonar o nico lar que at ento conhecera, mas
estava to absorta na sua aventura que nem sequer sentia
pena ou remorso. Estava em brasas para partir. Podia vir
algum. Pegando no saco, saiu de casa. Ficou paralisada
ao dar de frente com Barse Lockheart.
   - Ol, Trin!. Que  isto? Toda de ponto em branco.
e de mala aviada! - exclamou ele.
   - Barse, vou-me embora por algum tempo -- respondeu ela.
afastando-se do alpendre.
   - Coa breca! - explodiu o rapaz. - Vais-te embora?. .  o
vais!
   E bloqueou-lhe a passagem.
   - J te disse que vou fazer uma viagem --- insistiu
Trinity, indmita.    Sentia uma espcie de onda de calor a

espalhar-se por todo o seu corpo. Era perigoso fazer-Lhe
frente naquela ocasio e a rapariga desejava a todo o custo
evitar a contenda.
   - E eu insisto em no o permitir! - retorquiu ele,
encolerizado. - Est boa essa. Ires-te embora sem dar
cavaco a ningum!
   - No me interessa dar satisfaes. Decidi que queria
ir por mim mesma.
   - Trin, aposto que a tua ideia  bem diferente. -
empalidecera e as sardas do seu rosto haviam-se tornado mais
ntidas, enquanto os olhos se semicerravam numa expresso
malvola. - Mas, eu no te deixarei r.
   - Ai no? Barse Lockheart, no podes impedir-me! - exclamou
ela, perdendo a serenidade.
   O rapaz tentou arrancar-lhe o saco da mo, mas Trinity
evitou-o, afastando-se bruscamente.
   - Ento, o encontro marcado para logo era falso?
   - Sim!
   - Ias-te embora para me fugires?
   - Sim.

28   29

   - Nunca tencionaste casar comigo?
   - Em tempos. Mas; agora, no!
   - Qu?. Agora? s uma traidora!
   - Exactamente. Pretendi enganar-te!
   Ele pregou-lhe uma bofetada, mas ela respondeu-Lhe de
igual modo, com extraordinria energia.
   - Mas, que bicho te mordeu, afinal? - gritou ele,
furioso e envergonhado.
   - Barse, deixemo-nos de conversa. Eu estive ontem
no caminho do rio.
   - Sim? E depois?
   - Estava escondida. Vi-te a ti e a Bruce.
   - No podes ter estado muito perto. E certamente
puseste a imaginao a trabalhar.
   - Que pensas tu que eu imaginei? - retorquiu Trinity,
desdenhosa.
   - S Deus sabe. O facto  que Bruce tentou envolver-me no
assunto do Banco.
   - Que  que ele fez nesse sentido?
   - Ora! Trocando os cavalos. levando o meu chapu
e o casaco.
   - Para qu? - interrompeu ela, incisiva.
   - Eu... creio que para se disfarar... e fugir.
   - Descarado mentiroso! - A voz de Trinity vibrava de
indignado desdm. - Bruce levou o teu cavalo, as roupas
e o dinheiro roubado para te salvar, a ti. ladro! Deixaste-o
arcar com o peso do teu crime! Cobarde! No possuis uma
centeLha sequer de dignidade. Bruce estava to
iludido ao pensar que eu gostava de ti! Quis salvar-te, foi
nobre, grandioso! E eu amo-o, amo-o, a ele!. Vou  procura
dele. quero encontr-lo. partiLhar a sua vida. Anda, regressa
 vila e conta tudo. Diz a verdade. Ah! Aposto que nada dirs.
Se eu pudesse prov-la, era eu quem
a apregoava. Agora, sai do meu caminho, desaparece da
minha vista, rato nojento! Vou-me embora mas feliz por

poder voltar-te as costas!
   Trinity viu Barse sentar-se numa cadeira sob o alpendre, de
cabea pendida, todo ele trmulo. Depois, virou-se e
correu pela alameda, abrandando a marcha para um passo
rpido, dirigiu-se para a estrada. Naquele interldio
violento, descongestionara os nervos. Quase se sentia contente
por Barse lhe haver proporcionado a discusso.
   A estrada ficava a uma milha. Ao atingi-la, estava de
novo tranquila. Viu a diligncia aproximar-se. Entrar nela
era uma dura prova, se algum dos passageiros a conhecesse.
Olhando em volta, observou pela ltima vez o rancho, o lar
que abandonava, o gado e os cavalos ao longo do rio.
   -Adeus! Oh! Adeus!. - murmurou, com o olhar
nublado e o corao oprimido.



   Trinity decidira ir a Doans Post, para ver se obtinha
informaes sobre Bruce. Para isso, tinha de passar a noite
em Ryson e apanhar de manh a diligncia de Red River.
   A jornada at Ryson foi normal. Acomodando-se
confortavelmente, Trinity foi contemplando a paisagem,
sentindo,  medida que as milhas passavam, um progressivo
desprendimento dos Spencer e de tudo quanto significavam
para ela.  sua frente, estendia-se uma vida nova, de dever,
honra e amor; e ela ergueu uma fervorosa prece a Deus
para que lograsse descobrir Bruce antes que ele fosse
arrastado por caminhos tortuosos.
   A regio que a carruagem atravessava era de plancie
ondulante, frtil e entrecruzada de cursos de gua, com uma
mistura de tons verdes e cinzentos. Havia gado a pastar;
de vez em quando, surgia o edifcio de um rancho no meio
do arvoredo: o terreno prolongava-se indefinidamente at
 distncia enevoada, em direco aos confins du bravio
Texas.
   Por fim, Trin ity adormeceu. Foi despertada pelo saco
brusco da carruagem ao parar. Tinham chegado a Ryson,
uma aldeola onde terminava aquela ramificao da carreira.
Havia uma taberna, com o inevitvel "saloon" e os habituais
vaqueiros curiosos de verem quem chegava.
   Trinity s se sentiu bem quando acabou de jantar e se
encaminhou para o quarto, trancando a porta.

30  31

   Os rudos estranhos, as vozes e a algazarra conservaram-na
desperta por longo tempo. Mas, por fim, adormeceu
e, ao acordar, estava fresca e desejosa de reatar a jornada.
Sempre ansiara por viajar, ver novos lugares e novas pessoas,
conhecer o Texas, em suma. 
   A diligncia da carreira principal chegou precisamente
quando Trinity terminava o pequenoalmoo. Era um veculo
enorme, puxado por quatro cavalos. Ela apressou-se
a meter as coisas no saco e a aprontar-se para a longa
jornada, antevendo j as peripcias da mesma. O dono da
pousada comprou-lhe a passagem e transportou-lhe o saco,
muito atencioso.
   - H muitos passageiros? - perguntou Trinity.

   - Vai sempre cheia, menina - replicou ele. - Mas,
o melhor lugar  para si. No se incomode com os vaqueiros.
So bons rapazes.
   Trinity foi a primeira a entrar. Sentiu-se tmida por ser
objecto da curiosidade geral. Seguiram-se vrios passageiros;
era evidente que todos haviam desembarcado para tomar o
pequenoalmoo. Ento, reparou em quatro rapazes que jogavam os
dados para ver qual ocuparia um lugar ao lado dela. Faziam as
jogadas com o maior interesse e a sua conversa constrangia a
rapariga. De qualquer forma, pensou que seria melhor
analis-los. Eram tpicos vaqueiros do Texas, jovens de idade
mas velhos em experincia, altos, esguios, de membros
robustos, trs deles de cabelo cor de estopa e olhos azuis,
com o rosto tisnado pelo sol. Usavam pesados chapus, botas
altas e fatos de trabalho. Trinitynotou ainda que todos
levavam revlveres. 
   Nesse momento entraram os quatro na carruagem, do
lado oposto ao de Trinity. O que depositou cuidadosamente
a sua longa figura junto da rapariga, tirou o chapu, deixando
a descoberto um rosto simptico de olhar inteligente e
sorriso que adoava a dureza das feies.
   - Bom dia, menina - disse, jovial. - Acho melhor
apresentarme agora do que mais tarde. Temos um dia inteiro 
nossa frente e vamos aqui apertados. Sou Lige Tanner, das
bandas de Nueces.

32

   Falava num tom to sincero que Trinity se viu impelida a
responder de igual forma.
   - Trinity! J ouvi esse nome antes. Algum mo mencionou. 
invulgar e bonito. Estes rapazes aqui so meus companheiros.
Fazemos parte do pessoal de Nueces e vamos de regresso ao
rancho, depois de levarmos trs mil cabeas a Dodge.
   - Trs mil! J tinha calculado que fossem guias de gado.
   - Sim, no  das melhores coisas - replicou um dos
dois que tinham conseguido assento em frente de Trimity. - Os
vaqueiros tm melhor fama. 
   - No creio que haja diferena - disse ela.
   - Menina Spencer, a distino reside apenas em que os
guias de gado tiraram o curso de cavaleiros ao mesmo tempo que
o de bebedores e zaragateiros - acrescentou Tanner.
   - No podiam ser apenas cavaleiros, sem o resto?perguntou
Trinity, pestanejando.
   - De modo nenhum, menina. Quando chegamos ao
termo dos trs meses de jornada por aquele terrvel Chisum
Traio acima, temos de beber e desabafar. De outra forma,
nunca esqueceramos o trabalho insano, o calor pavoroso,
os ndios e os ladres de gado.
   -  pena. Mas, alguns guias tm de levar o gado para
Norte.  isso que salva o Texas.
   - Esto a ouviir, rapazes? Aqui est uma moa indicada
para casar com um guia de gado!
   - No temos essa sorte - respondeu Tanner, atrapalhado. -
Menina Spencer, posso perguntar-Lhe para onde se dirige?
   - Doans Post  a minha primeira etapa - replicou
Trinity, apercebendo-se das possibilidades de informaes
e auxlio.

   - Eh! Rapazes, no  formidvel? Dois dias inteiros
com a menina Spencer nesta diligncia! A nossa sorte  de
facto... Mas, com sua licena que quer dizer com primeira
etapa?

33

   - Posso ter de percorrer todo o Texas.
   - Ah? Sim? Que tenha sorte.  um pouco invulgar
para uma rapariga. Anda  procura de algum?
   - Sim - suspirou Trinity.
   - Pais ou pessoa de famlia?.
   - No. No tenho ningum.
   - rf? - inquiriu o rapaz, incredulamente, com
animao nos olhos azuis.
   - Sim. Fui criada por uma famlia bondosa, de apelido
Spencer. Quando era criana, fui perdida ou abandonada
no rio Trinity. Spencer encontrou-me e deu-me o nome de
Trimity.
   - Espere a, j me recordo! - exclamou ele, com
jbilo. - J- ouvi falar de si. Conheo a sua histria.
   - Sim? Afinal, o mundo  bem pequeno. Quem  que
lha contou?
   Tanner pareceu esquecer-se dos outros, to interessado
estava.
   - O melhor tipo que jamais conheci! O melhor amigo
que tive! Salvou-me a vida no Colorado. Ena! Se era rpido com
as armas!. Passei meio ano a caar bfalos e a lutar contra os
peles-vermelhas na sua companhia. Depois, fez uma misso
comigo, a qual acabou h uns seis meses. E pouco antes de
partir, falou-me de Trinity.
   - A caar bfalos. disse? - balbuciou Trinity, sentindo o
sangue correr-Lhe vertiginosamente nas veias. 
   - Sim. Era o que ele mais gostava de fazer. Deve t-lo
conhecido.
   Trinity hesitou antes de responder. Tinha de saber se as   
notcias do assalto haviam caminhado  sua frente, se o
nome de Bruce estava relacionado com ele. Decidiu arriscar-se. 
  - O nome do seu amigo era... Bruce Lockheart?
   - Oh! Com mil diabos! E voc  essa tal Trinity? Tenho
imenso prazer em conhec-la. Rapazes, afinal, esta    taenina
no  uma pessoa estranha:  conhecida do melhor
e que at hoje, eu lhes tenho falado dele, Bruce Lockeart.
   - Lige,  verdade, . Muitas vezes - confirmou um
dos companheiros de Tanner.
   - Especialmente quando as coisas se punham feias e
precisavas da ajuda de um homem a srio - acrescentou outro.   
Trinity foi incapaz de resistir ao impulso que a invadiu.      
- Bruce  meu... meu amigo. Ns... Ns... zangmo-nos. Ele
partiu e eu vou ter com ele.
   - A namorada de Bruce! Vou de surpresa em surpresa!
- exclamou Tanner, apertando-Lhe as mos. O olhar fugia-lhe. -
No percebo como  que Bruce conseguiu... afastarse de si.
Mas ele era um tipo esquisito, orgulhoso. Era a modos que
cioso da sua reputao.
   - Sem dvida.
   - Bom, Bruce no pode estar muito tempo sem fazer
as pazes consigo - profetizou Tanner, alegremente. - Quando 

que ele partiu?
   - H trs dias. No sbado passado.
   - Encontrar Bruce em Doans.
   - Ele ia com pressa. Suponha que eu no o apanho l?
   - Isso  mau. Se se mete por esses caminhos, ser
impossvel segui-lo.
   - Porqu? Sei montar, seguir pegadas, fazer acampamento,
tomar conta de mim mesma.
   - Bem, no o duvido. Parece bem capaz. Mas, para Sul
e Oeste de Doans  terra de bfalos por centenas de milhas.
Demasiado perigoso para uma rapariga sozinha.
   - Posso bem comparar-me com um homem, senhor Tanner.
   - Ah!  bonita de mais. A mim no me engana.
   - Quer apostar?
   - No vale a pena. Esperemos que no seja necessrio
disfarar-se. Oh! Seria uma pena! Esperemos at chegar a
Doans. Talvez no seja preciso grande trabalho. Fale-me de
Bruce. Depois, contar-lhe-ei as minhas aventuras com ele.   34 
 35

   Trinity passou o tempo a ouvir histrias de maravilhosas
aventuras, relatadas por um incondicional amigo de Bruce
Lockheart que, nas coisas mais simples, fazia dele um heri.
Ela sabia de facto muito pouco acerca do trabalho e das
exploraes de Bruce. O rapaz tornara-se famoso na fronteira e
era terrvel admitir que dentro em pouco a imfmia macularia o
seu nome. Tinha de o descobrir a todo o custo e lev-lo para
longe do Texas.
   Passaram a noite numa casa de rancho a cinquenta miLhas a
sul de Ryson. No dia seguimte, viajaram j no corao do
verdadeiro Texas. Trinity viu a sua primeira manada de
bfalos, uma mancha escura que levantava nuvens de poeira e
removia para Norte, no horizonte. O espectculo alvorooua;
Tanner dissera-lhe que ela possua em potencial as qualidades
do caador de bfalos. As ilimitadas plancies cor de prpura
fascinavam Trinity e ela contemplou-as at a vista lhe arder.  
   Ao fim do dia, o vaqueiro apontou para uma linha de
arvoredo serpenteando  distncia.
   - Ali, corre o velho Red River, menina Trinity. Como
o detesto!. Felizmente, no temos de o atravessar desta
feita. Doans Post fica para l do arvoredo,  esquerda.
Chegaremos ao escurecer.
   O crepsculo tombou antes de Trinity poder ver Doans
Post, mas apercebeu-se das fogueiras, grupos de cavalos,
e ouviu o mugir do gado.
   - Vai a entrar uma manada, menina - disse Tanner.
A caminho do Norte, claro. Doans vai ser muito interessante
para si. Poder provar as suas faculdades de resistncia. Ah!
Ah!    Em breve, as luzes comearam a acender-se, pondo em
destaque um grande edifcio quadrado que era o armazm
   geral. O condutor fez estacar os animais com brados
estentreos. 
   - Passageiros para Doans Post! Chegmos.
   Como por encanto, surgiu logo um crculo de ndios e
   vaqueiros.
   - Jim, olha pla menina Trinity enquanto eu vou l
dentro ver se Bruce c est - disse Tanner, saltando da
carruagem.

   - Venha, menina. O degrau  alto e deve estar tolhida
da posio incmoda em que veio durante esta longa viagem -
convidou o vaqueiro Jim, ajudando Trimity a descer. 
- Vamos por aqui.
   Acompanhou a rapariga por entre o grupo de circunstantes
at  construo. Uma vasta e colorida sala, iluminada por
luzes amareladas e um fogo aceso, despertou o seu agrado.
Havia prateleiras e gavetas repletas de mercadorias; e de
inmeras escpulas pendia uma multido de utenslios e
ferramentas. Mas, o olhar acerado de Trinity
buscou entre os homens ali reunidos um rosto moreno que
ansiava e receava ver, ao mesmo tempo.
   Lige Tanner dirigiuse-lhe pressuroso,  frente de vrios
outros.
   - Bruce foi-se embora ontem - disse, rpido e em
voz baixa. - Ainda bem! Compreende, Trinity?
   Os seus olhos inteligentes transmitiram-lhe uma mensagem de
alerta.
   - Oh!: Sim. Compreendo! - murmurou ela.
   Ento os restantes aproximaram-se de Tanner.
   - Eu sou Tom Doan - apresentou-se um, de alta estatura, com
barba, inegavelmente curioso. - Ento, a menina  Trinity
Spencer?
   - Sim, senhor Doan, sou eu.
   - Muito prazer em conhec-la, menina. Conheo a sua
famlia. A minha mulher olhar por si. o jantar est quase
pronto. Mas, primeiro, deixe-me apresentar-Lhe o capito
Maggard, da Polcia da Fronteira. Chegou hoje, por causa
de um telegrama urgente de Denison.
   Trinity procurou revestir-se de coragem. Tanner j a
   avisara. As ms novas haviam chegado a Doans Post.
   - Boa noite, menina Spencer - cumprimentou o gigante
   bronzeado, junto de Doan. A sua expresso, por si s,
irradiava autoridade. A rapariga sentiu o ardor do seu olhar,  
 mas os seus modos eram calmos, corteses e galantes.


36   37

   - Teria tido muito mais prazer em conhec-la noutras
circunstncias, mas esta altura  a mais oportuna para mim.
Quero que me conte o que sabe do assalto ocorrido em Denison.
J mandei dois agentes na peugada desse tal Bruce Lockheart.
Que sabe a respeito dele? 

38


                                    3.


   Trinity encarou o capito com um tremor ntimo que
s a recordao de Bruce lhe permitia esconder. Aqucle
agente da Polcia da Fronteira era inimiga de Bruce e,
por conseguinte, dela.
   - Capito Maggard eu soube de tudo acerca do assalto
ao Banco de Denison e provavelmente sei tanto a respeito de
Bruce Lockheart como qualquer outra pessoa - respondeu ela.   

- Ento, estou cheio de sorte - replicou ele. - Disponho de
poucas informaes e alguns boatos que fui ouvindo pelo
caminho. No  grande coisa.
   - Bem. Vou dizer-lhe aquilo que me lembro - comeou
Trinity, escolhendo cuidadosamente as palavras. - Eram cinco
ladres. Montavam cavalos escuros, envergavam fatos azuis e
chapus negros, com lenos vermelhos a cobrir
o rosto,  maneira de mscaras. Quatro deles saram do
Banco e entregaram um saco ao bandido que ficara l fora
com os cavalos. Quando montaram, algum do Banco, o
caixa senhor Smith, creio eu, comeou a disparar. Uma
bala arrebatou o chapu da cabea de um bandido; este
deixou escorregar a mscara, ficando com a cara a
descoberto. O homem que disparou declara que o reconheceu
como um dos rapazes da famlia Lockheart. O bandido recuperou
o chapu, voltou a montar e afastou-se  desfilada com os
outros.
   - Muito bem - disse o capito. - Esse ladro foi atingido
por alguma bala?
   - Julgo que no - respondeu Trinity.
   - Um dos irmos Lockheart. - murmurou o capito
Maggard. - H alguma suspeita de ambos os irmos terem
participado no roubo?
   - No - replicou Trinity com firmeza, pensando cleremente
e tentando seguir o esquema que traara. - Barse
Lockheart apareceu pela vila depois do acontecimento.

39

   - A concluso lgica, ento,  de que o outro seja o
implicado.
   - Sim,  o que se diz, mas eu creio que o caixa esteja
enganado. Eu conheo Bruce Lockheart. Na realidade,  mesmo um
amigo da minha predileco. Acredito tanto
que ele tenha tomado parte no assalto como se me dissessem que
tinha sido Hal Spencer. ou o senhor, capito Maggard.
   - Menina; no h dvida que as suas opinies so bem
firmes - prosseguiu o capito. - No relatrio,  fcil ver
uma acusao tcita contra Bruce Lockheart. Ele esteve aqui
ontem  tarde. Vinha com uma pressa dos demnios e
consta que se dirigia para Sul.
   - Capito Maggard um dia h-de verificar que est enganado
- disse Trinity, com ardor. - Que  que sabe de concreto,
referente a Bruce Lockheart?
   - Tenho ouvido muita coisa.  bem conhecido no Sul,
como caador de bfalos e nas lutas contra os ndios, um
vaqueiro do Texas s direitas. Nunca houve nada contra ele,
at eu chegar aqui a Doans Post. Alm disto, no consegui
obter grandes informaes de ningum.
   - Bruce  orgulhoso, impulsivo. Quando souber do que
o acusam,  capaz de matar algum.
   - No acredita que ele saiba que andamos atrs dele?
   - No. Era to bom se pudesse mandar regressar os
seus agentes, at se certificar de quem  a culpa.
   - Isso no  coisa que se faa num minuto. Os meus
rapazes j abalaram e provavelmente no terei notcias deles
at encontrarem Lockheart. Foi pena no ter falado consigo
antes de os enviar.

   - H outra coisa, capito. No o disse ainda a ningum
porque no tinha a certeza - continuou Trinity. - Eu tinha uma
espcie de esconderijo para onde costumava ir quando era
garota, junto do rio prximo da minha casa. Ainda de vez em
quando l vou, para observar e meditar. H um caminho que
desce pela margem, em direco aos matagais, no muito
afastado. Durante as ltimas semanas, vi com frequncia
cavaleiros percorrendo esse caminho nos dois sentidos. Um
deles, o chefe, vi-o eu em Denison. Chama-se Belton.
 
40

   O capito Maggard ia a dizer qualquer coisa, mas
conteve-se, fazendo um gesto para Trinity prosseguir. 
   - H algum tempo, a Companhia de construo da via
frrea foi assaltada e o dinheiro dos salrios roubado. Julgo
que os autores foram Belton e o seu bando. No dia do
assalto ao Banco, eu encontrava-me no meu refgio. No
sabia o que tinha sucedido, mas, passada cerca de uma hora
aps o roubo, como depois me disseram, quatro cavaleiros
passaram em direco oposta a Denison. Levavam fatos escuros,
chapus pretos e lenos vermelhos. Passaram a certa distncia,
mas julgo ter reconhecido Belton.
   - Ah! Sim? Cinco a assaltar o Banco e s viu passar
quatro? - interveio o polcia.
   Trinity viu que estava a pisar terreno falso.
   -  como lhe digo. Mas, o quinto podia vir um pouco
mais atrs. Eu fugi logo de ali; posso j no o ter visto.
Apostava em como nunca mais nenhum deles foi visto.
   - Bem, de qualquer modo, menina Trinity, foi uma
informao importante que me deu - respondeu o chefe
da autoridade. - Pode bem suceder que Belton tenha uma
quadrilha organizada e que a acusao contra Bruce Lockheart
seja um caso de falsa identificao. No conheo o nome de
Belton, mas o Texas est cheio de celerados que
mudam de nome conforme o stio para onde vo. Esse grupo
   de Belton era bem conhecido em Denison?

   - Era, sim. Passavam o tempo a jogar e tinham m
influncia em alguns vaqueiros e rapazes novos que l
vivem. Barse Lockheart foi um desses. Associou-se demasiado   
com essa gente e comeou a jogar e a beber exageradamente.
Tanto Bruce como eu tentmos persuadi-lo a deixar esses
maus hbitos.
   - Se Bruce no tivesse partido, seria muito mais fcil
no suspeitar dele. Se est inocente, porque fugiu?
   - Bruce nunca est muito tempo em casa. Desta vez,
tinha mais motivos do que habitualmente para se ir embora.
Ambos os irmos se interessavam por mim e eu.
eu mal sabia qual dos dois me agradava mais. De qualquer   
modo, recusei Bruce e ele ficou melindrado.

41

   - Quando  que viu Bruce da ltima vez?
   Trinity raciocinou rapidamente. Se dissesse que o tinha
visto antes do assalto, seria difcil desdizer-se se, mais
tarde, achasse motivo para contar o encontro de Bruce com

Barse. Decidiu arriscar.
   - Nessa manh, cedo. Foi ento que nos zangmos.
Creio que deve ter partido logo.
   - Poderia provar-se isso. ele ter partido antes do
assalto?
   Aquele polcia era incisivo.
   - Eu... no sei - hesitou ela.
   - Posso saber se a sua presena aqui em Doans Post
tem alguma coisa que ver com Bruce Lockheart?
   - Sem dvida. Quero encontr-lo e convenc-lo a voltar e
provar a sua inocncia.
   -  muito generoso da sua parte, menina Trinity, e
abona muito em favor de Bruce. Obrigado por ter sido to
solcita. Ver-nos-emos quando tiver repousado e comido
algma coisa.
   Trinity foi conduzida ao seu quarto, onde se sacudiu da
poeira e mudou de vestido, pensando constantemente no que
havia dito a Maggard e ponderando se falara acertadamente. As
dvidas assaltvam-na. Talvez devesse ter relatado
minuciosamente o encontro entre os dois irmos. Fora uma louca
em ter partido atrs de Bruce sem primeiro haver estabelecido
a culpabilidade de Barse. Mas, teria sido, como sempre seria,
a sua palavra contra a de Barse. At descobrir Bruce! Ele
podia fazer que o irmo contasse a verdade. E podia tambm, na
sua lealdade mal interpretada, faz-la passar por mentirosa.
Teria de esperar. Pelo menos, tinha fornecido ao capito
Maggard matria suficiente para ele se preocupar.
   Saiu do quarto e foi ao encontro da senhora Doan, do
vaqueiro Tanner e um dos seus companheiros. Quando a
dona da casa se afastou, Tanner virou-se ansiosamente para
Trinity e sussurrou:
   - Este stio  mau para si. Maggard  um passaro.
Estou em pulgas para saber o que se passou entre os dois.
   - A princpio, tive um medo de morte - respondeu
Trinity. - Mas, agora, estou contente por o ter encontrado. Eu
enganei-o a si e ao capito quando disse que Bruce e
eu tnhamos discutido e eu o repelira. Agora, voc j sabe
de tudo. 
   - Ns compreendemos, Trinity, e s queremos ajudar.
Tanto eu como os meus companheiros no acreditamos que
Bruce tenha assaltado qualquer Banco. Agora, escute: A opinio
aqui  de que Bruce foi para iVorte. Isto  o que os
ndios dizem, mas Doan afirma que foi para Sul. Pessoalmente
creio que Bruce ter ido para Oeste- Pelo que conheo dele.
deve dirigir-se para Llano Estacado. Se o quiser encontrar,
tenha em mente que ele deve querer atingir a nascente de um
desses rios. Vai ser difcil descobrir Bruce, mas se
algum o pode fazer  voc. Aconselho-a a vir connosco
para Sul, a princpio, e auxili-la-emos a fazer indagaes
em toda a parte, junto das pessoas que o possam ter visto.
Tinha inmeros amigos e no  provvel que algum deles
ponha a Polciano seu encalo. H lugares de difcil acesso.
No pode ir sozinha.
   - Mas, tenho de ir - replicou Trinity. - No posso
pagar a um vaqueiro ou a outra pessoa para me acompanhar. Alm
disso, no quero mais ningum.
   -  uma atitude desesperada - afirmou Tanner, abanando
a cabea. - Preocupo-me consigo, mas no quero de

   forma alguma impor-Lhe a minha presena.
   - Estou-Lhe muito grata, pode crer - respondeu Trinity, com
sinceridade. 
   Depois de jantar, Trinity, acompanhada pelos vaqueiros,   
foi at  grande sala do armazm e a o capito Maggard,
que obviamente estivera  sua espera, abordou-a com o
   maior interesse.
   - Menina Trinity, quero falar consigo muito a srio.
   Conduziu-a para um banco situado a um canto onde a
   luz no incidia directamente e, convidando-a a sentar-se,   
encarou-a com uma expresso que contrastava ntidamente
com a anterior.

42   43

   - Estive a falar com Tom Doan a seu respeito e fiquei
tremendamente curioso. Perdoe-me se sou intrometido, mas
isto pode significar muito para si.  verdade que o apelido
Spencer no lhe pertence legitimamente? - perguntou.
   - Capito Maggard, o meu apelido no  realmente
Spencer. No sei mesmo qual . Spencer encontrou-me quando eu
era criana num acampamento deserto, junto ao rio Trinity, e
chamou-me Trinity. Ele e a famlia criaram-me e
tm sido muito bons para mim.
   - Bom! Ento, sempre  verdade! Estou interessadissimo.
Agora, oia: Voc , por uma pena, a rapariga que
um amigo meu, Steve Melrose, desposou h vinte e trs
anos. Quando a vi pela primeira vez, fiquei assombrado
com a semelhana. O nome dela era Nfary Hutchinson.
Ela e Steve viveram vrios anos em Shreveport e a nasceu-lhes
uma menina. Steve foi para o Oeste comprar gado e arranjar um
rancho. Depois de tudo tratado, mandou ir
a mulher. Lembro-me de nessa altura ele me ter dito que
devia ter esperado at passar uma grande caravana, mas
estava desejoso de ter Mary e a filha na sua companhia.
Provou-se depois que ela empreendeu a viagem num simples
carro com um condutor. Nunca mais se soube dela. Isto
j l vo uns vinte anos. Quando, por fim, a deu como
perdida, Steve casou novamente. Tem agora um esplndido
rancho na nascente do Brazos River. Steve  agora rico
em cabeas de gado. e durante os ltimos dez anos, sempre
que estou com ele, farta-se de me falar na primeira mulher e
na filha. Trinity, voc devia procurar Steve Melrose!
Diga-Lhe que vai da minha parte.
   - Oh! Capito Maggard! - exclamou Trinity, meio
sufocada. - Acha possvel ser ele o meu pai?
   - Mesmo muito. Estranhas coisas sucederam nestas regies
inspitas. O meu argumento, claro,  apenas a sua
parecena com Mary. Ela era de uma beleza excepcional, que
voc tambm possui. Depois, h o facto de a descobrirem
no rio Trinity. Diga-me uma coisa: tem algum objecto que
a possa identificar?
   - O vestido que eu envergava na altura e um medalho,
em forma de caixinha minscula, que trazia ao pescoo,
pendente de um cordo. Infelizmente, a caixa estava vazia.     
   - O medalho tem alguma marca ou sinal?
   - Sim. A gravura de umas flores, em esmalte, muito
gasta.

   - J  alguma coisa. Quem quer que lhe tenha colocado isso
ao pescoo h-de reconhec-la. Tem alguma ideia da. sua idade
quando foi encontrada?
   - Spencer diz que eu mal devia ter trs anos. Tenho
uma recordao esfumada de fogueiras, cavalos, carros, de
vozes estranhas e agudas. Penso muitas vezes se essa lembrana
no estar relacionada com ndios.
   - Pode muito bem ser. Bem, Trinity, acho que isto
ainda pode operar uma reviravolta na sua vida. Por favor,
v ter com Steve Melrose. Apanhe a diligncia aqui e v
at  estao de Brazos River. Basta mencionar o meu nome
para que todos a tratem bem. Espere l at passar uma
caravana de gado ou de carros para a nascente do Brazos.   
Descubra Steve Melrose e, mesmo Que ele no seja seu
pai, no perde nada em conhec-lo, pois  um velho texano
e um belo homem. A senhora Melrose e os filhos gostaro
imenso de a conhecer. Promete-me que vai?
   - Com certeza, capito Maggard. Oh! Estou emocionada! Se eu
pudesse ver de novo o meu pai! Sonhei muitas vezes com essa
possibilidade. Agradeo-lhe de todo o meu
corao. 
   - ?ptimo. Qualquer dia, apareo por l, para saber o
que sucedeu. Esperemos que arranje um verdadeiro lar. E
esperemos que descubra Bruce Lockheart! Quem sabe se seguiu
esse caminho?
   Trinity quase explodiu, Mas, ficou silenciosa.
   Quando Trinity acordou no dia seguinte, vestiu-se 
   pressa e foi ter com Tanner, que tomava o pequenoalmoo
   na companhia de outros homens que ela ainda no conhecia.
Tanner saudou-a jovialmente, gabando a sua aparncia,    e
informoua de que a diligncia para Sul partiria dentro
   de pouco tempo. Os agentes haviam j sado, em direco
   ao Norte.
   Enquanto Trinity ingeria algum alimento  pressa, a
senhora Doan apareceu com um cesto que Lhe entregou.

   44   45

   - Bom dia - disse, sorrindo. - Leva aqui umas coisinhas
para comer pelo caminho. No deixe estes glutes esfomeados
meterem as mos no cesto. E quando voltar, queremos que se
demore por c mais tempo.
   Pouco depois, Doan acomodava Trinity na carruagem,
   fazendo-lhe oferta de uma manta ndia, muito leve, a fim   
de ir mais confortvel.
   - Pressinto que a nortada vai comear a soprar, hoje
   ou amanh, e assim no ter problemas em se
aquecer. - Inclinou-se para ela e murmurou: - Toda a gente que
por aqui passa  minha conhecida. Darei a todos instrues
para que se informem do paradeiro de Bruce Lockheart. Mais   
tarde ou mais cedo, ele saber que voc anda  procura
   dele. Oxal tudo acabe em bem. Adeus e boa sorte.
   Tanner e os vaqueiros eram os nicos companheiros de
viagem de Trinity. Havia ainda um criador de gado, mas
ia no assento exterior. O condutor era um texano de rosto   
seco, longo bigode amarelado e um modo de rir contagioso.   
Os Doans disseram-Lhes adeus e a carruagem partiu. O arvoredo
em breve ocultou o edifcio e, olhando para Sul, Trinity   

contemplou a planura interminvel de erva ondulante. O cu   
estava coberto e a atmosfera desagradvel. Tanner comentou que
no se admiraria se tivessem mau tempo naquele dia. O piso da
estrada era duro, o que facilitava a marcha dos cavalos.       
   Tanner e os amigosdesvelaram-se em esforos
para entreter Trinity. No havia gado naquelas paragens.   
Tanner afirmou que deviam encontrar bfalos quando passassem
para norte do Brazos. De vez em quando, surgiam
coelhos, veados e passarada diversa. O dia escureceu e o 
vento aumentou. Trinity teve de recorrer  manta que em
to boa hora lhe tinha sido oferecida.
   -  mesmo a nortada - disse Tanner. -  pena, porque a
regio  bonita. Quando sopra o vento norte, no
se v nada, por causa das nuvens baixas e da chuva. s
vezes, l se conseguem umas abertas.
   Cerca do meio-dia, os vaqueiros atacaram os seus farnis e
Trinity dividiu com eles algumas das gulodices que   
encontrou no cesto. feito o repasto, todos foram
tomados pela sonolncia. Dormitou a intervalos e no despertou
completamente mesmo quando as rajadas comearam a erguer
nuvens de poeira e alguns gros de granizo fustigaram a
carruagem. S j no fim da tarde, quando pararam numa
estao intermdia, Trinity conseguiu vencer o torpor que
a invadia. O anoitecer apresentava-se cinzento e frio e o
lume confortvel que aguardava os viajantes foi acolhido
com prazer.
   Pelo que Trinity pde observar, havia naquele local dois
homens brancos e vrios ndios. As acomodaes eram
modestas e o preo elevado, mas o calor reanimava e a
comida bem temperada. Trinity dormiu tranquila na sua
cama coberta com uma manta de pele de bfalo. Durante
a noite, acordou uma vez ou duas com o ulular do vento,
que a fez estremecer e pensar com desgosto que Bruce
talvez no estivesse abrigado naquela noite tempestuosa.
   A jornada do dia sguinte desenrolou-se entre rajadas
intermitentes de chuva, neve e granizo. A paisagem era
obscurecida e os cavalos trotavam monotonamente atravs
da estrada molhada. Esta, porm, era bastante dura,
facilitando o progresso dos animais. No havia nada que fazer
excepto tentar aquecer-se, dormir e deixar correr o tempo. Os
vaqueiros faziam tudo para a animar. Naquela noite,
pararam numa estao menos importante que Doans Post,
mas ainda de certa envergadura como centro comercial, com
o seu habitual complemento de ndios e ociosos. Aquele lugar,
segundo os vaqueiros disseram a Trinity, estava no
trilho de gado de Jesse Chisholm, e a estrada a partir daquele
ponto seguia na direco de Fort Worth, aonde chegariam, se
no houvesse percalos, na tarde seguinte. Mais um dia
lev-los-ia a Robertson, no Brazos River. "Esta
nortada desaparecer dentro de um ou dois dias e o sol
voltar a brilhar. Teremos bom tempo e ento a subida do
Brazos ser um prazer!" E assim conseguiu Tanner convencer a
jovem e despertar nela um novo interesse pela viagem.

47

   Robertsons Post no era particularmente diferente de
Miller; apenas estava pitorescamente localizada na margem

do Brazos. Tinham chegado j tarde, de noite, e Trinity
teve de aguardar at  manh seguinte para observar bem
a localidade. Deliciou-se por ver o sol brilhar de novo
calidamente, animando o rio que ondulava entre as margens
verdejantes. Ao pequeno-almoo, provou pela primeira vez
carne de bfalo e confessou aos vaqueiros que tnha gostado. O
cozinheiro mexicano era realmente exmio e Tanner garantiu a
Trinity que se ficasse ali mais algum tempo teria ocasio de
saborear bons petiscos. O seu quarto era sbrio, mas limpo e
alindado e a janela dava para o rio. O comerciante Robertson
estava ausente na altura e a famlia acolheu Trinity com
afabilidade. Havia ali vrios mexicanos e texanos, mas nenhum
ndio. Algum tempo depois do pequeno-almoo, Tanner procurou
Trinity para lhe dizer:
   - Est tudo a correr bem. H dois carros de mercadorias que
partem amanh ou depois para o rancho de Melrose. Pode
arranjar aqui uma tenda e alguns cobertores. Os homens de
Melrose so com certeza de boa cena. Tomaro conta de si.
Quando se fartar de viajar de carro, pde pedir um cavalo
emprestado. E deixe-me dizer-Lhe que quanto mais se aproximar
da nascente do Brazos mais gostar da regio.
   - Ainda agora aqui cheguei e j gosto bastante. - disse
Trinity. - A que distncia est mais ou menos o rancho de
Melrose?
   - Oh! Fica longe - replicou Tanner, vagamente. - Duzentas
milhas ou mais. O rancho dele est mesmo a montante do rio. Eu
prprio gostaria de o visitar: at ia consigo, se me deixasse. 
  - Agradeo-Lhe muito, mas no devo consenti-lo. Tenho
um revlver e sei tomar conta de mim.
   - L isso acredito eu! - retorquiu Tanner, sorrindo.
- Mas, ainda assim; gostava de a ver enfrentar um bandido!.
Bem, Trinity, o resto das notcias  este: interroguei toda a
gente que encontrei desde que chegmos a Doans. Ningum,
comerciante, ndio ou vagabundo viu Bruce

48

nem ouviu falar dele. Na realidade, eu e os meus
companheiros somos os nicos que exploramos estas paragens. Em
Doans, as opinies eram contraditrias, como sabe. Uns dizem
que foi para Sul. Eu tambm no acredito que tenha ido para
Norte, como Maggard imagina. Quase  partida, consegui saber
pelo empregado de Doan que Bruce lhe deu dez dlares por um
grande volume de mantimentos, e f-lo prometer que no diria
nada a ningum. Isto leva-me a crer que Bruce se encaminhou
directamente para Oeste, para as terras altas, como eu
previra. A caa ao bfalo est no fim e no aparecem muitos
acampamentos de caadores. Dirigir-se- para as Staked Plains
e esconder-se- em qualquer lugar solitrio. Bruce gosta da
caa e da pesca. Para j, voc no perde nada em ir ter com
Melrose, pois tem poucas probabilidades de saber de Bruce at
ele se meter de novo ao caminho, e, de qualquer forma, ir
sempre na direco que eu julgo que ele seguiu. Ele h-de
esgotar as provises, cansar-se- de estar sozinho e ter de
se deslocar. Ento, algures e em qualquer altura, h-de entrar
em contacto com ele. Custa-me muito dizer-lhe adeus,
Trimity, mas tenho um palpite em como vai ser muito feliz.   
Segundo as previses, os carros de mercadorias de

Melrose chegaram a Robertson naquela noite e a partida
para o rancho de Brazos Head foi marcada para o romper
da alvorada do dia seguinte. Levava trs vaqueiros, dois
texanos altos e esguios e um mexicano escuro como um
ndio. O condutor Slade levava a mulher com ele, rapariga
, nova e de natureza afvel, a qual teve o maior prazer na
companhia de Trinity. O outro condutor, Sam, era um texano j
maduro, que permanecia ao servio de Melrose havia largos
anos. Era daqueles indivduos loquazes e alegres,
que falam com todos pelos cotovelos. Interessou-se logo por
Trinity e esta viu que ia ter uma jornada distrada.
   Chamaram-na de manh cedo e, quando os carros j
rodavam rio acima, o disco rubro do sol mal despontava
no horizonte. Trinity sentou-se no banco da frente do segundo
carro com Sam, e do improvisado palanque disse adeus a Tanner
e aos seus amigos. Estes dividiam os seus


sentimentos entre a satisfao por a rapariga caminhar para
um futuro prometedor e a tristeza por perder o seu convvio.   
   - No se esquea, Trinity. Tenho um palpite em como
tudo Lhe correr bem.

49

   Uma manh, Sam ergueu o seu longo chicote e, apontando com
ele, disse para Trinity:
   - Repare acol. Comeamos a estar mais perto.
   - Que ? Perto de qu? - inquiriu Trinity.
   - No est a fixar bem a vista. No v aquele contorno
acinzentado l ao longe no alto, que parece nuvens?
Pois, no so nuvens.
   - Ah! J vejo qualquer coisa.  terra e muito elevada.
   - Claro.  o relevo de Staked Plain.  o ponto de
maior altitude no oeste do Texas. Para l da encosta, fica
o rancho de Melrose. Aposto que, uma vez l, j no querer
partir.
   Profundamente intrigada, Trinity apurou o olhar at se
sentir cansada de observar. Mas, com o correr das horas,
verificou que a configurao se tornava mais distinta. Nessa
noite, a conversa  volta da fogueira foi invulgarmente
animada, na perspectiva de faltar s mais um dia de jornada.   
Slade f-los acordar muito cedo na manh seguinte e,
ao nascer do sol, j iam de abalada. Milhas e milhas de
erva ondulante estendiam-se para trs e para leste, como
um mar de verdura.  luz clara da manh, Trinity teve
diante de si a primeira viso do maravilhoso Llano Estacado.
Parecia muito perto, na atmosfera transparente, mas Sam
afirmou que estava a mais de vinte milhas.
   - De qualquer forma - acrescentou - j no temos
de andar muito, a estrada  razovel e menos ngreme do
que at aqui.
   No houve muitos momentos durante a manh e as prmeiras
horas da tarde que o olhar de Trinity no estivesse preso na
bela pradaria e nas vrias linhes de arvoredo,
que se estendiam como longos dedos at aos desfiladeiros
escuros abaixo da gigantesca escarpa. Para Sul, ao correr
da vertente, comeava uma grande mancha negra, que Sam

explicou ser denso arvoredo a formar matagais espessos.
   - Aqueles matagais prolongam-se por toda a ravina,
numa extenso de centenas de milhas, e l se refugiam
ndios e bandidos. Nem vaqueiros nem polcias jamais encontram
algum que l se oculte.
   Aquelas palavras significativas provocaram um choque
em Trinity. Contemplar aquele terreno selvtico era
compreender o amor de Bruce por ela e a segura proteco que
oferecia a qualquer fugitivo. Por estranha coincidncia, a
rapariga encaminhava-se para a zona mais bravia do Texas.
    tarde, o sol pendia como uma bola incandescente
sobre o rebordo da escarpa e dardejava fortes tonalidades
sobre o terreno acidentado e o declive sinuoso da plancie
que se alcandorava para a base da muralha pardacenta.
Chegaram por fim a um local onde o rio se bifurcava de
novo e seguiram o ramo nrte, que Sam informou ser o
principal. A estrada amarelenta continuava e desaparecia da
vista a cerca de uma milha adiante. Trinity no podia
esperar para ver o que existia para l da curva, E quando,
por fim, a contornaram, ela soltou uma exclamao de surpresa.
Para Norte e Sul, os ltimos troos da plancie, divididos por
linhas de arvoredo, iam juntar-se  encosta. Em frente, a
estrada conduzia a um aglomerado de edifcios de
argamassa, de telhados direitos, e longas vedaes e
estacarias de troncos que desferiam reflexos dourados sb os
raios solares. Mais acima, uma alameda que partia do rio
mostrava por entre as ramarias o alvejar de construes
de paredes brancas. O rancho, com as suas cores diversas,
tinha como pano de fundo o paredo cinzento de dimenses
majestosas, na sua maior parte spero e inacessvel, mas
onde se notava um estreito e profundo desfiladeiro no qual,
evidentemente, o Brazos River tinha a sua nascente.
   Quando se aproximaram dos edifcios, Trinity ficou
   completamente absorvida e mal podia conter a sua excitao.
No ltimo, no esperava ver realizada a profecia do
 
50 51

capito Maggard, mas havia uma possibilidade em mil, o
que fazia transbordar o seu corao. Por fim, quando os
vaqueiros conduziram os cavalos para um dos currais
abertos e Sam parou o carro, Trinity conseguiu dominar
a sua emoo. Naquele momento, no tinha olhos que chegassem
para ver tudo. Alguns vaqueiros, em cabelo e em mangas de
camisa, esperavam a caravana; vrios ndios
deambulavam pelo alpendre e havia cavalos peados e garranos
selados e presos a uma viga. 
   Sam deixou cair o chicote e as rdeas e, descendo pela
roda, bradou:
   - Chegmos!
   Um homem alto e robusto surgiu no alpendre. No
levava chapu e o cabelo farto e grisalho era agitado pelo
vento.  observao intensa de Trinity, parecia reunir todos
os atributos desejveis num texano. Tinha o rosto bem
barbeado, curtido pelas intempries mas suavizado naquele
momento por um sorriso.
   - Ol, Sam! Chegaste mais cedo do que eu esperava.


   - Sim, patro. Arranjei tudo e vim logo que pude. E
trouxe-Lhes ainda uma pessoa para Lhes fazer companhia.
   - J vi, j vi - replicou o rancheiro, descendo
vagarosamente os degraus do alpendre e fitando Trinity com
olhar penetrante.
   - Menina, muito gosto em v-la. Desa e faa favor de se
aproximar.
   Trinity sentiu as faces escaldar e baixou o olhar quando
ele acorreu a ajudla a descer do carro e a acompanhou
at ao armazm. Era um recinto espaoso e colorido, mas
Trinity no via nada com nitidez. Uma vez l dentro, tirou
o chapu e o leno e, alisando o cabelo, olhou para o
homem. Este encarava-a com expresso de quem tivesse
visto um fantasma.
   - Menina... deve... perdoar-me a pergunta - disse,
com voz trmula. - Quem  a menina?
   - Talvez o senhor me possa dizer - retorquiu Trinity,
num fio de voz. - Percorri uma enorme distncia para o
   descobrir. Senhor Melrose, conhece-me?
   - Se a conheo? Claro que no!
   - Pareo-me com algum que... tenha conhecido?
   - Sim - respondeu ele, roucamente.
   - O capito Maggard, da Polcia da Fronteira, mandou-me ter
consigo. Disse que eu era o vivo retrato da sua primeira
mulher.
   - Maggard! Ele enviou-a aqui?   esquisito! A menina
parece-se com... Mary... Diga-me. como se chama?
   - Tenho vivido sob o nome de Trinity Spencer - prosseguiu
Trinity, em voz entrecortada. -, Mas, o apelido Spencer foi-me
dado pelo homem que me encontrou, criana de cerca de trs
anos, abandonada no rio Trinity. Ele recolheu-me. chamou-me
Trinity, levou-me para a sua casa e criou-me, at hoje.
   - Bom Deus! - exclamou Melrose, empalidecendo.
Segurou-a pelos ombros e debruou-se sobre ela, inundando-a
com um olhar extraordinariamente brilhante. -  tudo quanto
sabe dos primeiros anos da sua vida? 
   - Tudo. Lembro-me de fogueiras de acampamentos,
carros, cavalos e gritaria que, s vezes, associo com a ideia
de ndios. A nica coisa que possuo e que pode, talvez,
identificar-me...  isto.
   As mos de Trinity tremiam ao desatar o n do leno
de seda que tirou do casaco. Entregou o medalho esmaltado a
Melrose, que deu a sensao de ter sido picado por uma vbora.
Pareceu a Trinity, naquele momento, que o corao lhe parava e
o sangue cessara de lhe correr nas veias. A sua dvida
tornava-se cada vez mais uma certeza.
   Melrose pegou na caixinha e, ao examin-la na palma da
mo, soltou uma exclamao abafada e voltou-se para a
jovem. O olhar penetrante cedera passo a outro mais
profundo e clido. Tinha o rosto contrado. As palavras
saram-Lhe pausadas, marcadas pela emoo. 
   - Ofereci este medalho a Mary no dia em que nos
casmos, em Nova Orlees. Reconheo-o sem a menor dvida.
Comprei-o num joalheiro que tambm era antiqurio.    Era uma
pea rara e foi usada por uma personagem importante da corte,
no tempo de Lus XV.  inacreditvel!.  maravilhoso! Trinity
Spencer, tu s a minha filha,    a filha perdida durante
longos anos! s a minha Mary,   que ressuscitou para mim.


52   53

   Horas mais tarde, Trinity encontrava-se  janela, num
quarto do edifcio do rancho onde emcontrara um lar. Todas
as suas dvidas haviam sido conjuradas e a ltima, se seria
bemvinda quela famlia e recebida com alegria, fora desfeita
a seu inteiro contento. Era incrvel! Mas, era verdade! Olhava
para as estrelas prateadas que cintilavam no firmamento sobre
a montanha, e o local, o tempo, as circunstncias peculiares,
tudo clamava a grande verdade e a sua ventura. Em silncio,
deu graas a Deus, fervorosamente. Os seus sonhos, que, afinal
de contas, tinham sido as suas preces, haviam-se realizado e,
se o esprito que a tinha guiado lhe dera um pai e um lar,
certamente podia evocar esse Poder Infimito em favor de Bruce,
o fugitivo que se infamara por amor dela e que naquela noite
escura se escondia algures, contemplando o espao. Trinity
rezou por ele e no s a orao como a realizao aos seus
anseios fizeram-na ganhar um no sei qu muito mais profundo
do que a esperana e a f. Perdeu parte do receio que sentia
por Bruce. Esperaria ali no seu novo lar at ter notcias dele
ou at que, se os seus destinos fossem esses, ele a
encontrasse ali um dia.


                                    4.


   Bruce Lockheart estava sentado junto  fogueira do
seu acampamento solitrio, perto de uma das nascentes
do Canadian River. Conhecia o terreno, pois j ali caara
bfalos. At ento, vencera bem a aspereza do caminho
e calculava no estar a mais de dois dias, a cavalo, de
Spideewd Canyon, esconderijo de foragidos, onde a Polcia
nunca havia penetrado. Mas, no queria refugiar-se l se
no fosse acossado.
   - Parece-me que consegui despistar os homens de Maggard -
monologou - mas tive de me comportar como um "comanche".
   O Vero ia em meados, mas no sabia que dia era.
A noite estava fresca e o calor dos ties vermelhos
aquecia-lhe as palmas das mos. O local era to isolado e
agreste quanto podia desejar. As coras pastavam em companhia
do seu cavalo e os coiotes vagabundeavam nas
proximidades das moitas, via luzir os olhos verdes dos gatos
selvagens; os falces nocturnos soltavam os seus gritos
das alturas e o zumbido de uma multido de insectos ao
longo do rio pressagiava a melanclica chegada do Outono.
   - Que vou fazer? - murmurou Bruce. - Dirigir-me
para as margens do Brazos ou para o Pecos, no Novo
Mxico? Ou, para maior garanta, para o Arizona?
   Meditou no assunto. A fogueira esmorecia e ele activou-a.
Tinha um fornecimento de vveres que, com a carne to
facilmente obtida, Lhe duraria at ao Inverno.
   - A  que a porca torce o rabo. O Inverno!
   Ele detestava o frio. No Lhe interessava acampar na
neve ou no gelo. Para j, podia permanecer ali, pescar e
caar, passar o tempo a pensar na rapariga que tinha amado
e perdera, e esquecer, se pudesse - os perdigueiros humanos

que o perseguiam.
   - Fico aqui at as folhas mudarem de cor e depois vou
para os desfiladeiros do Arizona que, segundo me disseram, tm
uma temperatura amena - decidiu, aliviado.

54 55

   Posto de parte o grave problema, Bruce reflectiu sobre
   a sua longa e irregular fuga de Denison. As semanas tinham
sido repletas de incidentes, alguns bem amargos de   
recordar. Fora obrigado a lutar, mas s com velhos inimigos,
criminosos, ladres e batoteiros, capazes de fazer    perder a
pacincia a um santo. A sua fama tornara-o um
   alvo para aqueles que, normalmente embriagados, queriam   
a todo o custo alcanar a glria de o vencerem pela fora
das armas. Fora encurralado pelos agentes da autoridade, mas
livrara-se sempre sem necessidade de gastar munies.
   As suas mos permaneciam impolutas. No dissipara um
   nico dlar do dinheiro do Banco, que representava para
   ele um peso fsico e moral.
   Naquela ocasio, encontrava-se a salvo. Se alcanasse
Tonto Basin, no Arizona, provavelmente no teria mais
preocupaes enquanto vivesse. A regio dos desfiladeiros
selvagens fora povoada por texanos, muitos dos quais
oriundos de Lone Star. Mas, chegar l montado num cavalo
no era empreendimento simples. No conhecia o caminho e
no poderia evitar os acampamentos de gado e as vilas.
   Os agentes tinham comunicado a sua fuga e os bandidos
   sabiam que levava com ele uma pequena fortuna. Tinha a
vantagem de no ser conhecido do capito Maggard nem
dos seus subordinados. Por outro lado, uma aposta entre
Maggard e Luke Loveless, um caador exmio que se
transformara em rico criador de gado, mais incitara o
polcia, ferido na sua vaidade, contra Bruce, que durante
cerca de trs anos fora empregado de Loveless, na altura
de maior crise no Texas. Os homens de Loveless eram
todos de rija tmpera e Bruce destacara-se como o melhor.
   O caso passara-se no "saloom" de Tom Doan e Bruce 
fora informado por alguns homens que o tinham presenciado.
Loveless, j um pouco alegre, comeara com remoques e censuras
 atitude de Maggard.
   - Maggard, l voltas tu  caa s rolas. Vocs tm a
mania de perseguir inocentes. Se Bruce Lockheart se tornar um
bandido ou um assassino, a culpa  vossa. Bruce  to
honesto como eu eto bom rapaz como o meu prprio filho.
Nunca o apanhars vivo; e, se chegares a cerc-lo, o que
eu duvido, tens o desgosto de ver cair alguns dos teus
homens.
   - Loveless, sers pessoa para documentar toda essa
arenga em defesa do teu heri das dzias com uma apostazinha?
- atacou Maggard, irritado com a insolncia.
   - para j - replicou Loveless.
   - Aposto que prenderei Lockheart ou o matarei no
prazo de um ano.
   - Aceito, e com dinheirinho  vista! E ponho outro
tanto em como se apurar que Bruce nunca teve nada a
ver com o roubo do Banco!
   Uma importante soma foi apostada, sendo Tom Doan

testemunha e depositrio das quantias envolvidas. A confiana
de Loveless aquecia o corao de Bruce. Jurou que havia de
fazer que o seu antigo patro ganhasse a
aposta. Porm, nunca poderia provar a sua inocncia. Tinha de
conservar aquele dinheiro roubado. Fizera o sacrifcio para
salvar o irmo e assegurar assim a felicidade de Trinity. E,
para Bruce, o mais triste era verificar quo facilmente podia
ser impelido para o mau caminho, como se fosse um fora-da-lei  
   Bruce passou um ms no seu retiro improvisado. Tanto
ele como a montada precisavam de descanso e a sensao
de segurana e paz fazia um bem infinito  sua alma. Mas,
quando os vveres, excepto o sal e a carne, estavam quase
esgotados e a geada comeara j a branquear a erva,
viu que era tempo de se movimentar. Odiava partir e reatar
aquela vida de constante vigilncia. Despediu-se do seu
acampamento de Vero e meteu rumo ao Norte.
   Caminhou ao longo das escarpas paralelas  plancie.
De poucas em poucas milhas, surgia uma ravina profunda,
onde ele podia encontrar gua. E nem uma s vez observou
vestgios da passagem de seres humanos.
   Mais trs dias de viagem levaram Bruce  crista da
cordilheira onde, de um pico mais elevado, podia ver a

56   57

parte norte das estradas do Texas, que partiam de Panhandle.
Divisou uma nuvem de poeira e logo a seguir uma caravana de
catorze carros cobertos. Era demasiado pequena, a seu ver,
para se aventurar daquela forma em territrio de ndios.
   Bruce teve de percorrer vrias milhas at descobrir um
caminho por onde pudesse iniciar a descida. Quando o
fez e se aproximou mais da caravana, encontrou um rapaz
que conduzia um grupo de cavalos. Bruce acenou-lhe e foi
correspondido calorosamente.
   - Ol, Texas Jack! - saudou Bruce. - Posso seguir
viagem contigo?
   - Com certeza, amigo - foi a resposta. - Como 
que sabe o meu nome?
   - Ora! Topo os Texas Jack  distncia. Conheo mais
de cem. Para onde vai?
   - Para Las Vegas e Santa F.
   - Viu peles-vermelhas?
   - Ontem, tivemos uma escaramua com um pequeno
bando de "Kiowas".
   - Perderam algum gado?
   - S meia dzia de cavalos. Tivemos sorte.
   - Quem  o seu patro?
   - Hank Silverman.
   - De onde  voc?
   - De aco. Samos da estrada principal abaixo de
Doans Post. O Red River estava cheio e no pudemos
atravessar.
   Bruce calculou que, at ali, estava com sorte. No
conhecia Silverman, mas sabia que era um velho texano,
familiarizado com a vida ao ar livre. Quando a caravana
fez alto junto de um ribeiro para acampar, Bruce no
perdeu tempo em galopar at ao crculo de carros.
   - Onde est o vosso patro? - perguntou ao primeiro

homem que encontrou.
   Este fitou-o intensamente, com olhar semelhante ao de
um falco. Hank Silverman s precisava de olhar uma vez
para um texano.

58

   - Ol, forasteiro! - saudou ele. - Vi-o descer da
cordilheira. Os "Kiowas" perseguiram-no?
   - Felizmente, no.
   - Como  que se chama?
   - Durante algum tempo, viajo incgnito. Mas, no
quero deixar de lhe dizer que fui o brao direito de Luke
Loveless durante trs anos.
   - Bom,  uma ptima recomendao, mesmo que eu
no fosse amigo de Luke. Diga-me,  verdade o que eu
ouvi. que ele fez uma aposta sem ps nem cabea a favor
de um dos rapazes?
   - Tambm me contaram, Silverman, e receio que seja
verdade - replicou Bruce, um pouco sobressaltado com o
pestanejar do texano.
   - Bem, no pense mais nisso. Que eu saiba, Lukc
nunca perdeu uma aposta na sua vida. Nem eu me arriscaria
contra ele.
   - Obrigado, Silverman. Posso seguir junto com a sua
caravana durante algum tempo? Estou esfomeado e farto
de andar szinho.
   - Seja bemvindo - retorquiu o velho exploradorEm boa
verdade, se os "Kiowas" nos surgem ao caminho, terei muito
gosto em v-lo connosco. Voc disse que se chama Saunders, no
foi? Pois, amigo Saunders. junte-se aos nossos.
   Tal como Loveless, aquele texano era de um tacto admirvel.
Sabia perfeitamente a quem dava guarida. Bruce colocou a sela,
a trouxa e a manta debaixo de um dos carros e foi oferecer os
seus prstimos. A caravana no era grande no nmero de carros,
mas havia uma desusada quantidade de homens, armados at aos
dentes, e um formidvel conjunto de mercadorias e haveres,
carga preciosa que bem justificava um ataque de bandidos ou
ndios. Na realidade,    tratava-se de um grupo de pioneiros a
caminho do Oeste, tendo como guia o experimentado Silverman.
Deviam ser umas doze famlias, homens, mulheres e crianas.
Estas eram as mais sociveis, embora uma ou outra rapariguita  
 mais espigadota no se coibisse de fazer olhinhos bonitos   
a Bruce.

59

   Jantou com Silverman e os condutores, fazendo as devidas
honras  apetitosa e saudvel refeio. Prestando ateno 
conversa, Bruce pensou como era bom estar de
novo entre gente da suaespcie. Antes de cair a noite,
j se sentia  vontade com aqueles texanos e assegurara-se
de que, de momento, estava a salvo. Quando a caravana
chegasse a acampamentos ou povoaes, ou se encontrasse
com outras caravanas, ou se cruzasse com gente desconhecida,
ento, sim, tinha de se acautelar.    Aps o jantar, juntou-se
ao crculo em torno da fogueira.
   - Estes malvados ndios, se arranjam alguns reforos,

so capazes de nos cair em cima - disse um velho.
   - Hank no partilha da mesma opinio - replicou um
texano curtido.
   - Mas, ainda no samos de territrio Kiowa" - observou um
terceiro.
   - No deve faltar muito.
   Bruce interveio, calmamente:
   - Os "Kiowas" raramente transpem o Canadian River.
   - Por a, j ns passmos h alguns dias.
   - Claro que no podemos fiar-nos at sair deste territrio
maldito - comentou outro.
   O sero terminou cedo. Uns foram fazer a guarda e
os outros dormir. Bruce estendeu-se sobre a manta e, com
a sela como travesseiro, em breve adormeceu. Mas, de novo
em movimento, o seu dormitar no era profundo e os mais
ligeiros rudos despertavam-no. E, de cada vez que tal
sucedia, sentia-se contente por no estar s.


   Os dias passaram em indolente tranquilidade. De vez
em quando, Bruce recordava a amarga realidade da sua
identidade e o perigo da situao criada para livrar de
culpas o irmo.
   Quando a caravana chegou  estrada principal, o caminho
para Santa F, todos os pioneiros haviam aceitado 
Bruce como um dos seus. Silverman era um belo companheiro.
Certa vez, dissera, de forma enigmtica:
   - Filho, acho que era melhor ires procurar trabalho
fora do Texas.
   Bruce sabia que a sua presena podia causar embaraos
a Silverman e resolveu abandonar a caravana na sua prxima
paragem. 

   Certo dia, o grupo de Silverman acampou nos arrabaldes
de Couchos, antes do meio-dia, manifestando todos grande
satisfao. Havia lojas, armazns, "saloons" e casas de jogo
em profuso. Bruce tentou furtar-se ao contacto com os
inmeros vsitantes. Julgou ter reconhecido um, de um grupo de
cavaleiros que apareceu a negociar cavalos. No estava
bem certo: mas a sua vista apurada e memria privilegiada
no deviam engan-lo. Todos os outros se haviam dispersado,
num af de divertimento, deixando a Bruce a liberdade
desejada.    Antes do jantar, Silverman mandou-o chamar e,
quando
ele se aproximou, no precisou de atentar no ar grave do
explorador para saber que qualquer coisa corria mal.
   - Filho, eu no tinha a certeza de seres Bruce Lockheart,
mas agora tenho.
   - Sim? - disse Bruce, entre curioso e inquieto.
   - Lembras-te de Tom Galliard?
   Bruce tomou uma expresso carrancuda.
   - J vejo que sim. O pior inimigo de Loveless, se bem
me recordo - informou Silverman.
   - Loveless jurou que Galliard roubava gado.
   -  verdade, mas no podia prov-lo. Bem, Galliard
esteve aqui com os seus homens. Viu-te e anda para a a
apregoar coisas. Alguns dos meus rapazes ouviram-no. Tenho
imensa pena, mas  melhor ires-te embora.

   - Evidentemente. Mas... que anda ele a propagar?
   - Inclui-te no bando que assaltou o Banco de Denison
na Primavera passada. Garantiu que ia mandar recado ao
capito Maggard; se os agentes te prenderem, ele recebe a
recompensa.

61

   Uma raiva silenciosa invadiu Bruce. Enganara-se a si
prprio, julgando-se em segurana. Mas, mais valia assim
acordar bruscamente do seu sonho. Fixou em Silverman o
seu olhar lmpido.
   - Filho, participaste no roubo do Banco?
   - No, Silverman. Mas, fui acusado disso e no posso
provar a minha inocncia. Guarde este segredo e mil vezes
obrigado pela sua amizade.
   - Escuta - prosseguiu Silverman, em voz baixa - Vou deixar
a maior parte destes homens pelo caminho. Dirijo-me a Tonto
Basin, no Arizona; apenas Higgins e Davis vm comigo. Tenho
dois irmos em Tonto. Desenvencilha-te e vai l ter comigo.    
   - Obrigado.  muito generoso, mas no quero impor-lhe
a minha presena.
   - A Polcia da Fronteira nunca foi at l - replicou
o outro, significativamente. - Anda, desaparece e boa
sorte!
   Bruce foi aparelhar a sua nova montada, um grande
baio que trocara com Silverman pelo cavalo de Barse. Resolveu
dar-lhe o nome de "Legs", atendendo a que, de facto, as pernas
do animal eram a parte predominante da sua constituio. 
   - "Legs!"  o teu novo nome. Aposto que no deve ser
fcil apanharem-te.
   Acabou de preparar as suas coisas e sentou-se,  espera
do crepsculo.
   Todos os acessos para a vila eram escuros e mesmo a
rua principal no devia ter grande luz, devido  poeira
amontoada sobre os lampees. Desmontou ao chegar ao
primeiro armazm e, carregando o saco vazio, proveu-se de
vveres em quantidade e regressou junto do cavalo. O fardo
era maior que de costume, mas "Legs" era um animal
robusto e no sentiria o acrscimo.
   Em seguida, Bruce debruouse sobre o varandim trreo
por alguns momentos lutando contra a tentao de ir fazer
uma visita ao inimigo de Loveless, Tom Galliard. Era uma
boa oportunidade e tinha ma desculpa que no devia ser

desprezada. Depois da lio que tencionava dar-Lhe, era
natural que os outros inimigos seus fossem mais moderados, na
linguagem. Tomada a deciso, caminhou ao longo da rua.
   Por toda a parte parecia haver movimento, poeira e
algazarra. Notava-se logo que chegara gente de fora. Viam-se
alguns vaqueiros de mistura com a multido de condutores,
pioneiros, viajantes e ndios.
   Bruce penetrou no maior "saloon", um recinto enorme
que devia ter servido de celeiro, bem iluminado, cheio de
homens a beber e a jogar. O primeiro que ele viu foi Galliard,
com a sua barba escura. Estava sentado a uma mesa de jogo com
mais cinco. Bruce tomou uma posio favorvel
em frente de Gallard que, a dada altura, olhou para ele.

Estava a baralhar as cartas. Os dedos tornaram-se rgidos
e as cartas caram-Lhe. Toda a pele do rosto que no estava
coberta por barba tornara-se de um tom lvido.
   - Quietos! - trovejou Bruce.
   O barulho de copos, moedas e vozes cessou, provocando
um contraste sinistro com o burburinho anterior. Todos
encararam o intruso, surpreendidos.
   - Galliard, vinha  tua procura! - declarou Bruce,
com voz sonora.
   - Sim? E quem diabo s tu? - indagou Galliard,
colrico.
   - Sou o homem de quem tens andado o dia todo a
espalhar mentiras.
   - Lockheart, hem? Que  que queres?
   - S dizer-te duas palavrinhas.
   - Vamos l a ouvilas, homem!
   - Ladro de gado!
   - Retribuo o cumprimento. ladro de Bancos! - bradou
Galliard.
   - Saca o revlver! - sibilou Bruce.
   Os cinco jogadores que emparceiravam com Galliard
atiraram-se ao solo. Galliard, com o olhar injectado, deu
um salto, partindo a cadeira e levando a mo  arma.
Quando a empunhou, o tiro de Bruce quebrou a sequncia
do seu gesto. O revlver tombou no cho e Galliard caiu

   62    63

de borco sobre a mesa. Bruce aguardou um momento, com
o revlver fumegante estendido, os olhos girando em volta,
e em seguida recuou lentamente at sair do "saloon". O
silncio sepulcral transformou-se numa trovoada de comentrios
e exclamaes, enquanto alguns homens que se encontravam na
rua se precipitavam para o estabelecimento, para se informarem
do ocorrido. Bruce estugou o passo, montou a cavalo e
afastou-se, embrenhando-se na noite escura e melanclica.


   A partir do episdio de Couchos, o azar pairou sobre o
destino de Bruce Lockheart durante um ano inteiro. Para
onde quer que se dirigisse, em todos os stios onde parava
para se ocultar, ou trabalhar num rancho, ou arranjar
emprego em alguma povoao menos central, a sua identidade era
descoberta mais tarde ou mais cedo. Periodicamente, um ou
outro pistoleiro incipiente, sedento de prestgio, fazia
recair nele as atenes gerais, forando-o a fugir.    At
ento, escapara ao contacto com a Polcia, evitando
enfrent-la. Mas, era empurrado para outras disputas, as
quais levavam a gente malvola a ver nele um dos comparsas no
assalto ao Banco, por quem fora oferecida uma choruda
recompensa. No podia modificar a sua aparncia pessoal e
caracTerstica. Por fim, aborrecido e revoltado,
resolveu regressar em direco s paragens selvticas de
Llano Estacado.

64



                                     5


   Com o nimo e os mantimentos muito diminudos, fatigado de
tantos dias sobre a sela, Bruce acercou-se, certa manh, de um
aglomerado de dimenses razoveis. Nos
subrbios, havia vaqueiros a reunir uma manada. O mugir
das reses e os brados dos cavaleiros soavam como msica aos
ouvidos de Bruce. Encontrou um rapazito de pernas arqueadas,
que montava um cavalo sem sela.
   - Ol! - disse Bruce, refreando a montada. - Importa-se de-
me dizer que terra  esta?
   - Ol, forasteiro! - saudou o rapaz, jovialmente - Este
stio chama-se Mendle.
   - Mendle? E onde  que fica?
   - Bom,  bastante afastado de toda a parte. Voc deve
vir dos lados de Lincoln. Que tal o negcio de gado?

65

   - Muito incerto para haver tranquilidade - replicou
Bruce, com desembarao. - Isso  gado do Texas, hem?
Parece muito cansado e cheio de p. "Crculo M". No
me recordo desse "ferro".
   - Tambm nunca o tinha visto antes, forasteiro - retorquiu
o cavaleiro. - Apareceu por a o pessoal do Texas. Barncastle
 o patro, um criador de gado de Canadian River. Conhece-o?   
- Barncastle? No. E  um nome difcil de esquecer.
Ele vai para o Norte?
   - No. Vendeu o gado ao meu patro, que compra para
Chisum.
   - At  vista, rapaz. Vou andando - despediu-se Bruce.
   - Bom dia, forasteiro - respondeu o outro.
   Bruce cavalgou para a povoao, pois tinha de aceitar
esse risco. Em breve, entrou numa rua larga, poeirenta, ,
onde a agitao fervilhava. O lugar parecia idntico a
qualquer outro centro de gado do Oeste. Desmontou em frente do
primeiro armazm, prendeu "Legs" a uma barra e entrou
descuidadamente. 
   - Viva! Quero que me avie depressa, amigo.
   - Ol, rapaz! J  o segundo do grupo de Barncastle
que vem com a mania da pressa.
   - No perteno ao pessoal de Barncastle - replicou
Bruce, secamente, desfiando a seguir o rol daquilo que
queria.
   - Bem, nesse caso, parece-me que temos alguma coisa
de comum - disse o comerciante, enigmaticamente.
   - Que ?
   - Somos ambos texanos. J  bastante, no acha?
   - De certo modo, sim. Mas, Barncastle. no  texano
tambm?
   - No - respondeu o outro, enquanto lhe voltava as
costas para ir aviando as coisas.
   - Passei pela gente dele quando vinha para aqui. Segundo
ouvi, mal chegou, vendeu logo tudo. A quem pertence o "ferro:
"Crculo M"? 
   - A um criador de gado chamado Melrose.
   - Melrose? - repetiu Bruce. -  um apelido muito

conhecido.
   - Sim. Parece que  um rancheiro texano proprietrio
das terras entre a nascente do Brazos e Big Wichita - informou
o tendeiro. - Estabeleceu-se naquela zona do Texas
no h muito tempo, As propriedades so enormes.
   - Conheo a regio - disse Bruce, pensativo. - Os
"comanches" e os "kiowas" estendem-se para norte e lanam os
ataques contra Panhandle. uma rea riqussima em gado, mas
ainda pouco povoada. Barncastle j aqui tem vendido?
   - Sim. Com esta  a terceira vez.
   - Quanto foi que Chisum pagou por esta manada?indagou
Bruce, embora ele prprio pudesse ter avaliado.
   - Cinco dlares por rs.
   - No pode ser! - exclamou Bruce.
   - Pois, garanto-Lhe que foi. Barncastle  que me disse,
ainda no h meia hora. Mil e cem cabeas, cinco dlares cada. 
   - Sem fazer perguntas? - inquiriu Bruce, com um
sorriso sarcstico.
   - Nenhumas.
   - Chisum leva este gado para Dodge e vende-o a vinte
dlares cada rs. Cheirame a negcio escuro.
   - Bem,  possvel que seja - concordou o outro - mas
Jesse Chisum pode faz-lo. Ele compra a toda a gente.
   -  uma raposa matreira.
   - Sim... Espere. Deixe-me atar esse embrulho.  muito
grande. Agora, uma manta. Enrola-se  volta desta frigideira;
a cafeteira pode ir aqui tambm. Seis caixas de cartuchos,
trs para "Colt 45" e trs para "Winchester 4".
Parece-me que o seu cinturo est bastante desguarnecido.
   Bruce anuiu, sombriamente, rebentou a tampa de uma
das caixas e encheu os lugares vagos do cinturo. Os poucos
cartuchos que sobraram meteuos no bolso.
   - Tabaco e fsforos, patro. Creio que  tudo, mas,
como de costume, hei-de esquecer alguma coisa.

67

   - Talvez se lembre ainda. Deixe-me ajud-lo a transportar
este pacote. - Seguiu Bruce desde o interior do
   armazm at  rua. - Esse cavalo, no sei porqu, est
mesmo a condizer consigo. Como foi que disse que se
chamava?
   - Que  que voc disse acerca de Barncastle ser um
ladro de gado? - ripostou Bruce.
   - Oia c, seu espertalho, eu... no disse nada a esse
respeito - protestou o dono do armazm, enquanto Bruce
amarrava a sua bagagem ao cavalo, com dedos geis.
   - Nem foi preciso! Mas, no se apoquente. Eu no sou
linguareiro.
   - Apostava que voc  um desses polcias da Fronteira,
que passaram por aqui h dez dias.
   - Escute bem - atalhou Bruce. - Se algum Lhe
perguntar por um indivduo montado num baio de pernas
compridas, voc no o viu!
   - Ai, no vi, no!
   Bruce montou e, de repente, assaltado por um pensamento,
perguntou ao texano:
   - Onde  que eu poderei deitar uma olhadela a esse

Barncastle?
   - Deve estar no Elks Hotel, possivelmente no bar.
Eh!Qual  a sua ideia?
   - Vou pedir-lhe emprego. At  vista!
   Bruce trotou pela larga e poeirenta rua, tentando repelir a
obsesso que o invadira to intensamente. Atrair as atenes 
chegada a Mendle, seguido de uma partida precipitada no
parecia ser o procedimento mais ajuizado. Mas, ele estava sob
o domnio de um mpeto poderoso e irresistvel. Se aquele
Barncastle era um indivduo srio, como poderia aguentar um
interrogatrio em forma? E, mesmo sem saber porqu, o
interesse de Bruce aumentou.
   Passaram por ele na rua vrios veculos e cavaleiros.
Era cerca do meiodia e via-se pouca gente a p. Bruce
reparou nos grandes chifres de um alce adornando uma
tabuleta no edifcio mais pretensioso da povoao. Metu
"Legs" a trote. Havia ociosos em frente da entrada do hotel,   
68

vrios cavaleiros, gente da terra em mangas de camisa e
um homem de elevada estatura, trajando de preto. Estava
de costas para Bruce. Refreando "Legs" junto ao passeio,
Bruce apeou-se, prendeu a montada e deu a volta at ao
pavimento de madeira.
   - Mas, Barncastle, no posso fechar negcio. antes
de ver. - dizia, com voz trmula, um dos homens em
mangas de camisa ao que vestia de negro.
   - Ai no, que no podes! - foi a resposta, em tom
sonoro e um pouco avinhado.
   Como uma campainhada estridente, aquela voz penetrou
no mago de Bruce, que ficou tenso. Um sobressalto do
corao e uma onda de calor sucederam ao choque. Depois,
uma vontade frrea recalcou-lhe as emoes. Bruce reconhecera
aquela voz. O seu instinto fora como que um man que o atrara
at ali.
   Um cavaleiro franzino que estava ao lado de Barncastle
saltou como se o tivessem queimado.
   - Aquele vaqueiro! - tartamudeou, apontando a figura de
Bruce com a mo trmula, enquanto o rosto se punha cor de
marfim. - Olhe!
   O vulto avantajado de Barncastle fez uma vacilante meia
volta, para mostrar as feies de Quade Belton. Tinha um
aspecto envelhecido, um rosto macilento. Os seus olhos
azuis piscavam e a boca escancarara-se-lhe. Mas, logo o
espanto se transformou em consternao e pavor.
   - Bruce... Lockheart!
   Com uma imprecao de alarme, o outro cavaleiro puxou
da arma. Foi rapidssimo e conseguiu sac-la, mas o tiro de
Bruce foi disparado uma fraco de segundo antes. Ele
dobrou-se para a frente, de revlver pendente, e a sua bala
fez ricochete na rua. Tombou sobre o madeiramento da
berma. Belton, com a expresso descomposta, tentou fazer
fogo mesmo em frente da arma ameaadora de Bruce, que
novamente projectou uma chama alaranjada. O chapu de
Belton voou-lhe da cabea e o bandido caiu de costas.
   Houve uma pausa, depois da qual um arrastar de ps
e tilintar de esporas atestou a fuga precipitada dos
circunstantes. Soavam gritos e os cavalos relinchavam e

escoiceavam.
 
69

   Bruce saltou para a rua. "Legs" recuara, assustado, mas
logo se aquietou. Bruce montou como uma flecha, pegou
nas rdeas, e estendeu a mo armada para a fachada do
hotel.  parte os dois corpos prostrados, o espao
encontrava-se deserto. Belton contorcia-se no que parecia ser
as vascas da agonia. Ento, a um aflorar das esporas, "legs"
largou a galope rasgado. Bruce virou na primeira esquina 
e olhou para trs. Viam-se homens a correr, reunindo-se
num grupo em frente do hotel, gritando e gesticulando, em
volta das duas formas tombadas no pavimento. Ainda conseguiu
ver Belton a revolver-se como uma perdiz atingida pelo chumbo
da caadeira. Depois, a cena desapareceu, oculta pela parede
da esquina. Instantes decorridos, Mendle estava fora do
alcance da sua vista.
   Ento, a tremenda tempestade contida no seu peito,
transformou-se num amlgama de emoes. Toda a m sorte dos
seus dias de fuga fora compensada de uma s vez. Mas,
tinha de se escapar de novo. Os homens de Belton organizariam
uma fora para lhe dar caa. Voltou a olhar para a estrada
amarelenta. No se via nada,  excepo de nuvens
de poeira em disperso.
   Bruce era velho em experincia daquele jogo. Duvidava
de que pudesse ser alcanado na perseguio. "Legs", tinha
sangue ndio, era forte e veloz, incansvel. Mas, Bruce
tencionava abandonar a estrada no primeiro ponto em que
pudesse obliquar sem deixar vestgios. E ele era perito em
ocultar pegadas. 
   Observando uma vezmais o terreno que deixava para
trs, Bruce descobriu que a estrada e as bermas estavam
pisadas de fresco por muitos cascos. A manada marcada
com "Crculo M" seguira aquela rota. Naquele stio,
atravessava um leito seco, por cerca de cem metros, e depois
embrenhava-se nos cedros. Ele podia ser seguido, mas jamais
seria apanhado. A sua direco era sudeste. Algures
para diante, ficava o vasto Llano Estacado, com os seus
labirnticos meandros. Como um ndio, estudou a configurao
do terreno; como vaqueiro, poupou o cavalo e concentrou todas
as suas faculdades num plano de fuga. Quando 
atingiu um outeiro mais elevado, olhou para trs, a ver a
estrada que se assemelhava a uma serpente amarela atravs
da salva cinzenta e dos cedros verdes da plancie. A dez
milhas de distncia, a estrada dividia-se, seguindo o ramo
mais prximo para Sul. A terra negra e pardacenta ondulava
nessa direco, descendo gradualmente, para se envolver 
distncia numa espcie de vcuo de tons prpura, que era a
pradaria.

   Muito para trs, ao longo do caminho, moviam-se manchas de
poeira amarela. quela distncia, o p levantado por carros ou
por gado no seria to visvel. Eram cavaleiros que se
aproximavam em marcha acelerada. 
   Observando aquela mancha amarela em fundo verde,
Bruce meditou. Devia contar com o pior - que os cavaleiros
fossem em sua perseguio. Separar-se-iam na bifurcao da

estrada, provavelmente. Se assim fosse, a sua suspeita estava
certa. E com sorriso sardnico, contemplou a aproximao do
grupo envolto em poeira, como a cauda de um cometa, at que,
em menos de meia hora, o viu separar-se    em duas colunas
mais pequenas, uma das quais guinou para Sul.
   - Dois dias de cavalgada para nada - murmurou. -
Cansar-se-o e voltaro para trs. E depois? 
   O capito Magard e os seus subordinados haviam de
aparecer em Mendle, mais dia menos dia. Saberiam tudo
acerca da visita de Bruce  povoao. Certamente algum
dos homens que estavam em frente do Elks Hotel tenha
escutado a exclamao de terror do pseudo Barncastle, em
que proferira o seu nome.

70   71


                              6.


   Alguns dias mais tarde, Bruce acampou j tarde e quando
acordou na manh seguinte o sol j ia alto e aquecia o
ambiente. "Legs" ruminava a erva ao longo de um regato.
Bruce pouco trabalho tinha consigo prprio. Entreteve-se
a encher o saco de gua, de lona, e o cantil. Refrescado
pela permanncia naquele local aprazvel e acicatado pelo
seu velho plano, entrouxou tudo novamente e saiu da ravina, a
caminho do topo da serrania.
   A dada altura fez "Legs" estacar bruscamente e soltou
uma exclamao. Com nitidez impressionante, surgiu perante ele
o colossal declive cinzentoescuro que conduzia a um planalto.
Estava longe, mas via-se distintamente atravs do ar
rarefeito. O planalto que ele atravessara aprofundava-se por
muitas lguas e terminava numa pradaria que subia
indefinidamente at  crista altaneira - a frente norte,
rendilhada, das famosas Staked Plains dos exploradores
espanhis.
   Bruce, . nos primeiros tempos da sua fuga das regies do
bfalo em direco ao Pecos Valley, contemplara dias a fio
a parte sul do Llano Estacado. Mas, fora muito ao longe,
uma viso enevoada e mstica, uma muralha vertical, estril,
quase espectral, que s os "comanches" se atreviam a escalar.
Ali, tinha beleza e sublimidade. Era como se o atrasse, num
apelo irresistvel. Algures para l daquele baluarte,
num dos muitos desfiladeiros que dele nasciam, haveria um
refgio solitrio para ele, onde poderia caar e pescar, e
esperar, e devanear acerca do seu futuro.
   Todo o dia admirou aquele relevo monumental, como se
ele crescesse imperceptivelmente  medida que ele descia a
longa encosta do planalto. O ocaso encontrou-o a armar o
seu acampamento. Enquanto a luz durou, tentou apanhar
uma cora, mas tudo quanto conseguiu foi caar um coelho
bravo. Cheio de apetite, comeu quase tudo, deixando uma
pequena parte para o dia seguinte.
   Na manh imediata, estava j a caminho antes dos primeiros
alvores da madrugada. Durante todo o dia levou a espingarda
cruzada sobre a sela,  espera de ver surgir
caa. Mas, era notvel a ausncia de animais de grande

porte; e todos os arroios e riachos estavam secos. O facto
preocupou-o bastante. No ousava subir as Staked Plains
sem dar de beber a "legs" e voltar a encher os recipientes de
gua. Os seus receios eram infundados, todavia, pois no
sop da elevao encontrou um belo curso de gua, onde
havia erva em abundncia e caa com fartura. Naquela
noite, banqueteou-se com veado e deitou-se tarde por ter
estado a assar tiras de carne para guardar. Pensou ainda
em transportar uma pata completa do animal, alm da que
cozinhara, mas, como pesava cerca de quinze quilos e a
carne assada duraria mais do que a gua que ele podia
levar, decidiu no sobrecarregar a montada.
   Bruce meditou longo tempo junto ao ribeiro, na manh
seguinte. "Legs" comeu e bebeu tanto quanto lhe cabia no
estmago. Quando chegou a hora de iniciar a subida,
Bruce sentiu uma grave perplexidade. J ouvira texanos
falar no Llano Estacado. No Vero era uma mortal ratoeira.
Mas, estava no comeo do Outono; tinha chovido ultimamente nas
terras altas e ele convenceu-se de que conseguiria   
atravessar a larga crista em direco a sudeste, de forma a ir
sair a norte da nascente do Brazos. De qualquer modo,
a sorte estava lanada e principiou a ascenso a p, indmito
e cheio de energia.
   A subida daquela escarpa era mais extensa do que ele
calculara l de baixo. Por fim, atingiu o cume, fatigado e
a transpirar, e logo sentiu a atmosfera mais fresca. Prximo
do local, o terreno era bastante nivelado para oeste, vendo-se
alguns arbustos e cedros isolados. Para Sul, mais ou menos na
direco que ele devia tomar, notavam-se esteiras
esbranquiadas que se prolongavam at ao horizonte. Ao Olhar   
para Norte, descobriu o planalto por onde viera, mais de   
trezentos metros abaixo. Para o lado da plancie, havia um   
vazio, entremeado de linhas escuras e sinuosas at onde a   
vista alcanava, para se perderem no espao pardacento.

72   73

   O dia estava sombrio e enevoado; o sol no parecia
querer romper e o vento arrastava uma espcie de p.
Era um dia propcio a viajar e Bruce resolveu aproveitar.
Ajustando bem a sela, montou "Legs" e encaminhou-se para
o desconhecido.
   Segundo o seu plano, Bruce no tencionava afastar-se da
cordilheira maisde um dia de viagem. Mas, logo que penetrou na
charneca, concluiu que dificilmente poderia segui-lo  risca.
Para encontrar gua e alguma pouca erva, se as
houvesse, tinha de se adentrar mais pelo terreno baldio.
Folhas dispersas de erva ressequida agitavam-se ao vento;
os cactos e a salva raqutica disputavam a espordicos
arbustos o direito de sobrevivncia naquele solo estril e
pedregoso; alguns troncos carcomidos alargavam ramos nus
e fantasmagricos. O seu olhar atento no lobrigou um
nico ser vivo.
   O dia passou. "Legs" galgara sessenta milhas. Ao pr-do-
sol, a camada de nuvens rompeu-se, deixando os raios
avermelhados do ocaso iluminar sinistramente a plancie,
transformada de um modo estranho. Bruce descobriu gua
numa depresso rochosa; "Legs" relinchou, desgostoso,

ao tomar-lhe o gosto fortemente alcalino, mas, como um
animal esperto, bebeu-a. Um reduzido tufo de erva tambm
no augurava nada bom com respeito a alimento.
   - Podia... ser pior - declarou Bruce.
   E a sua voz, quebrando o silncio pela primeira vez
naquele dia, soou-lhe de maneira singular. Que excessiva
quietude a daquelas paragens. Porm, confortouse com a
prpria solido. No precisava de dormir sobressaltado
naquela noite! Esfomeado, contente com o local para acampar,
pois, apesar de mau, esperava pior, Bruce acendeu uma boa
fogueira, embora tivesse de andar bastante para arranjar
madeira, preparou e comeu uma substancial refeio. Tinha
de poupar a gua e por isso desforrava-se nos alimentos
slidos para conservar o vigor. Dentro de poucos- dias,
cruzaria de novo a cumiada da serra.
   A noite estava fria, de um frio notavelmente penetrante.
Espalhou uma poro de ties no espao que destinava a

dormir, sentindo-se reconfortado com o calor. O local
transmitia-lhe uma espcie de opresso, de peso, que no
conseguia afastar. Todavia, para um fugitivo, aquela solido
era - perfeita; mas, na ausncia de inquietaes, outras
sensaes
o assaltaram, vagas e insidiosas. Se se deixasse absorver
por elas, sucumbir  introspeo, teria sofrido os efeitos
da habitual e dolorosa amargura. Mas, limpando bem a
poro de terreno escolhido, estendeu as mantas, improvisou
a cama e adormeceu.
   Alta noite, acordou, j sem sono. O frio era intenso.
Antes do alvorecer, levantou-se, percorrendo as imediaes
em busca de lenha. Afastada do acampamento, encontrou
uma rvore j morta, que lhe resolveu o problema. A madrugada
rompeu. O cu estava limpo e uma refulgncia rosada incidia
sobre a zona nascente da plancie. U da
adivinhava-se soalheiro e a perspectiva no lhe agradou.
   "Legs" tasquinhara quantos rebentos encontrara, at
deixar as razes  mostra. Parecia aguardar o momento de
partir. Porm, antes de o sol nascer, Bruce estava a caminho.  
   "legs" desembaraou-se bem no terreno duro, onde os
seus cascos mal deixavam rasto. U animoso quadrpede
queria desempenhar a sua misso o mais depressa possvel.
imperceptivelmente, foi-se sempre desviando para Leste, o
que preocupou Bruce, conhecedor do instinto inato de alguns
cavalos. Por isso, deixou a montada progredir  vontade.
   A montona semelhana de cada milha do planalto acabou por
extenuar a ateno de Bruce e parte do seu poder de avaliao.
Mas, a ausncia de pssaros, coelhos, lagartos, de qualquer
espcie de vida, conservou-o alerta. Nos pedaos de terreno
mais lisos, espiava pegadas de coiotes, cuja inexistncia era
igualmente intrigante.
   Ainda o sol no subira mais de uma hora quando Bruce
comeou a sentir-lhe os efeitos. As ilhargas de "Legs"
conservavam-se secas, mas tinham aquecido. U vento ia soprar.
Volutas de poeira rodopiavam aqui e alm. As rvores
rareavam e acabaram por desaparecer. A prpria salva e
os cactos se tornavam menos frequentes.

74   75

   Sem notar qualquer transformao na topografia do
planalto, Bruce chegou sbitamente a uma depresso com
 vrias milhas de largura. Apesar de quase totalmente
desprovida de vegetao, via-se no centro uma mancha verde.
"Legs" pressentiu gua e no precisou de ser dirigido na
sua carreira directa. Em breve, Bruce atingiu uma nascente,
cercada de alcali esbranquiado. A princpio, o cavalo no
quis beber. Bruce desmontou e provo a gua. Era salgada,
embora melhor do que nenhuma:"Legs" bebeu alguma,
relinchou, sacudiu a cabea, tentou de novo, desistiu segunda
vez e acabou por ingerir um longo trago.    Em torno do local,
Bruce observou pegadas de cavalos
e de mocassins. As marcas eram antigas. Iam de sudeste para
oeste. Decidiu segui-las at to longe quanto pudesse, no
sentido da origem. At quela pequena paragem, no se
dera verdadeira conta do calor que fazia. Despiu o casaco
e atou-o sobre a trouxa; depois, reatou a jornada. "Legs"
transpirara agora abundantemente. Bruce seguiu os vestgios
dos cavalos; em alguns pontos, conseguia definir um trilho.
No havia dvida de que provinha da crista, em direco
a qualquer lugar secreto que os ndios conheciam, no interior. 
   Muito antes do meio-dia, Bruce foi acometido de profunda
angstia. Os raios solares vindos do alto e o calor da
radiao proveniente do solo sobreaquecido consumiam
progressivamente cavalo e cavaleiro. Vus transparentes das
ondas de calor erguiam-se como fumo. Rajadas de vento
escaldante, como chicotadas, envolviam-lhe o rosto de uma
poalha fina de alcali. Acabou por cobrir a cara com um
leno. E, entretanto, o incansvel animal prosseguia no seu
trote ligeiro.
   Com o decorrer do dia, o calor e o vento aumentaram.
Seriam mais suportveis se no fosse a poeira e a areia que
os fustigava com aspereza. Bruce recorria frequentemente
ao cantil. De vez em quando, destapava os olhos para
investigar o terreno e olhar para a frente. Se ainda havia
algum trilho, no podia v-lo, atravs da camada de areia.
"Legs" percorrera j cinquenta milhas, pelo menos, naquele
dia. E, de repente, o seu trotar rtmico e seguro sofreu uma
ntida mudana.
   Tinham atingido o areal. As cortinas assustadoras de
areia, movimentadas caprichusamente pelo vento, no ocultavam
o espectculo maravilhoso do mar de dunas que escondia o
horizonte. Legs" abrandou o andamento. As horas
prolongavam-se interminavelmente.    No houve ocaso. mas um
escurecer da luz e o cessar do vento disseram a Bruce que o
dia findara. A areia esvoaante aquietouse; apenas, nas
cristas afiladas das dunas, a prpria curvatura movendo-se
atestava que ainda corria uma aragem. Bruce prosseguiu, na
esperana de encontrar local mais apropriado para acampar.
Rebuscou em vo. A escurido foi cobrindo tudo. Ele parou, a
sotavento de uma dunna. Nem gua; nem erva; nem lenha!
   - "Legs"... tu s um portento, mas se calhar enganaste-te
- disse, descarregando o cavalo.
   Outro dia como aquele p-los-ia em situao aflitiva.
Bruce comeu algnns pedaos de veado e fruta seca. O cantil
estava meio vazio. Um longo trago patenteou-lhe bem o que
era ter sede. O sol roubara-lhe a gua do corpo, como que
o secara. Lembrava-se de ter ouvido falar de indivduos

que haviam perdido mais de sete quilos num s dia.
   Nunca em nenhuma das suas aventurosas jornadas Bruce
se sentira to exausto. Quase indiferente, estendeu-se para
dormir. O torpor invadiu-o logo e s acordou ao despontar
da aurora. "Legs" no estava  vista, mas distinguiam-se as
pegadas. Bruce foi encontrlo a mordiscar uns tronquinhos
secos.
   Regressando ao local onde deixara a sela e a trouxa,
Bruce ficou atnito ao verificar que o seu saco de provises
fora pilhado pelos coiotes. Vrios embrulhos e taleigos
estavam vazios, rotos e dispersos na areia. Todos os seus
mantimentos, excepto um saco com sal e duas mancheias de mas
secas, tinham sido furtados. Bruce sentou-se, desanimado. A
necessidade de gua para "Legs" e, em segundo lugar,
 
76   77

para ele era um imperativo, Dois dias, no mximo
trs como o anterior, liquidariam o cavalo mais possante,
para no falar no homem.
   Porm no estava intimidado; queria era pr-se a cAminho. 
Bruce escarranchou-se sobre ele, com a certeza de
que  vista da resistncia do cavalo, Percorreriam mais sete
ou oito milhas. por entre um emaranhado labirinto de
dunas, O sol foi ascendendo. o vento aumentando e em
breve Bruce teve a sensao de estar num inferno. Perdeu a
noo do tempo e a orientao. Fizera tudo quanto podia
para defender os olhos. As ondas atmosfricas queimavam,
como se fossem falhas de fornos. Quase sufocava com
falta de ar. Durante todo o dia, Bruce calcorreou o
deserto, como se tivesse um objectivo definido. Como um
pesadelo, o sinistro dia passou: o vento esmoreceu, e o sol j 
se escondia no horizonte. Bruce caiu do cavalo e ficou
estendido por terra. Por fim, levantou-se. para retirar os
gros de areia dos olhos e beber a gua que lhe restava no
cantil.
   Depois, fazendo da copa do chapu vasilha, encheu-a com
gua do saco de lona e chegou-a ao focinho da montada,
repetindo a operao duas vezes.
   - No  muito, amigo. Mas, evita que morras de sede.
   "Legs" parecia cansado, mas muito longe da exausto.
No Queria ficar ali por nada. E mais uma vez Bruce fez
f na sua intuio. Se ele no queria repousar, Bruce sabia
que no podia for-lo. Tentou de novo e meteu-se ao caminho.
A noite desceu. O cu era uma vasta abbada azul -escuro, com
incontveis estrelas brancas que dardejavam cintilaes
prateadas sobre as dunas de areia. Era de uma beleza irreal.
Adormeceu na sela, despertou e voltou a cair no sono. Acabou
por tombar no solo. "Legs" parou, de cabea pendida, mas Bruce
s acordou quando o sol comeou a queimar-lhe o rosto.
   Era mais um dia cruel, vermelho, com o vento quente a
soprar. Bruce bebeu cerca de meio litro de gua e deu toda
   a que restava, pouco mais de um litro ao cavalo. As
confrontaes sinistras do dia anterior tinham-se ampliado. O 
sol trespassando-o at aos ossos, tornava-lhe a cabea oca.
Mais de metade do tempo esteve inconsciente; a outra
metade, sentiu e sofreu o vento fustigante, carregado de
areia. as rajadas ardentes, os olhos com picadas e a saliva

seca na boca.
   Se a noite no sucedesse ao dia, com a acalmia daqueles
tormentos, Bruce enlouqueceria e desfaleceria de vez, para
morrer na areia. Mas, O Cavalo continuou a marcha. Bruce
sentiu-se tomado de uma fria sem limites. Aquilo era o
resultado de se ter tornado um fora-da-lei. um fugitivo!
Como podia um homem aguentar Sofrer tanto? fsica e
moralmente No valia a pena viver aquela vida. Preferia
suportar cem vezes a morte, mesmo violenta, do que passar
novamente por aqueles transes. Mais lhe valera nunca ter
nascido. Ele que se apanhasse fora daquelas dunas, que Os
espanhis haviam qualificado de lugar de desolao e
morte!
   Aqueles pensamentos e mpetos colricos a breve trecho
cederam lugar s sensaes fsicas de dor, fome e sede. A
partir de certa altura, a sua nica reaco inteligente passou
a ser agarrar-se ao aro da sela com o mximo das suas foras
debilitadas. A distncia e o tempo tinham cessado de existir.  
 Mas... a horrorosa noite terminou em alvorecer... E em
breve "Legs", trotando para nascente, alcanou a beira do
planalto. Resfolegou fazendo saltar flocos de espuma das
narinas entupidas.
   Bruce olhou em frente aparvalhado, demorando a compreender.
Esfregou os olhos cansados e inchados e voltou a olhar
repetidas vezes. Muito abaixo, um desfiladeiro verde e vioso
estendia-se a partir da ampla vertente do estril planalto. As
cores escarlate, amarela e prpura misturavam-se com o verde,
e o desfiladeiro ia dar a uma pradaria verdejante, atravessada
por uma alameda de arvoredo, viosa, e por um reluzente curso
de gua, que desapareiam no cinzento da distncia. Mais para
Sul, Bruce descortinou uma manada de bfalos. E para Norte,
uma vasta zona da plancie estava salpicada de milhares de
reses bovinas.

   78    79

   Nas profundezas de um desfiladeiro de menor importncia do
Llano Estacado, Bruce e "legs", descansaram e
dormiram todo o dia. Ao fim da tarde, Bruce lavouse na gua
fria e cristalina da nascente e, antes de o sol se
pr,    caou um coelho para o jantar. Mais tarde, junto 
fogueira    que ele no receava ser vista, meditou no que
tinha a fazer.    O gado que vira naquela manh devia
pertencer a Mel
   rose. Precisava de provises e gostaria de saber notcias.  
 Poucas probabilidades havia de que o conhecessem ali. De
qualquer forma, tinha de arriscar. E talvez pudesse arranjar
colocao, com um nome suposto, pelo menos durante
algum tempo. Seria agradvel falar com pessoas e viver
outra vez numa camarata com outros. Tomada a deciso,
disps-se a dormir.
   Quando surgiram os primeiros alvores matinais, Bruce
emergiu do vale, meteu pela margem direita do regato e
dirigiu-se para a pradaria. Uma fileira de rvores ao longo do
fio de gua ocultava da sua vista o edifcio do rancho
e as outras construes e currais. Sentiu-se seguro, na
esperana de ningum o ter visto sair do vale. Convinha-lhe
andar depressa at ao ponto onde a estrada atravessava o

regato. No havia gado nas redondezas do lado sul do ribeiro.
Cruzou dois riachos mais pequenos que vinham da sua direita e
observou que havia outros provenientes do
lado norte. Naquela juno, comeava o prprio Brazos que
engrossava o seu volume e rumorejava por entre a vegetao.
Quando atingiu a ponte pela qual planeava aproximr-se do
rancho, como se viesse da plancie, a sua vista apurada
apercebeu-se de cavaleiros l longe, na estrada. Decidiu
esper-los. No era m ideia apresentar-se
no rancho de Nellrose acompanhado.
   Bruce desmontou e comeu biscoitos e pedaos de carne
que guardara no bolso. Depois, sentou-se a magicar no papel
que devia representar. 
   - Pode ser apenas uma hora. ou vrios dias - murmurou ele.  
Decidira passar por um vaqueiro do Texas, semelhante
quele Jesse Evans que fora o brao direito de Chishom e,
em tempos, companheiro de Billy the Kid. Bruce, no seu
amarrotado trajo de vaqueiro, assemelhava-se a ele. A ideia em
si tinha o seu qu de aventurosa e interessante. Talvez
enganasse at o prprio Maggard! Mas, no, evidentemente,
se algum soubesse do seu recontro com Belton.
   Pouco a pouco, os cavaleiros acercaram-se. Eram quatro
e conduziam dois animais de carga. j mais perto, Bruce
viu que um era mexicano e dois texanos. No conhecia nenhum.   
   - Ol, forasteiro! - saudou um. - Estava aqui a descansar
ao p da ponte ou mesmo  nossa espera?
   - Ol! As duas coisas ao mesmo tempo.
   - Para onde vai?
   - Bem, ia at ao rancho do Brazos, mas j agora gostava de
ter companhia. Sou Lee Jones, das bandas de Ivalde...
   - Sim? Um dos Jones de Big Bend? - replicou o vaqueiro,
sorrindo. - Muito gosto em conhec-lo. O meu nome  Serks, mas
chamam-me Tex. Este  o meu irmo Jim. Aqui, temos Peg
Simpson. e Juan Vasquez.
   Com Bruce apeado e os outros montados, todos se apercebiam
do interesse daquele encontro onde se notava um pouco falta   
de naturalidade. Bruce pressentiu que eles precisavam tanto   
de companhia como ele prprio. Talvez a vida em Brazos
Head fosse mais dura do que ele supunha. Bruce montou e
ficou ao lado de Simpson, um vaqueiro de pernas arqueadas    e
rosto um tanto cmico.
   - Ouve Lee, a mim no me convences tu de que andas
 com essa arma apenas para conforto espiritual - comeou
Simpson.
   Tex Serks olhou por cima do ombro e disse:
   - Claro que no. A essa concluso j eu chegara.
   - Bem - retorqiu Bruce, arrastando as palavras. - ouvi
dizer que esta regio no era das mais "saudveis". E,    pelo
vosso aspecto, parece-me ter encontrado um grupo
capaz de enfrentar qualquer surpresa.


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   - Que ms perspectivas so essas? - inquiriu Jim Serks.
   - Bom, s sei o que ouvi - replicou Bruce. - Com
os caadores de bfalos no h azar. Mas, h alguns
bandidos, por esta zona, capazes de fazer a vida negra a   

qualquer.
   - Ento, vieste do lado dos matagais? Desde onde?
   - Desde o princpio. Sa de Fort Worth na Primavera
   passada.
   - Nesse caso, no soubeste de Melrose ter pedido cavaleiros
texanos para o seu servio?
   - No.  a primeira vez que o oio.
   - Pois bem, no Sul soube-se que Melrose est a ser roubado.
A erva e a gua so abundantes entre a nascente do Brazos e os
dois ramos do Wichita; h lugar para milhes
de reses! Por isso ele tambm planeou convite para os
criadores de gado que quisessem estabelecer-se na regio, mas
avisou-os contra as quadrilhas de malfeitores que tm
aparecido ultimamente.
   - Acho que fez bem - comentou Bruce- -- J h algum que
tenha aceitado a proposta de Melrose?
   - Sim. Bescos vem a caminho, de Red River, com uma
boa manada. E se mandar-mos dizer ao meu tio Jed que
Melrose no mentiu, ele vir tambm.
   - J percebo. Foi por isso que vieste mais o teu irmo.
   - Exactamente. E  por isso tambm que queremos
relacionar-nos com homens a srio. Ns os quatro tencionamos
formar bloco.
   - Rica ideia! Pois podiam incluir-me tambm no
grupo. Sou o que se pode chamar uma bela prenda!
   Soltaram todos uma gargalhada que provava a sua plena
concordncia. A aparncia de Bruce sempre o favorecera e
ele esperava que assim sucedesse quando tivesse de se
apresentar perante Melrose e Slaughter, o seu capataz.    A
medida que caminhavam, um dos macios de arvoredo, como uma
ilha em mar encapelado, obstruiu a viso do rancho e dos
anexos.
   - Olhem ali! Caramba! - exclamou Tex Serks.
   Era, de facto, um espectculo de entusiasmar um rapaz
como ele, que sonhava com o xito, com um lar. O prPrio
bruce se sentiu impressionado.
   - Que so aqueles edifcios baixos e compridos?perguntou
Peg, curioso.
   - Camaratas, meu cabea de atum!
   - Que diabo! Pois, c a mim, se mo dissessem, tomava-as bem
por fortes - gracejou Simpson.
   A observao no era de todo desprovida de senso. Os
dois compridos edifcios estavam situados afastados, em
posio oblqua relativamente  clareira defronte da casa do
rancho: Quando os cavaleiros se aproximaram, Bruce verificou
que as camaratas eram construdas- de slidos troncos. Uma
longa fila de portas e pequenas janelas quadradas, como
escotilhas, dava para um alpendre largo. Na parte de
trs, viam-se chamins avermelhadas. Ao correr de toda a
fachada, tinham uma barra para prender as montadas.
Grandes currais, igualmente de vigas e pranchas grossas,
com telheiros de proteco, completavam o cenrio. Mais
ao longe, junto ao arvoredo, notavam-se mais currais e
cavalarias, bem como estbulos e celeiros.
   - Lee, eu falo, se no te importas - disse Tex.
   - Por mim, acho bem, mas aposto que esse Melrose e o
seu ajudante nos faro falar a todos. .
   - Talvez, mas eu aplaino o caminho.

   Vrios cavaleiros permaneciam junto do extremo sul
da primeira casa, que, conforme Bruce reparou era um
armazm, igual aos que todos os grandes fazendeiros possuam
nas suas propriedades. Seguiu atrs dos companheiros, com as
faculdades todas despertas. Um alto texano, de compleio
robusta e um rosto pronunciadamente tisnado
emoldurado por uma cabeleira branca, devia ser Melrose.
Avanou at  beira do alpendre e bradou:
   - Ol, amigos! Desmontem e faam favor de se aproximar.
   O timbre daquela voz trespassou Bruce como uma espada; era
como se a tivesse ouvido na vspera, desde sempre. Ao lado do
rancheiro, apareceu um indivduo de pequena estatura, j
cinquento de aspecto, com tratos de falco.

 82   83

Decorreram poucos segundos. Nenhum outro homem
saiu do armazm e Bruce sentiu-se aliviado, preparando-se
para avanar.
   - Deve ser o senhor Melrose - disse Tex, desmontando
vagarosamente.
   - Sim, e este  o meu capataz, Luke Slaughter. E vocs
quem so?
   - Eu chamo-me Tex Serks e este  o meu irmo Jim Serks.
   - So alguma coisa a Ted Serks, de Waco?
   - Jed  nosso tio. Estes so Peg Simpson e Juan Vasquez,
que tm estado connosco h vrios anos. Lee chega
aqui. Este  Lee Jones, dos lados de Ivalde.
   - Prazer em v-los, rapazes. Acorreram ao meu pedido
   de mais gente para trabalhar aqui?
   - Exactamente, senhor Melrose - respondeu Tex,
calorosanente. - Foi como que a voz do Texas no dizer do meu
tio. Ele prprio vir, se eu lhe mandar boas referncias.   
   - Por esse lado, eu farei por garanti-las. Oxal venham
muitos mais.
   - Bescos de Red River, vem a caminho com uma manada, cerca
de trs mil cabeas, parece-me. E  apenas o comeo, senhor
Melrose. Vai ter boa companhia dentro de pouco tempo.
   - Ainda bem, Serks - replicou Melrose, iluminando-se-lhe a
sombria expresso. Bruce estava certo de que aquele homem
vivia atormentado e simpatizou com ele. - Luke,
   queria que falasses com estes rapazes e os contratasses j. 
   Bruce dera-se perfeita conta do olhar inquisidor com
   que o capataz estivera a observ-los, especialmente a ele.  
   E perguntou-se ntimamente como  que Jesse Evans, o
clebre vaqueiro, reagiria numa situao idntica.
   Depois de Slaughter ter apreciado os outros quatro, mirou e
remirou Bruce dos ps  cabea. Se Bruce estivesse
habituado ao modo de pensar da gente do Oeste, no se
teria preocupado com a observao de Slaughter.
   - Pertences, ento, aos Jones, hem? Aos Jones de Big Bend?  
  - Sim patro.
   - Qual dos ramos. o bom ou o mau?
   - Bem, lamento dizer que venho do lado mau. Mas no
me deixaram escolher.
   - ?ptimo. Eu tambm tenho gente dessa na famlia.
Encontraste Serks no caminho?
   - Sim senhor. Vim dos matagais.

   - Ah! Sim? Depois falaremos disso. Onde arranjaste
esse 45?
   - No o roubei - disse Bruce, friament. - Comprei-o a um
vaqueiro do Novo Mxico. Perto de Uvalde.
   - No vais ser indiscreto - retorquiu o capataz. - Pareces
um bom Pistoleiro. Corres bem?
   - No h bando no Texas que lhe consiga fugir.
   - Queres um emprego?
   - Sim, senhor. Gostava de ser admitido com o grupo
de Serks.
   - Que  que sabes fazer? - indagou Luke, duvidoso.
   - Bem. Sei cozinhar, lavar loia, cortar lenha. -
informou Bruce.
   - Claro Claro. - atalhou Slau hter, com um largo
   sorriso.
   - Patro, no me julgue mal s pelas aparncias - pediu
Bruce, lamuriento. - No tenho culpa de no dar nas Vistas.
   - s homem honesto? - Perguntou Luke, deliberadamente.
   BRuce encarou-o fixamente, cravando nele o seu olhar
lmpido e sereno.
   - Absolutamente. Mas, no vejo motivo para ter de
contar a minha histria desde criana.
   - Claro que no. Desculpa-me, Jones - rehplicou Slaughter,
apressadamente. -  s curiosidade, podes crer. No me
pareces um vulgar vaqueiro.
   - E quem  que disse que era.
   - Bom. h qualquer coisa em ti e que me leva a querer at
que deves ter passado um mau bocado. Conheo um pouco a
vida da famlia Jones. Sangue bom e mau. Arruinados pela
guerra. Deve ser por isso.

   84   85

   - Pois eu no sou dos piores, desde que no me desviem do
bom caminho.
   - No serei eu que o faa, Jones. Mas, nenhum texano que
conhea a vida como eu negar que tu s um bom atirador.
   - Tomo essa observao como um elogio, mas ser impedimento
para me empregar?
   - De maneira nenhuma - declarou Luke. - Jones,
no preciso de te dizer que o trabalho aqui ser duro. No
me refiro ao trabalho braal, mas s correrias desenfreadas,
aos tiroteios. Compreendes?
   - Agrada-me a misso. Por isso  que estou aqui.
   - Muito bem. Quanto queres ganhar?
   - Nada de especial, desde que tenha comida, umas botas e
alguma roupa quando precisar.
   - Pois bem, Lee Jones, ests contratado e ters tambm
o teu salrio. Mas, agora reparo que em questo de botas
ests j muito necessitado. Onde  que apanhaste essa terra
   vermelha?
   - Deve ter sido no Red River, patro.
   - Outra coisa, como  que vocs querem ficar alojados?
- Dirigiu-se Slaughter ao grupo.
   - Patro, se no faz diferena, gostaramos de ficar
juntos - respondeu Tex Serks.
   - J calculava. E vem ao encontro da minha ideia de
os considerar um rancho  parte.

   - Que quer dizer com isso?
   - Temos o pessoal dividido por seces. E no quero
distribu-Los a vocs pelas outras. Preciso de um pequeno
conjunto que possa estar hoje aqui e amanh noutro stio
qualquer. Gente gil no galopar, hbil em seguir pistas e
rpida com os revlveres.
   - J percebo. No  propriamente para cuidar do gado, Bem?  
 - Este Vasquez  seguidor de pistas?
   - O melhor do Texas - foi a lacnica resposta.
   - Algum de vocs cozinha?
   - Simpson  perito.
   - Eu no sei, mas logo aprendo.
   - Combinem vocs essas coisas. Disponham de dois
compartimentos para se acomodarem. Vo buscar o que precisarem
ao armazm. Cacem os animais que precisem para se proverem de
carne. E estejam prontos para receber ordens.
   O capataz entrou no armazm, no qual Bruce verificou
existir tambm um escritrio. Melrose estava j l dentro.
   - Bem, rapazes, isto vai de vento em popa - disse ele,
alegremente. - Descarreguem os cavalos e toca a tomar
posies. ,
   Os quartos eram bastante espaosos, com quatro beliches
cada, sobrepostos dois de cada lado da diviso. Uma mesa,
cadeira, lanterna, fogo, lavatrio e espelho.
   Bruce foi buscar a sela e a trouxa, para o quarto que
ia compartilhar com Peg. Enquanto desfazia as suas coisas,   
peg apareceu ajoujado sob um enorme fardo, que deixou
   tombar no cho, com um suspiro de alvio. Bruce sorriu.
   pegando em dois baldes, foi  procura de gua,
contentssimo com o desenvolvimento que a situao tomara. O
seu fito era ver sempre qualquer indivduo que chegAsse o
rancho antes de ser visto por ele, desde que fosse possvel.   
Com os dois baldes na mo esquerda, transps o alPendre

deu a volta ao armazm.
   Subitamente, viu Trinity no limiar da porTta. Deixou
cair os baldes e ficou de boca aberta, o nome dela
suspenso dos seus lbios. Trinity ouviu o rudo dos baldes   
a cair e reparou em Bruce no momento exacto em que este
lhe fazia sinal para que guardasse silncio.
   Com a emoo, mal dominara a situao, evitando o
grito mesmo a tempo e dirigir-se para ele a correr.
   Bruce tirou o chapu com um gesto estudado e conseguiu
fazer a sua parte, e disse em voz alta:

   - Bom dia, senhora. Chamo-me Lee Jones, de Uvalde
um dos novos empregados do senhor Melrose.
   - Que fazes aqui, Bruce? - sussurrou a jovem, com mal
contida ansiedade e prestes a romper em soluos de felicidade. 
   - Podia perguntar-te o mesmo, Trinity - respondeu
   ele, em voz baixa - Mas, agora, no posso falar. Vai ter    
 86   87

comigo ao fim da tarde ao desfiladeiro a norte de aqui.
E no esqueas que o meu nome  Lee Jones.
   - Muito prazer em conhecer-te, Lee - disse Trinity,
sonoramente e em tom jovial, com um sorriso de despedida.
   Bruce demorou-se. Enxaguou os baldes, encheu-os e bebeu um

longo trago. Era gua da nascente do Brazos. Quando ergueu os
olhos, Trinity entrava no armazm e Peg
Simpson, carregado de embrulhos, saa a correr, como se
fosse perseguido.
   Depois de entrar no quarto, Bruce encontrou Peg de
joelhos diante de uma pilha de sacos que bviamente deixara
cair, completamente desnorteado.
   - Lee, reparaste naquela apario de sonho? - inquiriu,
eloquentemente.
   - Reparei em qu?
   - Que diabo! Naquela rapariga, a filha do patro!
   - Ah! Sim. Vi uma rapariga a fora, vi - retorquiu
Bruce, por sua vez desorientado, colocando os baldes no cho.  
 - E no dizes mais nada?
   - Que havia de dizer?
   - Cus! Agora, acredito que no s vaqueiro. De qualquer
forma, ainda bem que no s do gnero conquistador. Mas ela
sorri-me como m anjo. E Slaughter disse: "Trinity, quero
apresentar-lhe um dos meus novos empregados, Peg Simpson".
Lee, parece-me que ela simpatizou comigo.
   - Ena! s um tipo com sorte.  a filha do patro,
hem? Haver mais alguma?
   Bruce deixou o companheiro, com o crebr em perfeita
confuso. Porque estava Trinity ali no rancho de Melrose?
E porque lhe chamavam a filha do patro? Oh! Mas,
era reconfortante v-la novamente! A impacincia mal o
deixava esperr pelo encontro combinado.
   Entrando de rompante no armazm, Bruce perguntou
onde  que podia encontrar lenha. Slaugther estava sentado
a uma mesa com Melrose e ria com vontade, enquanto 
rancheiro sorria. Trinity, atrs do pai e com uma mo no
seu ombro, sorria tambm.
   - Eu no lhe dizia?. - conversava o capataz. - Ah! s tu,
Jones? Queres lenha, no ? Aqui no armazm no h mas, se
abrires a porta das traseiras da tua camarata, vs uma poro
enorme.
   - Obrigado, patro - agradeceu Bruce, um pouco
surpreendido pelo tom prazenteiro do capataz.
   Ia a retirar-se quando Melrose lhe fez um aceno.
   - Espera a. Trinity, este  Lee Jones, outro dos
meus homens. Jones, apresento-te a minha filha Trinity.
   detrs do pai e do capataz, sorriu-lhe de um modo
encantador, com a esperana reflectida no fundo das
pupilas. Queria que aqueles homens gostassem dele. E disse:    
   - Muito prazer em conhec-lo, senhor Jones.
   Bruce fez uma reverncia, quase tocando com o chapu
no cho.
   - Menina, o prazer  todo meu.
   Depois, saiu para o alpendre, deu uns passos, parou e
p?s-se a observar uma nuvem de poeira na estrada. Em
seguida, chegou  porta da camarata e chamou:
   - Eh! Rapazes, venham c. Vm a uns cavaleiros.
   Simpson acompanhou Tex Serks at ao alpendre. Todos
olharam para Norte, na direco em que se aproximavam
os visitantes.
   - Cinco. Tudo depende de quem so.
   - Vocs deixem-se ficar aqui, Tex - disse Bruce, friamente.
Talvez no seja nada de importncia. Eu vou l dentro arranjar

umas coisas.
   - Lee, eu j me palpitava que tu no andavas  vontade -
disse Serks, com ar srio.
   - Tambm eu, Tex. Olhar sempre inquieto, ouvidos
atentos como uma lebre. - acrescentou Peg, no mesmo tom.
   Bruce deu o brao a torcer.
   - Desculpem, amigos. Tm razo, mas juro-lhes que
no  motivo para no continuarmos bons companheiros.
   - Eu dou-me por satisfeito com essas palavras - replicou
Peg. - E tu, Tex?

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   - Tambm. Mantenho sempre a atitude inicial. Ou sou
a favor ou contra. Vai l para dentro, Lee. Ns tomamos
conta do barco.
   Bruce entrou no edifcio, arregaou as mangas e continuou a
tarefa comeada por Peg. Ouviu os vaqueiros dirigirem-se ao
armazm, onde Serks informou:
   - Patro, vm a uns cavaleiros.
   Slaugther replicou, desinteressado:
   - E ento? No ests  espera de que sejam "comanches", eh?
Todos os dias aparece gente.
   Melrose, no entanto, aconselhou:
   - Trinity, deixa-te ficar aqui dentro.
   As mos de Bruce desenvolviam tanta actividade como
o seu esprito. O quinteto podia pertencer  Polcia da
fronteira ou  quadrilha de Belton. De a a pouco, estavam
ali e Bruce decidiu aguardar os acontecimentos, para depois
agir em conformidade.
    Acabando de bater a massa para os fritos, Bruce cruzou a
porta das traseiras e ficou agradavelmente surpreendido
ao dar com um estreito alpendre, com prateleiras dum
lado e lenha cortada e arrumadinha do outro. Levou umas
achas para dentro, acendeu o lume e ps gua a ferver.
Distinguiu o rudo de cascos no exterior, estalar de cascalho
e som de vozes que o fizeram chegar-se  janela,
rgido e cauteloso.
   Os cinco cavaleiros permaneciam montados junto 
barra de madeira. Um olhar de relance sossegou Bruce:
no conhecia nenhum deles. Slaugther avanara at  beira
do alpendre para falar aos recm-chegados, mas Bruce no
conseguia v-lo nem a Melrose.
   - Ol, Stewart! Ento, no desce?
   Um cavaleiro alto, de rosto por barbear e olhos negros
e penetrantes, de feies no totalmente grosseiras, deitou
fora a ponta de cigarro que lhe pendia dos lbios e disse:
   - Hoje, no, Slaugther. Trago apenas uma mensagem
para Melrose.
   - De quem? - inquiriu Slaughter, secamente.
   - Do meu patro, Barncastle. De quem havia de ser?
   Barncastle! Ento, no havia matado Belton quando o
atingira, pensou Bruce, admirado e aborrecido.
   - Diz l o que  - replicou o capataz.
   - S falo com Melrose.
   Slaughter foi chamar o rancheiro. Uns passos pesados
anunciaram o movimento de Melrose. Bruce escutou, atravs das
frinchas entre as tbuas, a voz sumida de Trinity,

aconselhando qualquer coisa que o rapaz no percebeu. O
rancheiro saiu do edifcio. Aparentemente, mostrava-se
calmo, mas Bruce adivinhava-lhe uma revolta interior. As
relaes entre Barncastle e Melrose deviam ser pssimas.
Porque no tinha acabado com ele em Mendle?
   - Pois bem, Stewart. Desembuche, mas despache-se. - disse
Melrose. - Olhe l, como  que eu sei que fala em nome de
Barncastle?
   - Melrose, tem de acreditar em mim. Alm disso, sou
bastante mais do que um simples moo de recados.
   Slaughter interveio, custico:
   - Gerente de negcios, scio da firma ou qu?
   Stewart olhou com desprezo para o pequeno capataz
e no se dignou responder. Bruce, acostumado toda a sua
vida a lidar com homens sem escrpulos, via atravs daquele
como se se tratasse de cristal transparente. Aquele indivduo
tinha mais fora do que Belton. No havia dvida que Melrose
se metera com ms companhias. 
   - No me interessa o papel que voc desempenha junto
de Barncastle. Diga de vez o que pretende.
   - Tenha calma - disse o outro, com sarcasmo. - Trata-se do
seu funeral, no do meu.
   - Se for de algum, ser de Barncastle - replicou o
rancheiro, encolerizado.
   - Foi por isso que o patro me encarregou de vir c.
talvez para evitar uma srie de funerais. Primeiro, Barncastle
quer uma resposta definitiva sobre a proposta de sociedade.   
- No aceito as condies dele. Onde esto as cinco
mil reses que eu lhe dei o dinheiro para comprar?
   - A manada vem a caminho.  longa a jornada.

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   - Porque  que voc e os seus homens no ficaram
l para a conduzir aqui?
   - Foram ordens de Barncastle. Linden, que lhe vendeu
o gado, prontificou-se a traz-lo.
   - Stewart - prosseguiu o rancheiro, tentando manifestamente
dominar-se - eu s pretendo ser razovel. Mas, estou muito
escaldado e farto disto. Em Dodge City, onde
vi Barncastle pela ltima vez, pedi-lhe o dinheiro que lhe
havia emprestado. Ele disse que o tinha gasto na manada.
Disse-lhe que fosse ao Banco levant-lo; comeou com
desculpas. Depois, fui eu prprio ao Banco e l no
conheciam Barncastle: Sa de Dodge e ele seguiu-me at
aqui. Pode dizer-lhe que no me interessam quaisquer propostas
at que a manada chegue ou ele me devolva o dinheiro.
   - Melrose, arrisca-se a perder o gado e o dinheiro -
afirmou Stewart, sem rodeios.
   - Qu?! - exclamou o rancheiro, com o rosto vermelho de
ira.
   -  como lhe digo.
   - E a mim parece-me que ainda  a forma de perder
menos! - concluiu Melrose, voltando-lhe as costas e
regressando ao armazm.
   Stewart acendeu outro cigarro. Mantinha-se imperturbvel e
aparentemente agindo segundo ordens. Se Bruce conhecia bem
Belton, este devia ter mudado muito para enviar Stewart como

intermedirio. Os outros quatro cavaleiros permaneciam nas
selas, fumando tranquilamente mas atentos ao desenrolar da
conversa. No eram jvens vaqueiros; possuam, pelo contrrio,
aquele aspecto de dureza amadurecida que Bruce recordava no
bando de Billy the Kid.
   - Slaughter, o teu patro no costuma esfriar depois
dos ataques de azedume? - perguntou Stewart.
   - A maioria das vezes - retorquiu o capataz. - Mas,
agora, duvido. A mim tambm no me caiu bem.
   - Muitos como tu tm sido convencidos de coisas
piores. Sers capaz de falar com ele?
   - Evidentemente, se vir motivo para isso.
   - Ento, l vai. Barncastle no  nada bom para inimigos. E
o meu grupo est com ele, catorze dos bons, homens do Missuri
e dos territrios ndios, sem qualquer prstimo para os
texanos. Melrose est aqui sozinho, 
testa de cinquenta mil reses. Pelo menos, era o que tinha, at
ser pilhado por essa quadrilha que por a andou. Quase
lhe limparam a zona de Little Wichita. Pois bem, numa
regio to grande e desprotegida como esta, arrisca-se a
perder todo o gado antes de se ter estabelecido. Precisa
de Barncastle e dos meus homens. Se fores esperto, podes
persuadi-lo a esquecer o desentendimento com o meu patro
e a aliar-se com ele. Fiz-me compreender, Slaughter?
   - Claro que sim. E nunca nenhum texano apanhou
alguma vez com uma luva dessas no rosto que no a devolvesse
do mesmo modo. Se nos conhecesses bem, no tinhas perdido
tempo. Fora de aqui, Stewart, tu e os teus homens.
   Bruce teve a certeza de que Stewart, no ntimo, ficara
   radiante com o desfecho da entrevista. O lugar-tenente de   
Barncastle devia ter urdido algum plano para seu exclusivo   
proveito. Sem mais palavras, Stewart fez um gesto aos
outros e partiram todos pelo caminho por onde haviam
chegado. Slaughter voltou ao armazm. Tex Serks e Simpson
form ter com Bruce, com os olhares chamejantes. 
   - Lee, ouviste tudo? - perguntou Tex.
   - Absolutamente tudo.
   -E ento? Vimos para aqui em boa ou m hora?
   - Em boa hora para Melrose - respondeu Bruce, com firmeza.  
 Bruce chegou  janela e viu Melrose e Trinity de brao
dado, com o gesticulante capataz ao lado deles. Viraram
no carreiro que conduzia ao edifcio do rancho. Parecia a   
Bruce que outra grande oportunidade se lhe deparava. Por   
muito que fizesse, no conseguia pr de parte essa ideia.
   Mas, arriscar-se-ia a contar o que sabia, pondo em perigo   
a sua segurana? O capito Maggard passaria por ali
algum dia e talvez chegasse mesmo na altura crtica. Para
bem de Melrose, Bruce s podia desejar que os agentes
viessem depressa. Seria Belton ou aquele ardiloso Stewart

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quem precipitaria o sombrio desfecho? Bruce inclinava-se
para que o segundo fosse o instigador. Belton estava a ser
atraioado, tal como ele traa Melrose.
   - Anda comer - chamou Simpson.
   Bruce foi sentar-se  mesa com os companheiros. Por
assento, tinha um caixote. A comida estava boa e todos

tinham apetite. Mas, no entender de Bruce, no devia ser
essa a razo do silncio quase absoluto.
   Quando terminaram, Tex disse:
   - Bem, Lee Jones, que pretendias dizer ao afirmar que
tnhamos aqui chegado em boa hora para Melrose?

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                                    8.


   Bruce enrolou um cigarro com desenvoltura, atirou o
chapu para a nuca e observou os perspicazes texanos com
insistncia.
   - Tex, acho que  a minha vez de fazer perguntas.
   -  verdade. Pergunta l, ento.
   - Bem, antes de as fazer, quero dizer-lhes que tenho
a certeza de que Melrose est a ser burlado e roubado e
que, se ns no interferirmos, ser morto em discusso
provocada de propsito ou em alguma emboscada.
   A reaco dos seus quatro companheiros foi de viva
surpresa. Peg Smpson soltou uma exclamao, Vasquez
um sopro sibilante e Jim Serks ficou embasbacado a olhar
para Tex, que vibrava como o ponteiro de uma bssola.
   - Coa breca!. Lee, podes provar isso?
   - Sim. Barncastle no  o verdadeiro nome do ganadeiro que
Stewart diz ser seu patro. E, se cria gado, 
coisa muito recente.  um bandido, to mau quanto o Oeste
os fabrica. E cobarde e traioeiro. Ele e o bando de
stewart tm roubado o gado de Melrose, com o "ferro"
Crculo M, aos milhares de reses! De momento, no interessa
saber como obtive a informao. Quanto a Stewart, deve ser
tanto esse o seu nome como Barncastle  o do
outro. Aposto que mais dia menos dia apuraremos que
Stewart  um dos conhecidos ladres de gado, de Novo
Mxico ou Arizona. De qualquer maneira, j viram bem
o seu gnero. capaz de qualquer negcio, por mais porco
que seja. Deve ser a fora que suporta Barncastle. O que
ele diz  lei. E  de supor que pretenda uma ruptura
definitiva entre Barncastle e Melrose. Depois, roubaro
pequenas quantidades, que levaro para norte e oeste, e faro
um ataque em forma, aps o que se acoitaro nos matagais.
Julgo que Stewart quer sair depressa, ter este rancho
liquidado para a prxima Primavera.

   95

   - Sim, senhor! Muito bem apresentado - comentou
Serks quando Bruce terminou.
   - Agora, nam - sossegou Bruce. - Acham que
devemos pr Melrose e Slaughter ao corrente dos factos?

   - No. Creio que ainda  cedo - replicou Serks. -
Aguardemos, a ver o que sucede a seguir. Talvez consigamos que
Slaughter passe para o nosso lado, sem ter de lhe contar tudo.
Ele no  parvo; deixemos que nos conhea melhor. Talvez
Barncastle irrompa por aqui brevemente, o que, no meu
entender, seria muito mau para ele. 
   Os cinco homens concordaram. Nesse momento, apareceu o

filho mais novo de Melrose, Jack. Era um rapaz dos seus
dezasseis anos, socivel, que envergava com bastante
garbo o fato de vaqueiro. Usava um revlver de forma um
tanto ostensiva. Bruce travou logo boas relaes com ele e
calculou que ainda podia vir a ser-lhes til. De facto, logo a
seguir, o rapaz disse:
   - O pai est apoquentadssimo com a questo de
Barncastle. E Luke est pior que uma barata. O pai rrceia
ter sido precipitado e demasiado suspeitoso. Est assustado e
quer que Luke proceda com calma. Luke queria mand-los a
vocs tirar a limpo a tramia de que ele est certo, mas o pai
disse-lhe que esperasse.
   - Jack, vais ser uma ajuda preciosa para ns - disse
Tex
pensativo. trocando um olhar com Bruce. - Importas-te de nos
dizer o que pensas de Barncastle 
   - Se me importo? At fao gosto. Odeio esse indivduo! -
declarou Jack, com um vigor imPrprio da sua pouca idade.
   A escurido tombava gradualmente e Bruce estava ansioso por
ir ter com Trinity. Levantou-se com naturalidade    e disse
que ia tomar ar.
   - Olha que no espero por ti, Lee - gracejou Peg.


   Bruce aprontou o cavalo, em silncio e sem ser visto,
e dirigiu-se para o desfiladeiro, meio receoso de que Trinity
no fosse e temendo tambm as suas prprias emoes. 
   Mas ao cavalgar por entre as vertentes do desfiladeiro,
ouviu alegre relinchar no que foi correspondido, e o seu
corao pulou de alegria. Passado um momento, viu Trinity
junto de uma rvore, com as rdeas da sua montada na mo, e
ele saltou de cima de "Legs" ainda antes de ele parar.
   Quando caram nos braos um do outro, nada mais importou.
Bruce sentia-se pago de todos os seus anos sem amor, da
terrvel provao da sua fuga para sobreviver.
   Trinit escondeu o rosto no seu ombro e apertou-se contra 
ele, num choro convulsivo. Mas, no foi longo o seu pranto.    
Recostou-se nos braos dele, enxugando os olhos e
fitando-o. 
   - Trinity! s tu, em carne e osso! -Explica-me, antes
que eu endoidea, como  que venho encontrar-te aqui?
   - Oh! H tanto para dizer! Anda, vamo-nos sentar.
   Pegou na mo de Bruce e conduziu-o para uma rocha
   atapetada de musgo, perto da vertente.
   - Trinity, no foste seguida?
   - No! Ningum sabe que estou aqui. - Bruce sentiu-se
empurrado para trs contra a rocha e,    inacreditavelmente,
Trinity estava de novo nos seus braos. 
   - Bruce, lembras-te daquele dia. no caminho do rio,
   perto do rancho de Spencer. quando te encontraste com
   Barss, trocaste as roupas e os cavalos e levaste o
dinheiro?
   - Lembrar-me! - replicou Bruce, amargamente - Quem me dera
esquecer!
   - Bem, eu estava escondida nos arbustos e vi e ouvi
tudo.
   - Ento, sabes a verdade acerca do roubo?
   - Sei, sim. Foi ele o ladro, a assaltar o Banco com Belton

e no tu. Depois, atravessaste-te...
   - No h dvida de que percebeste a troca. - disse Bruce,
respirando fundo.
   - Tomaste a culpa de Barse sobre os teus ombros,
pois pensavas que eu gostava dele e que ele pudesse casar
Comigo. a nossa felicidade estava em jogo.

96   97

   - Sim, foi isso que eu imaginei.
   - E tambm porque gostavas dele.
   - Sim
   - E a tua me, fizeste-o por ela, tambm, porque
Barse era o seu favorito.
   - No. no! Porqu neg-lo, Trin - disse Bruce.
   - Fiquei to espantada que nem fui capaz de te chamar
- replicou Trinity. - DePois, fugiste. E tudo o que fiz foi
sem menhum proveito. 
   - Porqu, Trin?
   - Primeiro, estavas enganado a meu respeito. Eu j
me tinha apercebido de que era a ti que amava. Decidi
seguir-te, para te encontrar, no me importando para onde
fosses nem o que fizesses. Eu... eu queria que regressasses,   
que contasses a verdade. fazer-te obrigar Barse a admitir  a
sua falta. Se no quisesses, compartilharia da tua vida
fosse qual fosse.
   - Rematada loucura, Trinity.
   - Bem, loucura ou no, era essa a minha ideia. Mas,
fiz tudo imperfeitamente. Devia ter dito s pessoas em
Denison, antes de partir... que estavas inocente. Agora...
pode ser demasiado tarde. se voltasses... Tenho ms novas,
Bruce.
   - Quais so?
   - Barse voltou  mesma vida de beber e jogar. Morreu
Bruce. Foi morto durante uma questo de jogo.
   - Meu Deus! - murmurou Bruce, com voz rouca.
   Trinity ergueu-se sobre os joelhos e abraou Bruce com
ternura.
   - E... a me. - perguntou com voz rouca.
   - No posso dizer que tenha pena de Barse, mas de tua me
tenho. Ficou muito em baixo - disse Trinity, com
voz trmula. - Se regressasses agora, a menos que fosses
ilibado de culpa, seria um rude golpe para ela. E podias
ser morto antes de o conseguirmos.
   Bruce olhou para a rapariga.
   - Vou ter de matar muita gente - disse, com tristeza.
   - Esse  que  o mal.  isso que eu receio. Esses Polcias. 
  e os outros que possas encontrar. De qualquer forma,
sossega, porque a tua me est bem entregue. Os Spencer
tomaram conta dela.
   - Oh! Ainda bem. Foi um grande choque a morte do
meu irmo. Mais tarde ou mais cedo, tinha de acontecer.
   - Bruce, o mal no tem remdio j. Agora, no podes
mudar as coisas. O que temos de fazer  planear... a deciso
que devemos tomar. ,
   - Trin, antes de prosseguirmos, fala-me de ti. onde
tens andado, como e porque ests aqui.
   Trinity contou-lhe da sua viagem de Denison at a Doans

Post; at ao rancho de Melrose, de Lige Tanner e do capito
Maggard. e como demonstrara-ser filha de Steve Melrose.
   - Ah! Trinity, isso foi formidvel. Deus seja louvado!
   - So as nicas notcias boas que tive desde que parti.
   - As nicas Bruce? - repisou bem a jovem, colocando as mos
nos braos dele. 
   Ele atraiu-a a si.
   - No, Trinity. Tinha-me esquecido. Estou desorientado.
   De novo ela o enlaou pelo pescoo e Bruce estreitou o
seu corpo gentil e palpitante de emoo.
   - No, Trin. No podemos continuar nisto. - disse ele,
afastando-a bruscamente de si.
   - Porque no?
   - Sou um homem marcado. Tenho a cabea a prmio.
E tu tens todas as vantagens. s filha de um rico rancheiro! 
No posso mais envolver-te. Se fosses apenas a Trinity Spencer
de outrora?
   - No ters muito a dizer a esse respeito se me amas
como pareces amar-me.

    luz plida da lua-nova, o olhar de Bruce estava cravado
em algo indefinido, numa espcie de fascnio. Recordava-se to 
bem da graciosa cabea, da figura esbelta e airosa, os ps   
pequeninos envoltos em mocassins, o cabelo ondulante enrolado
numa trana. ah, Ela desenvolvera-se e o seu encanto aumentara
com o decorrer do tempo. As suas pupilas escuras erguiam-se
para ele, num misto de alegria, adorao e tristeza,

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tambm. Subitamente, ele sentia que o amor
que desde sempre lhe dedicara atingira um indizvel grau
de intensidade nos ltimos meses de ausncia e privaes
de toda a espcie.
   - No o negas, Bruce - disse ela, sorrindo com doura. -
Temos de pensar na maneira de partir e no stio para onde
iremos. Tenho o crebro cheio de projectos.
   Bruce afastou-se dela e comeou a percorrer a clareira,
para trs e para diante. Trinity sentou-se numa pedra a
observ-lo. Os pensamentos dele perdiam-se na vastido do
Texas, do Oeste, e contudo, na pequenez que para ele
representava. Quade Belton, Barncastle e Melrose, pai de
Trinity. Uma ideia se destacava mais entre as outras que
lhe oprimiam a mente: Belton no viveria muito quando
ele voltasse a encontr-lo. Pelo menos, Melrose ficaria
descansado por algum tempo. Depois, a fuga novamente, sempre
alerta, sempre perseguido. Isto, porm, tinha ele de ocultar a
Trinity.
   - Trin, fala-me mais sobre o rancho de Brazos Head.
   - O pai tem vrias propriedades entre o Brazos e Big
Wichita.  a melhor fazenda do TeXas.
   - E tem havido roubos de gado?
   - Oh! Apenas boatos, rumores. O pai diz que no 
nada de importncia. Resultados do crescimento e do progresso
da regio!
   - Pode ser mais srio do que ele pensa. E acerca desse
tal Barncastle?
   - Oh!. Tambm sabes disso? - retorquiu Trinity.

   - Mais do que tu imaginas. E ouvi a conversa entre
Stewart e o teu pai e Slaughter.
   - Iam ser scios. Agora, nunca mais sero - respondeu
Trinity, com certo ardor.
   - Quem  que Melrose julgava que ele era?
   - Barncastle declarou ser um grande criador de gado,
com um rancho no Kansas e outro a seguir  fronteira do
Novo Mxico.
   - Nunca o viste
   - De perto, no, Bruce. Mas, porqu todo esse interesse
pelo senhor Barncastle? 
   - Onde est ele agora?
   - Deixou esta regio h coisa de um ms e levou os
seus homens. H vrios dias, chegou um mensageiro a
dizer que Barncastle tinha sido ferido em Mendle com
gravidade mas no mortalmente. Mas... porque perguntas isso?   
- O mensageiro disse quem feriu Barncastle?
   - Tenho a certeza de que no. O pai ficou como louco.
Seria capaz de ir sozinho dar-lhe caa.
   - Trin, creio que devemos ir-nos habituando s surpresas -
dise Bruce. - Fui eu que disparei sobre Barncastle. Maldita
seja a vaidade que me levou a julgar que nunca precisaria de
atirar duas vezes sobre o mesmo homem. Barncastle  na
realidade Quade Belton.
   - Oh! No! - exclamou Trinity, dando um salto.
   - , sim. E para a outra vez no errarei a pontaria.
   Trinity acercou-se do rapaz e ps-lhe uma mo no brao.
   - Tem mesmo de haver a outra vez? - perguntou.
   - Receio que sim, Trin.
   - No Que  que te tornaste, Bruce? Um pistoleiro
sanguinrio? Todos com a mesma mania... Ver qual  o mais
gil. Triste porque no o mataste  primeira... Oh! J sei o
que vais dizer: "foste provocado". Mas, porque no nos
limitamos a sair de aqui... os dois juntos?
   - Nem pensar nisso, Trin. No conseguiramos atravessar as
pradarias.
   - Tu fizeste-o! Sou to boa amazona, tenho to bons
conhecimentos da vida ao ar livre como qualquer vaqueiro.
Podamos partir esta noite... ou amanh.
   - Davam pela tua falta - observou Bruce - e iam-nos no
encalo.
   - Bruce, podias voltar pelo mesmo caminho. Eu
levava mantimentos e havia de arranjar maneira de ir ter
contigo ao Novo Mxico. Podamos ir para o Arizoma e ningum
nos encontraria. 
   - J passei por tudo isso, Trin. De resto, Barncastle,
Belton e Stewart tm de ser impedidos de agir. So perigosos
como vboras. O teu pai, importante como , precisa 
de aUXliO.


100   101

   - Oh! s teimoso... casmurro, tal qual como eras!
- gritou Trinity, furiosa.
   Bruce no fez caso.
   - O processo  sempre o mesmo - disse ele. - Uns
roubos pequenos, outros de maior vulto, depois um grande

golpe final, e Melrose ficar arruinado. Entretanto, Belton ou
Stewart, se realmente este anda a enganar Belton,
desaparecem e vo fazer das suas noutro stio.
   - E tu julgas que podes obstar a tudo isso?
   - Tenho de tentar. 
   Trinity fitou Bruce pensativa
   - Desculpa ter perdido a calma - disse ela. - Fui
egosta. S pensei em ti... e em mim. Tens razo. Mas,
como  que exactamente te propes enfrentar Belton? No
podes ir atrs dele. No h provas de que esteja implicado no
roubo de Denison. Pode andar por onde lhe apetea e tu no.
   - No sei o que deva fazer - disse Bruce. - Trin, se
eu prometer ir-me embora mais tarde e encontrar-me contigo.
quando tudo estiver melhor, concordas em que eu fique aqui
para ajudar o teu pai?
   - Oh! Sim, sim, sim! - exclamou Trinity, aproximando-se
dele novamente. - Mas, tens de prometer... Estaremos os dois
alerta. Se vierem os polcias ou algum que te
conhea... partiremos... Tu vais primeiro e eu depois.
   Bruce nunca compreenderia como teve nimo para encarar
aquela jovem destemida e mentir-lhe.
   - Muito bem.  assunto arrumado.
   Com um suspiro de alvio, Trinity anichou-se nos braos do
rapaz
.  - s uma pequena maravilhosa.
   - Se pensas assim, no achas que mereo recompensa?
   - Sim... Mas, todo o ouro de todas as minas do mundo
no seria suficiente.
   - No quero ouro. Quero ser amada. Esquece-te de que
s Bruce Lockheart, por momentos. Querido, o prmio que
desejo  beijar-te tanto que me esquea de todos os beijos
que perdi, no s em Denison, quando andava de cabea
no ar sem me resolver, como de ento para c.

   O luar imundava o local. Bruce estreitou-a nos seus
braos e meditou na ventura inacreditvel daquele momento. E
no que tenCionava fazer: desiludir Trinity e abandon-la. Mas,
seria ela capaz de levar por diante a sua resoluo?
   - Bruce, tenho de ir-me embora. No me fica bem vOltar para
casa tarde.
   Bruce acompanhou-a pela clareira at  orla do arvoredo,
onde Trinity deixara o cavalo. Ela voltou-se e olhou Para ele. 
  - Bruce lembrar-te-s sempre, quando me vires olhar-te
que estou a dizer-te: "amo-te?" deste modo de...
   - Nunca me esquecerei. - afirmou ele, gravemente.
   - Assim  que eu gosto de ti - replicou ela, sorrindo.
   E atirando-lhe um beijo com as pontas dos dedos,
desapareceu nas sombras. 

102   103



                                    9.


   Na manh seguinte, os cinco amigos estavam a tomar o
Pequeno-almoo na camarata de Bruce quando Slaughter

entrou e pediu a Bruce que levasse Jack Melrose para irem
caar veados ao longo dos matagais.
   - Caar veados? - perguntou Bruce, admirado.
   - Sim... Mas, aproveita para investigar tudo, gado,
pegadas, cavaleiros, o que aParea. Compreendido? E para j
precisamos de carne...
   A fim de cumprir a ordem, Bruce dirigiu-se a umas
pastagens para l dos currais. Nas amplas cavalarias, havia
mais de cinquenta cavalos, todos belas estampas. O jovem
Jack apareceu conduzindo  rdea dois esplndidos animais, um
dos quais atraiu a ateno de Bruce. 
   - Bom dia, Lee. Aqui est o teu cavalo para hoje. Pertence
a Trin. Ela quer dar-lhe exerccio.
   - Eh! Que lindo bicho!. Como  que arranjaste este
passeio comigo, Jack? - inquiriu Bruce, enquanto se dirigiam
para a camarata.
   - Foi ideia de Trin. Ela  que manda aqui no rancho,
no te esqueas. Disse que queria carne de veado e persuadiu
Luke a nomear-te para vir comigo.
   - Pois, Jack, ns no vamos apenas caar veados - replicou
Bruce.
   - Ento, que  mais? - perguntou o rapaz, com o
olhar brilhante.
   - Slaughter quer uma vistoria completa, gado, pegadas,
gente estranha, junto dos matagais.
   Selaram as montadas. Jack foi ao armazm buscar uma
espingarda, enquanto Bruce acondicionava a comida que
Tex lhe entregara.
   - Lee - disse este - pedi ao patro que me deixasse
ir ter contigo mais logo e ele mandou-me ficar aqui. Que
 que achas?
   - Ele quer sempre aqui algum de ns. - replicou Bruce,
de modo significativo.
   - Tem piada, hem? Mas, agrada-me esta vida. Entremos no seu
jogo, como se "comanches" estivessem sempre  espreita.
   - Jack, eu cao atravs deste arvoredo e tu vais para
acol, onde ele  menos denso. Quanto mais depressa apanharmos
um veado, menos teremos de carregar com ele. Vai devagar,
observa tudo especialmente na direco da planicie e assobia
de vez em quando, para mantermos o contacto.
   Separaram-se e em breve Bruce percorria a clareira
aberta, sob as copas frondosas.  sua frente, saltavam
coelhos.  distncia, ouvia os pers grugulejar. Passarada de  
vrias qualidades esvoaava aqui e alm. Devia haver com que
fazer as honras da caa.
   - terra de veados - e decidiu deixar o Jovem procurar.
   O jovem Melrose montava bem, com galhardia e o desembarao
prprio de um vaqueiro experimentado. Encaminharam-se para a
linha do arvoredo.
   Entraram na zona de vegetao e atravessaram o curso
de gua acastanhada, para subirem a margem oposta. Estavam a
menos de meia milha do sop da encosta verdejante, que se
tornava cinzenta junto  crista. 
   Estava um autntico dia de Vero, abafado e melanclico.
Ouviam-se as rolas e os pombos a arrulhar e o bosque
emprestava uma espcie de langor outonal ao ambiente. Bruce
era particularmente afectado. Mal podia acreditar nos factos
da sua existncia de momento. Trinity acenara-lhe um adeus.

No receara deixar o seu jovem e impulsivo irmo adivinhar a
sua simpatia pelo novo cavaleiro, recentemente chegado a
Brazos Hed. Ela amava-o.
   Construa os seus sonhos de futuro com ideia nele. Era to  
esperta e industriosa como terna e adorvel. J por vrias
vezes o ajudara a conquistar as preferncias do pai, do
irmo e do capataz. Bruce desejava deixar-se envolver pelo   
encanto da realidade e sonhar com ela, erigir o seu castelo, 
mas no se atrevia. Se estivesse livre e em segurana naquele
momento, que alegria no sentiria em planear o porvir

104   105

com aquela linda rapariga, num rancho frtil e vasto,    numa
das melhores regies do Texas!
   As suas meditaes foram perturbadas por um tiro de
espingarda, seguido de um assobio. Bruce guiou o seu cavalo em
direco ao campo aberto. Demorou algum tempo a
localizar o seu companheiro, mas, por fim, viu-o, a p, de
espingarda na mo debruado sobre um veado cado.
   Aproximando-se do local, Bruce verificou que se tratava de
um animal de porte razovel.
   - Bom trabalho, pequeno. Foi rpido. Prepara o cavalo
e uma corda enquanto eu trato do bicho. Depois, carregamo-lo.  
   - Acertei-lhe em cheio!  a tua vez, Lee. Podemos
levar dois  vontade.
   Com desembarao, estriparam o veado e penduraram-no
no ramo de uma rvore. Depois, cavalgaram para Sul, sempre do
lado de dentro da orla arborizada. Bruce avistou um urso preto
na vertente. Este descobriu-os e embrenhou-se nas moitas. A
umas dez milhas do rancho, atingiram uma zona de espesso
matagal. As ravinas profundas e muito prximas parCiam da
vertente, enegrecida de arvoredo. Foi necessrio galopar at
terreno descoberto para contornar aquelas gargantas, que se
tornavam maiores e mais ngremes para Sul. Bruce avaliou em
quinze milhas a distncia do rancho aos verdadeiros e densos
matagais, que durante anos haviam sido clebres como ponto de
reunio de selvagens, renegados, caadores de bfalos e,
presentemente, eram refgio de ladres de gado.
   Aproximadamente umas cem milhas a Sul, j Bruce caara
bfalos e, entre aquela localidade e o ponto mais distante que
ele atingira, estendia-se uma das regies mais
agrestes e selvticas do Texas. gua, erva e caa em
abundncia; riqussimas madeiras, uma verdadeira selva
tropical, forneciam condies ideais para esconderijo de
quadrilhas de bandidos que nunca ali seriam alcanados. Os
bosques do Rio Grande, de que ele ouvia falar, dificilmente
seriam mais inacessveis do que alguns daquelas paragens.
   - Jack, vamos seguir at quele pico acol em cima
Para ver a paisagem - sugeriu Bruce.
   Prenderam os cavalos na base do declive e comearam
a subida a p. Massas dispersas de rocha, troncos cados e
valas tortuosas dificultaram-lhes a ascenso, mas acabaram
por atingir o objectivo, um proeminente rochedo situado
cerca de cem metros mais alto.
   - Jack! Que vista extraordinria?
   - No gostas do Texas, Lee?
   - Ainda agora... c cheguei - arquejou Bruce, cansado.

   Vrios afluentes partiam daquele macio, juntando-se
depois num rio mais largo, uma linha escura que se perdia
na imensido cor de prpura. Gado que Bruce iria jurar
estar marcado com o "Crculo M" espraiava-se por distncias
enormes, muito para Sul do Brazos. 
   - E o pai nunca trouxe o gado at aqui, estava capaz de
apostar - dise Jack, concludente.
   - Bom, podiam ter-se desviado - observou Bruce, pensativo.  
- Observa com o teu culo l ao longe, onde a vista desarmada
j no alcana.
   Passado longo tempo de investigao, Jack entregou o
culo a Bruce. Muito alm, via-se uma mancha negra, mas
se era gado ou no tornava-se impossvel definir.
   -  para o lado do Sul que devemos procurar o gado.
e os sarilhos. Que vista! Rapaz, um vigia aqui colocado
poderia fiscalizar cinquenta milhas em redor!
   O cinto de verdura ao longo daquela seco da orla tinha
milhas de largura, no contando com a vegetao que crescia
nas gargantas. O Llano Estacado projectava-se para Sul a
perder de vista e o recorte das escarpas tornava-se mais
acentuado. Havia uma grandeza peculiar naquela espcie
de baluarte escabroso, mas Bruce no podia perder tempo
a admirar a beleza da paisagem. Dedicou-se a estudar as
sadas dos desfiladeiros e as suas encostas. Perto, a umas
cinco milhas, viu gado em nmero surpreendentemente elevado,
algunz bfalos e duas colunas de fumo separadas, uma saindo de
uma ravina e outra localizada mais abaixo,
numa das linhas de arvoredo. Sem comentrios, restituiu o
   culo a Jack, que iniciou uma longa e minuciosa busca.

106    107

   Bruce reparou que o rapaz lobrigara qualquer coisa que lhe
parecia suspeita.
   - Lee, aposto que aquilo so dois grupos de gatunos
que levam gado em pequenas manadas em direco ao Brazos
de jusante.
   - Muito provavelmente. Essa -observao  digna de
Slaughter ou Serks.
   - H muitos criadores de gado para aqueles lados,
segundo ouvi dizer.
   - Achas que os texanos so capazes de comprar reses
pelo preo da chuva sem fazerem perguntas?
   - Alguns. creio que sim, Lee. Quem poder ter originado
aquelas colunas de fumo?
   - Sei l! Qualquer pessoa. Mas, ns trataremos de
investigar. Tenho um palpite em como no  gente de bem.
   - Esto bem ocultos. Lee, vamos para baixo comer e depois
regressamos ao rancho.
   - Acho bem. Quero que Serks e os outros venham ver
isto, antes de nos adiantarmos mais.
   Voltaram aonde haviam deixado os cavalos e, depois
de um curto descanso, encaminharam-se para casa. Bruce
   teve ocasies soberanas para abater veados, mas no o fez
para no sobrecarregar a montada, a to grande distncia
do rancho. Jack foi quase o nico a falar; tinha uma
personalidade volvel, dinmica. A meio da tarde, a cerca de
cinco milhas do rancho, separaram-se, embora conservando-se 

vista um do outro, e mantiveram-se assim at atingirem o
local onde estava pendurado o veado. Bruce ajudou Jack, a
arrum-lo atrs da sua sela e, um pouco mais adiante,
ao passar por um bando de perus bravos, puxou da espingarda e
abateu dois.
   - Eia! Que pontaria! - declarou Jack, quando se reuniram. -
Nunca consegui matar um per a correr.
   -  fcil, Jack, se apontares para o que deve ser. No
deves nunca tentar os que se cruzam com a linha de tiro.
   - Eh! Olha! Algum ouviu ostiros.
   - Onde est?-  a tua irm, at aposto. Vem a a cavalo.
   - Trin  exmia a montar. Mas, Lee, ela no vem quela
velocidade para se treinar. H qualquer coisa a correr
torto! J agora, vejamos o que ela quer.
   - Oxal que no, mas, em breve o saberemos.
   os cavalos cobriram a distncia que os separava.
Encontraram-se numa clareira, a meia milha da orla
da floresta e um pouco a norte do ribeiro. Bruce perscrutou o
rosto da jovem para confirmao dos seus receios. Sentiu,
um peso enorme no corao, pois foram os olhos de Trinity que
a traram.
   Bruce permaneceu calado enquanto Jack perguntava:
   - Trin, aconteceu alguma coisa com opai?
   - No. Quis s dar um passeio. vir  vossa procura.
E do Lee - respondeu ela ofegante.
   - e falar com Lee? - exclamou o irmo. - J?...
   - J o qu. Lee  um velho conhecido do Pai.. De Waco...
quando l estive.
   - Trin, queres fazer-me crer, a mim... O melhor 
explicares-te agora. 
   - Jack, no tenho tempo. Importas-te de ir  frente, Depois
te digo. quando chegar a casa... e no te preocupes comigo,
Lee e eu somos...
   - Claro, Trin. No te preocupes - replicou Jack, muito
sisudo, afastando-se.
   Trinity fitou Bruce com expresso trgica.
   - Quatro polcias acabam de chegar.  procura de.
Bruce Lockheart!
   Embora preparado para aquela eventualidade,   Bruce sofreu
um tremendo choque. Uma espcie   de suor frio
cobriu-lhe as palmas das mos. Depois, uma onda de calor
invadiu-lhe todo o corpo, como que a insuflar-lhe novas
energias para se defender. Num instante, voltara  crtica
situao de animal acossado, desta vez tendo mil vezes mais a
perder do que a prpria vida - o sonho de amor que aquela
jovem lhe inspirara, apesar de todo o seu querer e raciocnio!
Tudo ficou submerso numa feroz determinao de lutar, matar e
fugir. Perseguir at  morte era a divisa da polcia da
Fronteira! Forar o miservel fugitivo a cair exausto e a
render-se! Destruir a esperana na regenerao!
   OS pensamentos acorriam em tropel ao crebro de Bruce,
num caos que desfazia todas as suas iluses.
                                                               
108    109

   Na turbulncia da sua tempestade interior, mal sentira
a mo da rapariga agarrar-se  sua. Mas, acabou por a
encarar e de novo voltou  realidade das emoes do momento.

Ela amava-o e estava terrvelmente assustada. No conseguia
articular palavra e parecia ler o que se desenrolava no
esprito dele.
   - Anda. at ali... querida - murmurou ele,
comprimindolhe fortemente a mo.
   Afastaram-se um pouco, at ficarem a coberto do arvoredo,
enquanto Jack prosseguia no caminho para o rancho, sem olhar
para trs.
   - Agora, conta-me. Quem  que veio?
   - O sargento Blight. um dos agentes do capito Maggard -
disse ela, com dificuldade. - Conheci Blight
h alguns meses, em Waco. Interessou-se por mim. Os outros
agentes. so trs mais. no sei quem so.
   - Andam atrs de mim? - interrompeu Bruce.
   - Todos os homens de Maggard... te procuram - prosseguiu
ela, esforando-se por firmar a voz. - Dividiram-se em
Mendle. Blight seguiu o trilho de um cavalo no sup
das colinas. para explorar todas as hipteses. Maggard
foi para Dodge com trs homens. Os outros ficaram em
Mendle.
   - Como  que soubeste tudo isso?
   - O pai contou-nos ao almoo, em conversa. bBruce
Lockheart? Onde  que eu j ouvi esse nome?. Depois,
classificou Maggard de manaco e teimoso. "Porque diabo",
disse ele, "no d antes caa aos ladres de gado que infestam
o Texas?" Bruce,  como eu pensava. Maggard vem
aqui ter. Blight tem instrues para esperar por ele.
   - Oh!. Ao menos, se me tivesse deixado chegar cara
a cara com Belton.
   - Para o matares e fugires a seguir?
   - Sim. Agora, nunca mais. Ficas  merc.
   - Falemos acerca dos polcias - atalhou ela, com calor
e firmeza. - A tua primeira ideia  fazer-lhes frente. e
algum h-de morrer, no ?
   - Sim, Trinity.  o instinto animalesco do homem.
Perseguiram-me como a um co danado. Estou farto de jogar 
s escondidas. Sempre acabaro por vencer. Porque no
hei-de defender-me?
   - Isso  que me apavora! - exclamou ela, com ardor
apaixonado. - J o receava... tinha a certeza... Mas, Bruce,
tinhas-me prometido!
   - No posso manter a promessa.
   - Oh! meu amor!
   - Porque no s razovel? - insistiu ele. - No posso
cumprir o que disse, a menos que me renda. E como  que
Posso faz-lo?
   - Salvar-te-ias... e a mim. Bruce, eu amo-te. com
todo o meu corao, e a minha vida depende inteiramente
da tua.  por isso que te suplico que penses... que repudies
esse dio que te transtorna, essa tendncia para matar!
   - Trinity, ests a pedir-me que me entregue  Polcia
da fronteira? - perguntou ele, com voz estranha.
   - No! Nem isso nem que te desgraces num tiroteio
sem finalidade. Bruce, eu tenho mais bom-senso do que tu.
   Obribou a montada a aproximar-se mais da dele, at
ficarem lado a lado, e depois segurou as mos de Bruce;
apertando--lhas com ternura. Mas, no se tratava de ma
exploso amorosa, de um mero patentear de sentimentos.

Levada ao extremo, cresciam nela uma coragem e intuio
mais fortes, pensou ele, do que todas as paixes primitivas do
homem.
   - O sargento Blight nunca te viu, nem nenhum dus
outros. Fiz-te prometer que partirias, mas no  ainda a
altura. Se te fosses embora agora, denunciar-te-ias. Por isso,
deves ficar e, se no pudermos engan-los - e ao capito
Maggard com toda a sua casmurrice - ento,  porque no
merecemos ser felizes. Mas, temos de tentar, Bruce.
   - Muito bem. Se pes as coisas desse modo. e com
essa cara. acredito em tudo, farei o que quiseres.
   - Podes mudar a tua maneira de ser, fria, pensativa.
a tua reserva. para te transformares- num vaqueiro jovial
que acabou de fazer as pazes com a namorada?
   - Deus me ajude! - exclamou Bruce.
   - Ajudemo-nos mas  um ao outro. Talvez se nos beijssemos
as coisas passassem a parecer diferentes.
 
110   111

   - Talvez, sim, Trinity - respondeu ele, com voz sumida.   
E, fosse por desespero, remorso ou inexprimvel gratido,
beijou-a to emocionadamente que, quando ela se endireitou de
novo sobre a sela, rubra como uma rosa, de olhar brilhante e
cabelo desalinhado, no parecia a mesma rapariga.
   - Que tal me achas? - inquiriu ela.
   - Encantadora. No h polcia no mundo que te tome
por namorada de um bandido.
   - Ento, mos  obra. No te esqueas do teu papel.
Trata o pai por coronel. E baseia o teu comportamento no
meu, Bruce.
   - Ao certo, que  que pretendes fazer?
   - No interessa! Limita-te a fazer o meu jogo - disse
Trinity, voltando o cavalo e dirigindo-se para o rancho.
   Foi a rapariga quem escolheu o caminho. Na outra
margem, Jack aguardava-os, aparentemente indiferente. Bruce
alcanou-os, enquanto o seu olhar percorria as proximidades
numa roda viva. Havia alguns cavalos presos  barra, em
frente do armazm. Tex Serks destacou-se de entre os
presentes, mal viu chegar os trs cavaleiros, e foi
encostar-se a um poste, expectante. Estavam a descarregar dois
carros de mercadorias. Melrose e Slaughter formavam grupo com
uns indivduos estranhos, no alpendre. Bruce recalcou as
tendncias de pistoleiro. Confiava cegamente na presena,
no encanto, na sagacidde da sua amada.
   E o que mais impressionou Bruce naquele momento
crucial foi ver Tex Serks e Peg Simpson, descontraidamente,
irem-se colocar junto dele quando ia desmontar. No teria
talvez significdo para nenhum dos presentes, mas, para
Bruce, que valor extraordinrio!


                                    10.


   Bruce,  semelhana de Jack e Trinity, no desmontou

imediatamente.

   - Pai, fizmos uma rica caada! - declarou o rapaz,
em altos brados. - Acertei em cheio neste veado. E havia
de ver aqui o Jones a atirar aos perus!
   Aquilo focou as atenes gerais sobre os recm-chegados.


O olhar atento de Bruce j lhe assegurara que nunca vira
a queles agentes o que levava a crer que eles tambm no
o conheciam. Contudo, sob o aspecto prazenteiro que
exteriorizava, ocultava forte tenso interior.
   - Ol, sargento Blight! - saudou Trinity, alegrem-Se.
(inclinando-se da sela para estender a mo ao polcia.)
bem-vindo ao rancho de Brazos Head.
   - Menina Melrose, que prazer tenho! - declarou Blight,
apertando-lhe calorosamente os dedos esguios. - De qualquer
forma, reconhec-la-ia, mas... com franqueza, que grande
mudana se operou em si!
   - Obrigada, pelo que julgo ser um galanteio. Sargento,
quero apresentar-lhe o meu noivo, Lee Jones, de Uvalde.        
   -Ah!. Sim? O seu noivo?. Bom, como est, Lee
Jones? Prazer em conhec-lo. e parabns - retorquiu o
sargento, genuinamente surpreendido e atarantado,
estendendo-lhe a mo. 
   Com o impacto das palavras de Trinity, Bruce quase se
desequilibrou no cavalo. Era, ento, aquele o estratagema    E
que iria suceder agora? Era tarde para retroceder; a
representao tinha de prosseguir. 
Ento, Melrose, que ficara completamente atnito de
boca escancarada, explodiu:
   - Qu?! Quem  este? O teu noivo?
   O intenso rubor e a confuso de Trinity eram naturais,
o que emprestava autenticismo  comdia.
 
112   113

   - Paizinho, por favor no atrapalhe o Lee em frente
de visitas - pediu.
   - Mas, por amor de Deus, pequena! Tu ests noiva?
De Jones? Se ainda h to pouco tempo c est!
   - Foi um romance muito breve, paizinho querido. Lee
e eu conhecemo-nos quando o pai me levou a Waco. Vimo-nos
algumas vezes. Depois, zangmo-nos. Foi minha a culpa. Mas, na
verdade, Lee veio aqui s para me ver.
Fizmos as pazes. e estou muito contente.
   - Eu seja! Sua... sua... nem sei que lhe chame!
Tenho de ver isso. Jones, espero que respondas
satisfatoriamente a um questionrio que depois te farei.
   - Coronel, no devo corresponder s suas exigncias -
declarou Bruce, alarmado. - Eu pedi a Trinity que... me
deixasse falar consigo antes de ela.
   - Bem, Jones, no quis aborrecer-te - suplicou o rancheiro,
um pouco mais sereno. - Mas, temos de falar os dois. .
   O rosto de Trinity estava maravilhoso. Para quantos a
observavam, excepto Bruce, s podia haver uma explicao
para o seu ar radiante.
   - Pai, convide o sargento Blight para jantar - pediu
a jovem, pegando nas rdeas. - Lee, fico  tua espera.
Tenho de ir andando, que se faz tarde.

   Quando Bruce, preguiosamente, desmontou, no teve
coragem para encarar Peg e Tex. Porm, sentia o peso dos
olhares deles. E, felizmente, Jack veio em seu auxlio.
   - Lee - disse ele - pega numa faca e corta a um
pedao dessa carne para os rapazes, para eu levar o resto
para casa.
   O sargento Blight interveio:
   - No querem dar-me alguma tambm? Estamos com
falta de carne.
   - Sem dvida. Lee, corta a, mesmo sem desamarrares
o veado.
   Entretanto, Bruce desaparelhara o seu cavalo, que se
dirigiu sozinho para a cavalaria. Melrose retomou a conversa
com os agentes. Tudo decorrera sem que, at a, os receios de
Bruce se confirmassem. Mal acreditava na realidade dos factos.
Sentia-se ao mesmo tempo num paraso e num precipcio de
desespero ilimitado. Jantar com o dono do rancho, com Trinity!
Seria capaz de aguentar? S o pensar nisso o fazia estremecer.
Contudo, no o podia evitar. O ardil e a persistncia de
Trinity para o salvar afectavam-no como nada at quele
momento.
   O crepsculo descera quando ele reentrou na camarata.
A luz e a chama do fogo iluminavam o amplo compartimento.
Quando olhou para os seus companheiros, Bruce concluiu que a
sua situao se transformara ntidamente para melhor.
   - Eh! Oiam l, pareo assim um bicho raro para me
olharem dessa maneira? - rebentou, por fim.
   - Lee, foi uma grande... surpresa para ns e mais consolida
os laos que nos prendem aqui a Brazos Head. - declarou Tex
Serks.
   Jim anuiu, com a cabea, a observao do irmo. Peg
piscou-lhe um olho e o rosto moreno de Juan desabrochou
num largo sorriso.
   - Lee, estamos muito contentes por ti e aposto at ao
meu ltimo cntimo que Trinity tambm est cheia de sorte
- acrescentou Peg.
   - Obrigado, Peg. Sinto-me melhor. Tex, ouve l isto
- disse Bruce, passando a relatar o que ele e Jack tinham
observado durante a sua digresso.
   - Bem, amigos, a coisa piora - comentou Serks. - No  nada
que eu no esperasse j. Lee, quanto a ns, Peg e Juan no
conseguiram localizar nenhum acampamento em Blazes pUaterhole.
E no encontraram uma nica rs nessa zona, o que admira
imenso, por ser uma regio enorme. Depois, voltaram aqui e
meteram pelo caminho de Stewart. Juan seguiu-lhes a pista at
 estrada, ao longo desta, atravessou a ponte onde esperaste
por ns da outra vez e ainda mais algumas milhas para diante,
onde pegadas saam da estrada, enveredando por uma linha para
sudoeste; em direco  floresta. Que concluir?
   - Que tudo isso me cheira a esturro.
   - Pois, eu digo que no podia ser pior. Vou contar a
Slaughter e, de manh, Peg e Jack podem fazer umas trinta


  114   115

ou quarenta milhas para Norte, at ao local onde devem
encontrar-se os vaqueiros de Melrose. Tu, eu e Juan vamos

na pista de Stewart.
   - Est bem, mas de forma que ele no nos detecte.
   - Claro. Apostava que uma das colunas de fumo que tu
viste, talvez as duas, so de acampamentos de Stewart. Logo
que as localizemos de novo, aguentamos at  noite e
aproximar-nos-emos a p.
   - Vai ser uma noite inteira - observou Bruce. - Olha
que  bastante longe, cerca de vinte milhas.
   - No importa - declarou Tex. - Rapaz, namora 
vontade esta noite porque nos arriscamos a estar ausentes
a uns dois dias.
   - Supondo que damos com a gente de Stewart, que
vamos fazer?
   - O patro h-de querer que os vigiemos. Acabaremos
por descobrir porque foi que acamparam nos matagais a
sessenta milhas dos principais ncleos de gado de Melrose.
Tex, no h processo de calcularmos quantos homens Stewart
e Barncastle tm ao seu servio.
   - Pois no.  outro ponto que temos de apurar.
   Uns passos e uma pancada na parede de madeira junto
da porta aberta precederam a voz de Melrose:
   - Anda da, Jones. J estamos atrasados.
   Bruce chegou ao p de Tex e murmurou-lhe ao ouvido
que escutasse com ateno a conversa dos polcias, se o
pudesse fazer sem dar nas vistas. Depois, Bruce saiu,
encontrando o sargento e o capataz  espera no alpendre. O
rancheiro adiantou-se ligeiramente a caminho de casa,
reatando a conversa com Slaughter e Blight, que, bviamente,
versava sobre roubos de gado. Bruce escutou com ateno.
O sargento no parecia inclinado a acreditar que os roubos
tivessem tomado incremento de importncia, tal a distncia
a que o rancho se encontrava dos principais mercados.
   A alameda serpenteava entre linhas de rvores,
desembocando numa espcie de parque onde se erguia o edifcio
do rancho, com as luzes brilhando atravs das janelas.
Melrose atravessou o largo alpendre, abriu uma porta enorme e
convidou-os a penetrar numa colorida sala de estar, que

tinha tambm funes de casa de jantar. Uma mesa comprida e
macia ocupava o centro. Do outro lado, a meio da parede,
crepitava a lenha num amplo fogo de sala. Tapetes, peles e
mantas no soalho e nas paredes pareciam dar vida
e calor ao ambiente. Cadeiras de braos e um confortvel
sof, uma estante com livros, candeias e mesinhas, tornavam o
conjunto quase luxuoso. Bruce contou oito portas que
davam para o aposento, duas a Norte, duas a Sul e quatro 
esquerda da grande lareira. Uma destas comunicava com a
cozinha, que emanava apetitosos aromas. Um armeiro repleto de
espingardas despertou-lhe particularmente a ateno.
   - Sentem-se, amigos, enquanto eu preparo uns refrescos -
disse o rancheiro, bem disposto. - Pelo cheirinho, o jantar
deve estar mesmo a chegar.
   E, pouco depois, estavam todos  mesa. Bruce j no se
lembrava da ltima vez que se sentara a uma mesa a comer
uma boa refeio. Trinity, com ar radioso no seu vestido
branco, estava ao lado dele e, mal se haviam sentado, j
ela procurava a sua mo, a coberto da toalha, para lha
apertar e lhe transmitir confiana, como se lhe dissesse:

   "Ento, quem  que tinha razo?"
   - Jones, tens sido to requestado pelos membros da
minha famlia - dsse Melrose - que gostaria de te ouvir
algumas palavras. Queres fazer um brinde?
   Trinity exerceu nova presso nos dedos de Bruce, o que
o fez sir como se toda a sua vida estivesse acostumado a   
situaes como aquela. Pegou no copo e levantou-se.
   - Coronel, nunca fui homem de beber. Sempre tive de
cuidar da firmeza da minha mo. Mas, nesta ocasio, sem
dvida uma das mais absorventes da minha existncia, bebo
 prosperidade e ventura da famlia Melrose, do rancho de
Brazos Head.
   O rancheiro rematou o coro geral de concordncia batendo
com o seu copo sobre a mesa. 
   - Muito bem . Trinity, o teu apaixonado do Texas
tem pedra de orador!
   Bruce sentou-se, emocionado, subitamente caindo em si,
ao verificar que esquecera o seu papel de vaqueiro. Era   
como um arbusto agitado, pela tormenta. Que ficariam

116   117

Melrose e Blight a pensar do seu reduzido improviso? Trinity
ciciou-lhe qualquer coisa imperceptvel ao ouvido, que devia
ser uma frase amorosa. E, transtornado mas no totalmente
falho de apetite, Bruce atacou a comida.    Slaughter e Blight
saram logo aps a refeio.
   - Pai, amanh de manh, vou com Lee outra vez. - informou
Jack.
   Melrose ergueu as mos, com ar resignado.
   - Filho, se Jones e os Serks precisam de ti, por mim no
ponho entraves.
   -  uma boa ajuda, patro - confirmou Bruce.
   - Luke deu-lhes algumas instrues?
   - No. Ainda no lhe demos conta das diligncias.
Oia o que eu e Jack observmos hoje.
   E Bruce referiu em pormenor o que ocorrera durante
a caada.
   - Tudo isso encaixa no que Serks contou a Luke esta
noite - comentou Melrose, pensativo. - Aproxima-se a
borrasca. Bom, para lhes falar com franqueza, j esperava
isto. Muita sorte tenho eu tido em no ter havido ainda
complicaes.
   - Patro, e a respeito de Barncastle, que  que h?
- perguntou Bruce, significativamente.
   - J desisti praticamente da sociedade - declarou o
rancheiro. - Dou-lhe mais uns dias de espera e depois...
   - Pai, no tenha contemplaes com esse homem! - exclamou
Jack.
   - Filho, nada de precipitaes - replicou Melrose,
impaciente. - Tudo tem o seu jeito. Nunca mais me atreverei a
julgar um homem de nimo leve. Lee, eu tive um irmo... mais
novo. um tipo endurecido e estragado pela guerra. Mas, se eu
tivesse sido tolerante e generoso, em vez de violento e
egosta, talvez se tivesse salvado e at regenerado. Enveredou
pelo mau caminho. e os polcias da fronteira mataram-no.
   Bruce abanou a cabea, em atitude de compreenso.
   - Um dia, contar-lhe-ei a minha histria, o que me

transformou num cavaleiro solitrio, duro e...

118

   Trinity interveio, colocando uma mo no ombro do pai
e fitando Bruce. A sua expresso de juventude e beleza
deliciosamente feminina fez que Bruce se contivesse, como que
sobressaltado.
   - Quem  o cavaleiro solitrio, duro... e no sei que
mais? - perguntou ela, docemente, mas com um olhar
profundo e preocupado.
   - Sou eu! - exclamou Bruce, quase com clera. - Oh! Meu
Deus, tu bem sabes que  verdade.
   Jack aproveitou a momentnea pausa para meter a colherada.  
 - Evidentemente. Se assim no fosse, no estarias agora
aqui para nos ajudar. Pai, no acredite neste vaqueiro se
ele disser mal de si prprio. O que ele precisa  de conversar
muito com Trin, a fim de se esquecer dos maus mo mentos
passados. Boa noite, amigo Lee.
   - Que grande mariola! - desabafou Melrose - Jack
 como o meu irmo. apenas menos arisco. mais comedido. Nunca
se deixar arrastar. Lee, queres continuar?
   - Acho prefervel, se vou permanecer aqui no rancho - disse
Bruce, com ar indiferente. - Trinity, deixa-nos sozinhos uns
momentos.
   - No, pai. O que disseres a Lee interessa-me directamente,
seja bem ou mal! - disse a rapariga, em voz sumida
e fazendo-se da cor do vestido.
   - Filha! Ests plida. Oh! Pareces mesmo a tua me!
Talvez seja melhr assim. Se eu me recordar de quando Era
com a tua me, talvez compreenda o problema de Jones.
   - Ento, posso ficar, pai? - perguntou ela, trmula.
   - Trinity, tu bem sabes que eu falo, falo. Escuta l,
Lee Jones, quem diabo s tu afinal?
   - Estou disposto a dizer-lhe, qualquer que seja o
resultado.    - Mas, homem, eu tenho sido sempre um palerma.
que acredta na honestidade de todos at prova em contrrio.
Acho que j  um incentivo.
   - Patro, isso significa que eu no sou o que pareo?
   - No, coa breca! Mas... s ou no s?
   - Posso responder que sim, com verdade, a ambas as coisas.  
                                                               
       119

   - Aquele brinde esta noite...  prosperidade e felicidade
da minha famlia, leva-me a crer que tens de facto vivido
sozinho.    - E  verdade.
   - Mas, nesse caso, j tiveste outra situao. Tens educao
e propsitos. Por esse lado, no vejo impedimento para
namorares Trin. Que mais tens a dizer?
   - Patro, se me der algum tempo, conto-lhe tudo a meu
respeito.
   - Algum tempo? Para qu?
   - Porque se lhe conto tudo agora, de chofre,  capaz
de me correr a pontaps ou pregar-me um tiro.
   - Bom, acho-te pessoa para correres esse risco por
amor de Trinity.
   - Sem sombra de dvida. Mas, depois, no poderia ajud-lo

com tanto interesse, sabendo que no tinha confiana em mim.   
   - Eu confio em ti, Lee. Se no fosses homem de carcter,
no falarias desse modo. Porm, de qualquer forma, no
gosto de viver na ignrncia.
   - Patro, o senhor  um grande texano! - exclamou Bruce. -
Caramba! No esquecerei um simples pormenor.
   Trnity afastou-se do pai para ir abraar Bruce. Naquele
momento, era uma mulher que, por amor, ia tomar o
comando da situao.
   - No. J disseste o suficiente por agora. No  altura
de mais esclarecimentos. Se o pai te repelisse. se te
expulsasse de Brazos Head. eu iria contigo!
   Melrose coou o queixo, perplexo.
   - Trinity, que conversa vem a ser essa? Eu no quero
que tu abandones o rancho.
   - Ento, pai, veja um poucochinho os assuntos  minha
maneira.
   - No ser difcil. SimPatizo com este teu vaqueiro.
Mas, se, como dizes, o caso  to grave que poderia levar-me a
correr com ele, no achas que pode suceder o mesmo mais tarde? 
  - Aceito esse risco. Agora, o importante  que o pai
   precisa de Lee. Podia contratar outros vaqueiros, muito 
bons atiradores e cavaleiros, at, mas nenhum que conhecesse
to bem Barncastle e a sua quadrilha. 
   Melrose sobressaltou-se. O olhar iluminou-se-lhe e a sua
figura avantajada estremeceu.
   - Lee, j conhecias esse Barncastle.
   - Se conhecia? Perfeitamente.
   - Ele no  aquilo que aparenta?
   - Nem por sombras.
   Um sbito alvio suavizou o rosto de Melrose.
   - Lee, deixemos as coisas como esto - disse ele, com
sentimento. - Confio em ti e no bom critrio de Trinity.
Agora, esqueamos toda esta balbrdia, e aqui os deixo
para falarem um bocadito  vontade.
   Saiu de casa, cruzou o alpendre e encaminhou-se para
o armazm. Enquanto Bruce se refazia lentamente do seu
aturdimento, Trinity apagou algumas das luzes e deixou
acesa uma, levemente velada. Depois, empurrou um grande
cadeiro para junto do fogo e chamou Bruce. Quando ele
se sentou nele, escorregou sobre o brao da cadeira, ficando
reclinada, com o rosto encostado ao peito do rapaz. Ento;   
comeou a soluar baixinho.
   - No chores, Trin, meu amor - sussurrou ele comovido.
   - Foste maravilhosa. Desculpa eu ter quase deitado
tudo a perder.
  - Todos gostaram de ti, Bruce. Mas  prefervel chamar-te
Lee - retorquiu ela. - tu foste... to srio. Acertaste-lhe em
cheio.    E o pai?. Nunca o vi to.. Estou a chorar apenas
porque j tudo passou. Foste tu , meu amigo, J no ests
 experincia, foste aceite. como meu pai, ele esquecer o que 
Foste. E, se o puderes ajudar... tu...
e podemos ser felizes.
   Bruce deixou-se arrebatar pelo ambiente, olvidando por
completo que era um homem com a cabea a prmio.
   - Bruce... Lee, tenho uma ideia genial - murmurou ela
ao ouvido do rapaz. - Queres ouvir? Vais ficar maluco.
   - At tenho medo! Doido varrido j eu estou.

   - PoiS, amor, a vai. Lembrei-me de urbanizar, l em cima,
o local onde nos encontrmos ontem  noite, junto da
nascente.

   120   121

   - Urbanizar! Para qu? - espantou-se Bruce.
   - Construamos uma casinha l, para vivermos. Fica
protegida do vento norte. Vais ver! Existem mais duas grandes
nascentes, erva tenrinha. Ah!  verdade, Lee, conheci hoje o
teu inseparvel amigo, "Legs". Que lindo cavalo!.
E h imensas rvores para lenha.
   - Exactamente em que stio tencionas edificar essa casa
de sonhos?
   - Onde  que tu achas?
   - Perto da nascente maior. Brazos Head. onde nos
encontrmos. Gostava de uma coisa nesse gnero, que me
recordasse sempre, constantemente, como a Providncia Divina
foi boa para mim.
   - Bruce, sabes dizer as coisas mais agradveis! Para um
homem que diz nunca ter tido...
   - Caluda! Nunca me venhas com remoques sobre outras
raparigas. Graas a Deus, tu foste e sers a nica na minha
vida.


   Quando Bruce a deixou no alpendre, qual figura irreal,
branca e esbelta, sob a luz das estrelas, a noite arrefecera
intensamente e os coiotes uivavam. Ele caminhou desde o
porto at  camarata, sem ser capaz de se concentrar num
s pensamento lcido. Uma luz no seu quarto trouxe-o de
novo  realidade terrena. Peg e Tex Serks estavam ainda
levantados, fumando ao p do fogo.
   - Escuta, Lee - disse Tex, quando ele se aproximou.
- Ouvimos umas coisas esta noite. Melrose e o sargento
Blight tiveram uma acesa discusso ali no armazm. Para
encurtar razes, estes agentes da autoridade esto aqui por
ordem do capito Maggard,  procura de um tal Bruce
Lockheart, ladro de Bancos, pistoleiro e Deus sabe que
mais. Bom, parece que o nosso patro no v os polcias
l com muito bons olhos, especialmente Maggard. Melrose
increpou-o e disse-lhe que, se a Polcia da fronteira queria
cooperao, devia desviar a sua actividade contra os ladres

122

de gado. Depois, disto, os polcias saram do armazm e
foram para o alojamento deles, aqui perto do nosso. Em
seguida, o patro e Slaughter tiveram um longo colquio;
era difcil perceb-los porque falavam baixo, mas ainda
se apanhou qualquer coisa. Melrose quer contratar mais
homens, mas Slaughter no  da mesma opinio, garantindo que o
grupo de Serks  suficiente, o que  um elogio para ns, Lee.
Pouco depois fui ao armazm e Informei Luke do que
tencionvamos fazer amanh. Ele concordou. Melrose quis saber
o que  que
faramos em caso de luta contra maior nmero de homens, e Luke
disse: "Nada de rixas com ningum, se pudermos evit-las". E

eu joguei tambm a minha cartada: "Patro, logo que
localizarmos esses bandidos que nos esto a roubar, preparamos
um ataque nocturno. Se estiverem a construir algumas barracas,
largamos o fogo a tudo. No h ningum que nos escape, com
Vasquez a seguir as pistas.   um autntico perdigueiro". E
Melrose concordou, com a condio de identificarmos os ladres
com segurana. A ltima coisa que afirmou foi que no podia
crer que Barncastle fosse ladro de gado.
   - Tem graa! - murmurou Bruce. - Este homem
 alrgico a pensar mal do prximo. Mas, j me deu uma
explicao.
   E Bruce relatou o que Melrose lhe contara acerca do
desastroso juzo que fizera do irmo.
   - Ah! Talvez essa maneira de ser nos seja til, eh,
Lee? - retorquiu Tex. - Vamos para a cama. J  tarde.

123


                                    11.


   Antes du nascer do sol na manh seguinte, enquanto
Bruce e os companheiros tomavam o pequeno-almoo, Juan
Vasquez, de repente, ergueu a mo a impor silncio: A
porta da camarata estava escancarada. Todos se puseram
 escuta.
   - Vem a um cavalo a galope - disse TeX Serks,
alcanando a porta em duas passadas.
   Ento, Bruce ouviu o rpido e rtmico matraquear de
cascos na estrada.
   -  s um. Ocavalo vem coberto de espuma. Aqui h
gato, amigos.
   Tex saiu para o alpendre, seguido por Peg e Jack. De
dentro Bruce espreitou por cima do ombro de Juan e viu
um cavaleiro coberto de p, vindo do lado norte. Quando
ele se aproximou do extremo da camarata, Bruce averiguou
que se tratava de um vaqueiro franzino, quase irreconhecvel
sob o p amassado na transpirao. Quando retesou as
rdeas para fazer estacar a montada, tornou-se evidente
que s conseguia mover um brao. O outro pendia inerte
ao longo do corpo. Ao desmontar, Bruce viu-lhe uma das
mos completamente ensanguentada. 
   - Chamem Slaughter e Melrose - disse.
   - Ainda no apareceram. Ns somos novos empregados no
rancho. Quem s tu?
   - Buster lWells, do grupo de Little Wichita.
   - Houve azar? - perguntou Tex, incisivo.
   -  como dizes, amigo - replicou o outro, amargamente.
   - Entra. Ests ferido. Juan, toma conta deste cavalo.
Peg arranja gua quente e ligaduras. Lee, ajuda-me a
tirar este casaco. Jim, vai chamar o patro.
   Tex era rpido, decidido e eficiente. Rasgou a manga
da camisa do cavaleiro, expondo  vista o antebrao
ensanguentado.
 
124

   - Descansa, rapaz. Peg, d-lhe uma bebida.
   Tex lavou o sangue coagulado, mostrando um orfcio
sangrento por onde a bala penetrara.
   - No h ossos quebrados - disse, alegremente, depois de
apalpar e flectir o brao. - Nada de grave;  s um buraco.
Perdeste foi muito sangue. 
   - J estava a ver o caso mal parado - retorquiu Wells.
   Peg limpou a cara do vaqueiro com uma toalha hmida,
verificando uma acentuada tepidez sob a pele bronzeada.
Tratava-se de um rapaz novo com menos de vinte anos, de
cabelo curto e olhos azuis.
   - Agora, no fales - disse Tex, enquanto lhe ligava o
brao ferido. - Um caf forte faz-te bem.
   - Com certeza. Desde ontem de manh que no tomo
nada seno gua.
   Enquanto engolia o caf que Peg lhe levara, ouviram-se
passos apressados no exterior e apareceu Slaughter.
   - Buster Wells - exclamou o capataz. - E ferido.

Rapaz, no  nada de grave?
   - No, patro. Mas, perdi muito sangue e andei um
bom pedao. - interrompeu ele.
   - Pois, devo dizer-te quanto me apraz ver-te, Buster Wells.
Mas Deves estar esgotado. Onde est a tua arma?
   - Foi-me arrebatada da mo com um tiro
   - Oh! - exclamou Luke, sentando-se pesadamente
num banco. - Um de vocs traga-me l um cafzinho e
qualquer coisa que se coma. Devo estar a envelhecer. Mas,
Buster. Conta l o que sucedeu. 
   Naquele momento, surgiram o sargento Blight e um
dos seus homens, cheios de curiosidade.
   - Bem, mais ou menos a esta hora, ontem de manh, - comeou
o jovem Wells. - amos para Sul com a manada de touros -
seguindo as ordens, todos os que tnhamos conseguido reunir -
e
atravessvamos o Wichita quando fomos atacados da floresta da
outra margem. A maior parte das balas caa  minha frente. Vi  
125

cavalos e homens tombar. Trs ou quatro dos rapazes voltaram
para trs e, abrigados pelas rvores, comearam a responder ao
fogo. O gado continuava a nadar para a frente. Eu estava
prestes a voltar para trs, quando as balas principiaram a
cair mais perto. Como tinha bastante p, esporeei o cavalo,
alcancei os arbustos da outra margem e torci para a direita.
Cheguei  zona de arvoredo e calculei que, se no me
despachasse, seria apanhado. Por isso, disparei em direco ao
campo aberto. Dois cavaleiros, dos que eu vira ao longo da
orla da floresta, vieram atrs de mim, disparando como
loucos. Um abati... eu, que o vi rolar pela margem abaixo. O
outro atingiu-me com um tiro no brao e larguei o revlver.
Como no pude sacar da espingarda, achei melhor safar-me
depressa. E tive sorte. Os bandidos devem ter
suposto que eu seguiria rio acima, at poder atravessar
para o outro lado e ir juntar-me com o resto da nossa
gente. Mas, logo que os perdi de vista, dirigi-me para Sul.
Calculei que estivesse a umas quarenta milhas de aqui e
queria chegar ao fim da tarde. Comecei a sentir-me tonto
e resolvi parar para estancar a hemorragia do brao. Ainda
o sol estava alto. Quando ia a montar novamente, no sei o
que sucedeu; adormeci ou perdi os sentidos. Acordei esta
manh, fiz das tripas corao e vim logo para c,
   - Buster, disseste que alguns dos nossos homens tombaram? -
perguntou Luke.
   - Exactamente, e afundaram-se logo. Mais valera no
os ter visto - retorquiu Wells, com ardor. - Eu estava a
algumas centenas de metros da manada principal. Primeiro;
soaram dois tiros, depois uma grande descarga. Vi cavalos
e homens submergirem. e no voltaram ao de cima. Um
deles foi Art Semper. O cavalo, atingido em cheio, deu
um salto e atirou com Art. Pareceu-me, mas sem ter a
certeza, que reconheci outro dos nossos: Jeff Stevens. Caiu
para a frente da sela e mergulhou com o cavalo. Os outros
no tive tempo para ver.
   - Quantos rapazes se escaparam? - perguntou Slaughter,
profundamente impressionado com a narrativa.
   - Trs ou quatro, mais no.

   - Que teriam feito depois, Buster?
   - Calculo que, depois de terem respondido ao tiroteio,
devam ter largado direitos ao nosso acampamento de Big
Wichita, a cerca de cinquenta milhas.
   - Quantas reses tinham vocs reunido para trazer?
   - No as contmos, mas era uma grande manada.
   - Achas que os assaltantes levaro os animais? Para onde?   
- S Deus sabe. Esses bandidos tm uma poro de
mercados E nem todos os compradores so oficializados!
   - Confrange-me essa ideia, mas tenho de a aceitar. -
retorquiu o capataz. - Serks, cuida bem de Buster. Tenho uma
cama disponvel na camarata. E deixa-te estar por
aqui com os outros, a aguardar ordens.
   - Patro - replicou Tex, calorosamente - se me permite uma
opino, a conduo de gado, por agora, devia ser substituda
pela caa aos bandidos!
   - Claro. Mas,  preciso que Melrose esteja de acordo.
At agora, os roubos de gado no o tm preocupado muito.
Estamos a perder centenas de reses. Atravessamos uma
grande crise. Vou falar a Melrose.
   - Slaughter, vou consigo - declarou o sargento Blight,
com ar decidido. - Creio que posso aconselh-lo.
   - Bom, pelo menos, pode pr-se do meu lado - replicou Luke,
secamente.
   Serks acomodou Wells no catre vago e este adormeceu
imediatamente. Nesse momento, Jack Melrose chegava ao
quarto de Bruce.
   - Porque  que no samos como estava previsto?
- perguntou Jack. - Luke est a discutir com o pai, cuja
opinio  a mesma desse maldito sargento. Correram com
Trin e no me deixaram entrar.
   Bruce contou a Jack em poucas palavras o motivo da
alterao do programa.
   - Cm mais razo devamos ir  floresta - disse o
rapaz, agressivo. - Que achas, Lee?
   - Acho que sim, ce pretendermos lutar.
   - E tu, Tex, qual  a tua opinio?
   - Creio que temos muito que fazer l por esses stios
- concordou Tex.

126   127

   - Tex, vamos...
   -  melhor aguardar, rapaz.
   - Est bem. Vamos at ao armazm fumar um cigarro.
   - Eu no posso, Jack - replicou Bruce. - Vou dar
de comer ao cavalo.
   E Bruce pegou no brido e no saco de gro e dirigiu-se para
as pastagens, com o esprito repleto das ameaas    latentes
daquela manh. O grande cavalo acercou-se rpido,   
relinchando de satisfao, de olhar reluzente e abanando a
cabea. Comeu com voracidade, enquanto Bruce lhe afagava o
focinho. Quando terminou, o rapaz deu-lhe uma palmada no
flanco e disps-se a regressar  camarata. Subitamente, viu
nuvens de poeira na estrada, perto do rancho, e, logo a
seguir, distinguiu trs cavaleiros e uma carruagem
ligeira. Um momento mais tarde, notou nova mancha de
poeira ao longo da orla da floresta.

   Perplexo e apreensivo com o significado daquels dois
grupos de cavaleiros, aproximou-se da camarata tendo o
cuidado de se curvar. Quando atingiu o primeiro curral, o
grupo inicial chegava junto do edifcio principal. Bruce
espreitou cautelosamente atravs da vedao e o corao
gelou-lhe. Quade Belton descia da carruagem e subia os
degraus do alpendre. Bruce agarrou no revlver, mas logo
se conteve. Belton estava demasiado longe para lhe acertar e,
alm disso, havia trs homens armados com ele. To-pouco podia
entrar em casa e liquidar Belton em frente de Trinity e do
pai. Aguardaria que ele sasse e ento ajustaria as contas de
uma vez para sempre.    O tempo arrastava-se interminavelmente
para Bruce, que tinha os nervos tensos e o dedo no gatilho
irrequieto. Os homens de Belton permaneciam a cavalo, fumando
e dizendo chalaas.    De repente, a porta da frente abriu-se
de repelo e Belton irrompeu, de rosto vermelho, logo seguido
por Melrose. Discutiam acerbamente. "Bom", pensou Bruce,
"Melrose j lhe correu com a sorte". Depois, o rudo dos
outros homens a chegar distraYu-lhe a ateno. Do seu
esconderijo, Bruce no podia ver quem eram, e, ento, com
grande pesar seu, viu Belton dirigir-se para o armazm e

128

fugir assim da sua linha de fogo. O rapaz guardou o revlver e
afastou-se do curral, correndo por entre moitas e arvoredo,
para a encosta da colina e de a para a vedao da
zona de pastagens. Verificou que daquele ponto se podia
aproximar at mais perto da camarata sem ser visto,
conservando-se atrs de um macio de vegetao. Acabou por
alcanar a posio almejada, arquejante, e apurou bem a
vista e o ouvido.
   Os recmchegados tinham atingido a sua meta e alguns
haviam desmontado. Porm, os trs cavaleiros que acompanhavam
Belton permaneciam montados. A elevada estatura de Tex Serks
destacava-se ntidamente sobre os outros vaqueiros e polcias
da fronteira. Slaughter conteve os seus homens no alpendre e,
assim, Belton ficou isolado entre eles e os cavaleiros do
segundo grupo. De entre estes, adiantou-se um que Bruce
imediatamente reconheceu ser Stewart. A presena deste pareceu
ter surpreendido e encolerizado Belton, que gritou,
enfurecido:
   - Que fazes aqui?
   - Podia perguntar-te a mesma coisa - replicou
Stewart, num tom de insolncia de que, mesmo distante,
Bruce pde aperceber-se.
   - Vim pagar a Melrose o dinheiro que lhe devia e
aceitar a sociedade. e cortar contigo de vez! - retorquiu
Belton, num desabafo.
   - Bom, parece-me que vieste um pouco tarde.
   - Ias levar a manada de Crculo Mx para Sul. Soube
da tua combinao com Vic Henderson.
   -  verdade. Mas, Vic tinha dez cavaleiros. No precisava
de ns. Por isso, vim aqui. para desfazer o teu negcio com
Melrose.
   - J o fizeste, meu ladro descarado!
   - Bem, Quade, no o nego - disse Stewart, com voz
fria, mas de expresso inegavelmente mais ameaadora.

   - Vieste dizer mal de mim a Melrose.
   - No, mas tencionava faz-lo. Foi por isso que vim
agora c.
   - s um completo aldrabo. S me tens pregado patranhas.
Atraioaste a minha confiana! Melrose contou-me

129

lhe disseste que eras o meu brao direito e representante, que
ele ia ficar mal, no tu, que eu no cumpriria as condies,
que ele perderia no s o dinheiro como tambm
o gado. s capaz de o negar?
   - No, estou apenas a dizer que ainda no te tinha
posto de parte, mas vou fazlo agora. S tenho a ganhar
com isso. E no vai ser com palavreado, mas com chumbo
e do bom.
   - Infame ladro de gado! - explodiu Belton; tremendo todo,
como se fosse atacado de sezes.
   - Mas no assassino e ladro de Bancos como tu. - replicou
Stewart, com voz gelada.
   Bruce notou que os circunstantes se haviam afastado de
Stewart. Houve um momento de tenso e, ento, Stewart
soltou a provocao:
   - Anda, cobarde, saca primeiro. Vais apanhar outra
com a marca de Bruce Lockheart.
   O choque de Bruce ao escutar o seu nome foi imediatamente
suplantado por duas detonaes quase simultneas. Belton
inteiriou-se, cambaleou e caiu por terra. Stewart
puxou do outro revlver e manteve os presentes em respeito,
embora nenhum deles parecesse disposto a esboar o mais
simples gesto. Entretanto, um dos seus homens rebscava o
corpo do morto e, por fim, ergueu-se com um cinturo recheado
de dinheiro e uma grande maleta. Stewart comeou a retroceder,
proferindo ordens para os seus aclitos. Foi o ltimo a
montar. Depois todos os cavaleiros, com ele na retaguarda e
ainda de revlveres em riste, se dirigiram para a estrada.
Stewart esporeou a montada e soltou um brado, que era o sinal
de partida. Em poucos momentos, desapareciam na estrada,
envoltos numa cortina de p.


    12.


   Sa tivesse sido Bruce a matar Belton, como fizera
propsito, no teria ficado to prostrado sob o misto de
emoes que dele se apoderaram durante o duelo fatal entre
Belton e Stewart.
   Estendido na relva, oculto pelos arbustos, Bruce jazia
de olhos fechados, corao agitado, transpirandv copiosamente,
vencido por profundas sensaes. A primeira fora
uma espcie de vergonha por Stewart ter sido mais certeiro do
que ele; a ltima, depois de passar por toda uma gama
de sentimentos de dio, clera e amargura, foi a do alvio
que Trinity sentiria. Por muito texana que fosse, ela no
quereria que Bruce matasse nem o seu pior inimigo, a menos que
as circunstncias o obrigassem.    Trinity realzzara uma
transformao radical. Bruce sentou-se, senhor de redobradas
energias. No podia ter desejado melhor desfecho. Quase de
certeza, Belton seria o nico homem ali que podia identificar
Bruce Lockheart.
   Essa ideia tinha um to intenso significado que o subjugou.
Como as coisas se tinham modificado! Que espantosa viso
e inteligncia a jovem evidenciara! Uma onda de ternura
e admirao por ela acabou por desanuviar o seu esprito
dos sombrios pensamentos que o atormentavam.

   Ao ver Melrose com os filhos aparecerem junto  porta
do ptio, Bruce levantou-se. Atravessou o espao e surgiu
detrs dos polcias e dos irmos Serk, na mesma altura
que a famlia Melrose aparecia.
   Bruce meteu-se entre Tex e Peg.
   - Onde  que estavas? - perguntou o primeiro.
   - Houve fita como vs, Lee - informou Peg. - Pouparam-nos
trabalho e abriram-nos os olhos.
   Belton jazia de costas, com o cabelo e a barba cobertos de
sangue e poeira e a mscara da morte contorcendo-lhe
o rosto apavorado. O revlver estava junto da sua mo inerte.  
130   131

   Os olhos de Trinity fixaram os de Bruce quando este se
acercou de Slaughter. Ela no olhara para o corpo sem
vida. Bruce parecia ler-lhe no pensamento. A jovem tinha
um aspecto mais animado e desviara-se para o alpendre,
onde o sargento Blight lhe dirigia palavras de conforto.
Jack dava a impresso de ir rebentar de excitao, enquanto
Melrose, gravemente, se debruava sobre o cadver. 
   - Foi uma lta leal? - perguntou o rancheiro.
   - Sim. Barncastle  que foi demasiado lento - replicou
Slaughter.    - Foi Stewart que o matou, claro est.
   - Exactamente, esse homem que. dizem chamar-se Bill
Stewart. Mas, no  esse o seu nome verdadeiro.
   - Pouco importa. O caso  que liquidou Barncastle,
roubou-lhe o meu dinheiro e desapareceu.
   - O pior foi o dinheiro - comentou Slaughter, com
tristeza. - Uma mala grande e um cinturo recheado. Tambm,
aqui os nossos representantes da Lei no fizeram l muito boa
exibio!
   - Acabe com esses comentrios - interveio o sargento
Blight, secamente. - S demasiado tarde nos demos conta
do que ia suceder. De resto, ramos trs para oito.
   - Bom, parece-me que no tem os meus homens em grande conta
- ironizou Slaughter.
   - Patro - atalhou Tex Serks - pela nossa parte, estvamos
s a ver o que acontecia.
   - Patro, quando souber quem  esse Stewart, ficar
satisfeito por termos evitado a luta - disse Slaughter.
   - Mesmo sem saber, estou contente. J considerava o
dinheiro perdido. E quem diabo  esse Stewart, para dar
origem a tanta conversa?
   - Nem mais nem menos que Bruce Lockheart - declarou
Slaughter, solenemente.
   - Qu?!. Esse bandido que o capito Maggard persegue h
tanto tempo?
   - Esse mesmo patro.
   Uma estranha sensao assaltou Bruce, pregando-o ao cho.

132

   - Quem  que descobriu isso? - perguntou o rancheiro.
   - Foi o prprio Stewart que o deu a entender. Primeiro,
chamou a Barncastle um nome que no era Barncastle de
certeza; e, antes de disparar contra ele, avisou-o
de que ia apanhar outra com a marca de Bruce Lockheart. Alm
disso, o sargento Blight diz que reconheceu Stewart.

   - E  verdade - confirmou o agente. - Pela descrio que em
Mendle me deu um homem que viu Lockheart atingir Barncastle na
povoao. E foi precisamente a esse episdio que Stewart se
referiu. Repare na ferida.
   Melrose deitou uma olhadela ao corpo e depois
endireitou-se. Viu o que Bruce j observara: um orifcio
azulado, quase sem sangue, junto da lvida cicatriz do
primeiro ferimento.
   - Bruce Lockheart! - exclamou o rancheiro. - Mais
um fora-de-lei e pistoleiro do Texas!. Isso significa Que
o bando de Stewart era exactamente o que parecia. no
um grupo de vaqueiros, mas de bandidos da pior espcie.
   - Tem toda a razo, patro - concordou Slauhter.
- E  uma surpresa desagradvel. Creio que preciso de
uma bebida.
   - Eu tambm. Algum que cubra este pobre diabo at
eu resolver o destino a dar-lhe.
   - Pai, podemos comear a construir um cemitrio -
   opinou Jack, com um certo humor.
   - S se for bem longe. Trinity, j vieste ver o que se
   passava. Importas-te de ir agora para casa? A me estava   
apoquentada, bem sabes.
   - Vou j, pai. S quis certificar-me... - retorquiu ela,
   sem terminar a frase.
   Melrose e Slaughter entraram no armazm, seguidos
pelos polcias, que estavam, naturalmente, curiosos e
talvez com sede tambm.
   - Jack - disse Tex Serks -- deixa l a cova para depois,
que ns ajudamos-te. Lee vamos at l dentro.
 
133

   - Jack, por favor, leva-a para casa - pediu Bruce,
reparando na palidez e no tremor de Trinity.
   - No ... preciso. Eu estou... bem - balbuciou Trinity. -
Ouvi os tiros... e pensei que tu..
.  Jack acompanhou-a, apesar dos seus fracos protestos e Bruce
foi logo para a camarata. Os irmos Serks j l estavam, Jim
quieto e calado como de costume, Tex andando de um lado para o
outro. Juan acarretava lenha e Peg afadigava-se nos seus
cozinhados e trauteava uma cano de vaqueiros.
   - Onde  que estavas, Lee? - perguntou Tex.
   - Fui para as pastagens. Vi nuvens de p e depois
cavaleiros. Consegui chegar quela moita a tempo de assistir 
cena.
   - No fizeste falta, mas podias ter feito. Tivmos sorte,
mas as consequncias vo ser o diabo.
   - Achas que esse Bill Stewart  realmente... Bruce
Lockheart? - perguntou Bruce, com uma sensao esquisita.
   - Eu? Porque no? Oxal no fosse... Deve ser um tipo
perigosssimo, para a Polcia da fronteira andar toda atrs
dele. Mas, para facilitar, chamar-lhe-emos Stewart.
   Nesta altura, Peg Simpson anunciou com voz cantante:
   - Venham comer, se no deito tudo fora.
   Antes de os cinco esfmeados terem terminado a refeio,
Slaughter entrou no compartimento, j menos carrancudo.
   - Rapazes continem a comer e deixem-me eu falar


- disse, fechando a porta atrs de si. - Melrose ainda no
o sabe, mas o dia de hoje foi bom para ns, ao contrrio
do que parece. Que  que achas, Tex?
   - Penso que sim. Agora, sabemos s quantas andamos.
   - E tu, Lee, que opinio tens?
   - Sinto-me muito mais alviado -- declarou Bruce, com
absoluta sinceridade.
   - Todos vocs concordam comigo e com o patro em
que o bando desse homem nos tem roubado gado? - perguntou
Slaughter. 
   - Tenho a certeza, mas no vejo prova que faa f
num tribunal - disse Tex.
   - Faamos um tribunal nosso aqui mesmo - declarou
Peg Simpson.
   - Eu sei que Barncastle levou gado com o "Crculo

M", de Melrose, e posso prov-lo - acrescentou Bruce.
   - Com que provas - indagou o capataz.
   - Quer acreditar no que eu afirmo e aguardar at eu
poder contar-lhe tudo quanto sei?
   - Claro, claro, Jones - replicou Luke, apressadamente.
- No duvido. Foi s por curiosidade. Acredito em
ti e que tens razes fortes com certeza. Melrose deu-ma carta
branca. Aconselhou-me a chamar os rapazes da zona de
Wichita e parar com as operaes de gado at limparmos
a regio da quadrlha de Stewart. Que pensam vocs desta
ideia?
   A pausa que se seguiu mostrava bem quanto a questo era
delicada e exigia ponderao.
   -  como arriscar mais dinheiro ao pquer para reaver o
perdido - opinou Serks.
   - Melrose deve ter perdido umas dez mil reses.
   - Mas, Tex, isso no pode ser - interronPeu Slaughter.
   - H cerca de dois meses, assim por alto, ele tinha
cinquenta mil cabeas. Seriam necessrios uns cem homens para
levar dez mil e ns temos quase a certeza de que Stewart s
disps de quinze. Foi ele prprio que disse. antes a mais do
que a menos. Claro que  exactamente assim que era. menos
digamos dez mil cabeas. Quarenta mil, muito bem, Demasiado
para os tempos que correm.  muito gado, Melrose pode
considerar-se rico a mais no poder.  Esse gado, em Dodge,
vender-se-ia a quinze dlares por rs,    no?
   - Tex, queres dizer que devemos tentar conservar o que
temos em vez de arriscar perder mais.
   -  mesmo.
   - Parece sensato. Mas, que havemos de fazer a esse
Stewart ou que diabo ? Acaba por roubar-nos tudo.
   - No o deixaremos, patro.

134   135

   - Mas, Tex, com o teu reduzido grupo... que podes tu
fazer?
   - Talvez mais do que com um grande. Patro, ns os
quatro, sem contar com Jones, temos alguma experincia
destas lutas no Colorado. J liquidmos duas quadrilhas
bem defendidas. Nada de correrias loucas nem perseguies.
Seguimos os rastos, aproximmo-nos cautelosamente dos

seus acampamentos, durante a noite, preparmos a emboscada e
fizmos mais uns ataques curtos e rpidos. Matmos uma poro
deles logo e o resto depois.
   - Hum! Quantos eram vocs?
   - Seis de uma vez e oito de outra.
   - Quem era o chefe do vosso grupo?
   - Bom, no tnhamos chefe, a no ser que fosse eu.
Limitvamo-nos a trabalhar juntos.
   - E queres tomar conta desta empresa?
   - Certamente. J lho dissemos antes.
   - Serks, tenho de reconhecer o vosso valor. Posso falar com
Melrose para o convencer a aceitar a vossa proposta.
Mas... estes malditos polcias. querem eles fazer o trabalho.
Blight j apresentou sugestes. Esta coisa de Stowart ser
Lockheart - pelo menos, eles esto seguros disso -
contendeu-lhes com os nervos. O capito Maggard deve estar a
chegar e depois partiro como loucos  caa ao homem.
   - ?ptimo. Mas, se possvel, preferamos ir por nossa
conta.
   - Claro. Contudo, deves saber que um capito da Polcia da
fronteira tem poderes para recrutar qualquer texano como seu
delegado e dar-lhe instrues especiais, que ele tem de
cumprir.
   - Eu sei. Isso  uma desvantagem. Mas, ele ainda c
est. Pode demorar dias ou semanas.
   - Entretanto, o sargento Blight quer tomar o comando
e eu creio que vocs no esto interessados em receber ordens
dele.
   - Nem por isso, patro. Sabe, eu j trabalhei com essa
gente. So mais soldados do que vaqueiros. Evidentemente
que admiro a organizao e sei quanto o Texas lhes deve.

136

Se Maggard aparece,  uma guerra declarada, at limpar
a regio desses bandidos. Mas, o que eu quero  aco rpida,
imediata, a comear o mais tardar amanh de manh. 
   - Concordo absolutamente com a ideia. Vou j falar
com Melrose. De que  que vocs precisam?
   - Bons cavalos. E sei que Melrose os tem, no  verdade?
   - Os melhores do Texas. Foi sempre uma das preocupaes
dele. Os mais velozes e robustos esto na cerca grande. Que
mais querem?
   - Trs espingardas, pelo menos. Se houver mais, melhor.
   - Vo busc-las ao armazm. Na ltima encomenda,
chegaram umas "Winchester 44" novinhas. E h fartura de
munies. Agora me lembro, Tex, os bandidos no traziam
espingardas nas selas. 
   - Reparou nisso? Eu no, mas vi que Stewart tinha
uma. A falar verdade, patro, aquela gente no me impressionou
muito. Lee, que tal os achaste?
   - No so muito aguerridos. Eu sei o que queres dizer,
do ponto de vsta de um vaqueiro - respondeu Bruce. - Devem
ser uns tratantes, tm todo o aspecto disso, mas nunca
apanharam um entalo. So mesquinhos e traioeiros,
outros com pouco estofo para aguentar, embora devam atirar   
bem. Conheo o gnero.
   - Qual  o teu plano, Tex?

   - Levar os rapazes comigo, mais o jovem Wells que
est na outra camarata. J descansou e curou-se do brao.
Conhece esta regio e parece-me fixe e afoito. E no
esqueamos Jack, patro.  outro com que podemos contar. 
   - Ai isso . Bem, rapazes, vou ter com o patro. Anda
de a, Lee.
   - Eu vou mais tarde, patro. H um trabalhinho para
fazer, que eu no perderia por nada deste mundo.
   - Plantar o nosso prezado Barncastle, no . Jones, s
vezes, fico a pensar se de facto o conhecias.
   - Pois, v pensando, patro. No ganha nada com isso.

137

   J era sol-posto quando Jack e Bruce, ajudados por
juan, estavam prontos para descer o corpo de Barncastle,
amortalhado numa lona, para dentro da cova que tinham
cavado na pradaria. O homem tinha, assim, um local de
derradeiro descanso prprio de um vaqueiro, na plancie
solitria, onde o coiote uivava de noite e o vento fazia
ondular a erva durante o dia - uma sepultura demasiado boa
para um traidor. Regressaram ao rancho na pequena carruagem
que Belton l deixara.
   - Sucedem coisas curiosas - murmurou Bruce. -Aquele
tratante chegou aqui esta manh no mesmo carro que lhe serviu
depois de carreta funerria.


   Tex Serks e os seus cinco cavaleiros atravessaram a
bifurcao sul do Brazos cerca do ocaso do dia seguinte e
acamparam junto de Flat Top iVloutain, a umas boas cinquenta
milhas do rancho de Melrose. A categoria atribuda aos cavalos
justificava-se amplamente. Dois animais de
carga acompanhavam-nos. O nico incidente do dia fora
uma curta paragem num rancho de um criador de gado
recentemente estabelecido. Tinha uma pequena manada em
South Fork, demasiado pequena, dissera ele, para os ladres a
cobiarem. Confirmara as suspeitas de Serks de que um
grupo de cavaleiros, com uma grande manada, passara naquele
ponto ao despontar da alvorada do dia anterior. Os homens de
Tex sentaram-se em volta da fogueira, considerando o que
haviam de fazer quando alcanassem os bandidos.
   - Camp Cooper fica a menos de un dia de aqui - disse Buster
Wells.
   - Que  Camp Cooper? - indagou Bruce.
   - Um velho posto militar, construdo por Mackenzie
em 1871. Est abandonado h anos, mas no mesmo local formou-se
ma povoao, com armazns, "saloon" e tudo. A estrada de
Mackenzie para Santone passa por Gooper.  muito concorrida no
Vero.
   - E cruza Chisum Trail em Forth Worth - acrescentou Serks.  
 - Atravessa uma via frrea antes, a uns dois dias
de trote. Mas,  mais provvel que os bandidos tenham
entregado o gado a um guia. 
   Bruce no estava seguro do terreno que pisava, mas julgava
ter passado naquela regio algures entre Chisum Trail
e Camp Cooper. Aquela parte do Texas desenvolvera-se
largamente com a criao de gado, o que coincidira pouco

mais ou menos com o fm da caa ao bfalo.

   No dia seguinte, depois de cuidadoso estudo das pegadas que
seguiam, Tex mandou abrandar a marcha. Os bandidos, sempre
precavidos, podiam detectar os perseguidores a muitas milhas.
Depois de um dia de progresso vagarosa, o


   grupo chegou a Camp Cooper ao escurecer. Acamparam nos
arrabaldes e Tex e Bruce penetraram nas antigas muralhas
de argamassa do velho forte, em direco  povoao.
Alguns edifcios mal iluminados quase no justificavam a vida  
 da localidade. Serks fez alto defronte de uma casa com a   
frontaria meio desmoronada, que era o hotel do stio.
   - Lee, eu vou at aqui e t ds uma espreitadela ao
"saloon" ali defronte.
   - E que fao? - perguntou Bruce.
   - Manda vir uma bebida e estuda o ambiente. Se os
tipos estiverem acampados perto de aqui, aposto que encontras
l alguns.
   Bruce caminhou at ao vasto "saloon", situado no lado
oposto, com todos os sentidos alerta. Uma meia dzia
de indivduos de aspecto grosseiro encostavam-se ao balco; 
outros sentavam-se s mesas, a jogar a batota; e um grupo
de cavaleiros, de esporas, cobertos de p, e com copos.
Quando estava perto do fogo onde crepitavam umas achas,
Bruce pediu a bebida, observou-os pelo rabo do olho. De
todos os ocupantes do "saloon", eram os nicos que lhe
prestavam alguma ateno. Fazendo meia volta, com o copo
na mo, Bruce mirou-os sob a larga aba do seu chapu.
   Uma fugidia observao convenceu-o de que aqueles homens
podiam bem ser os que procurava. Um indivduo alto,
vestido de preto, que estava de costas para Bruce, at que um
dos companheiros lhe tocou no brao e disse: "Vic",
fazendo-o voltar-se. Era, ento, aquele o brao direito de

  138   139

Stewart, Vic Henderson, de olhar arguto, lbios finos e
duros e barba rala. Bruce, com uma espcie de calor interior,
desviou o olhar para os outros, o tempo suficiente para os
reconhecer onde quer que fosse. Depois, virou-se
para o balco, fez meno de beber o contedo do copo
e saiu do "saloon". Atravessou a rua e esperou em frente
do hotel por Tex, que tardou alguns minutos em aparecer.
   - Toca a andar - disse este, quando chegou. - Viste
algum?
   - Henderson, e mais cinco.
   - J sabia. Esto acampados uma milha a norte do regato. E 
tu, como  que te correu a coisa?
   - Um deles deu sinal a Henderson, que estava de costas, e
dizendo: "Vic", apontou para mim. Fixei-os a todos e pusme a
andar.  gente sem valor, Tex. Tm feito tudo quanto querem e
nunca tiveram percalos.
   - Pois, vo t-los brevemente. Salta para o cavalo. -
replicou Tex, montando. - Samos devagar da povoao e depois
recuperamos o atraso. Vamos s ns os dois. Falei
com o dono do hotel. Contou-me que Henderson acabou de

vender duas mil reses a quatro dlares cada, a Jerry
McMillan, um criador de gado de Waco. Estes compradores
no costumam desperdiar as boas oportunidades. Devemos
alcanar Jerry a umas dez milhas de aqui, no cruza mento com o
Brazos.
   J fora da povoao, Serks imprimiu maior
velocidade
ao cavalo. A estrada era boa e a noite estava clara. No
disseram mais nada at avistarem ao longe o claro avermelhado
de uma fogueira, a cerca de uma milha fora da estrada. Tex
explicou que a linha escura do arvoredo marcava o curso do
Brazos. Em breve chegaram junto de duas fogueiras em torno das
quais vrios vaqueiros comiam, sobre um grande oleado. a
comida preparada com grande ruideira por um cozinheiro negro.
   - Ol, amigos! - saudou Serks.
   - Viva, cavaleiros! Apeiem-se; chegaram mesmo na
altura - replicou um homem alto, erguendo-se, o rosto
avermelhado e o olhar reluzente com o reflexo das labaredas.   
   - Obrigado. No temos temPo. McMillan, com certeza te deves
lembrar de mim.
   O guia e criador de gado aproximou-se mais de Serks.
   - Bom, macacos me mordam se no s Tex Serks! - exclamou,
com satisfao, estendendo-lhe a mo. 
   - Ol, Jerry. At que enfim que encontro algum que
me conhece. Hoje, ao fim do dia, compraste cerca de dois
mil novilhos a Vic Henderson, no compraste?
   - Nem fazia ideia do nome dele - declarou McMillan.
   - Jerry, esses novilhos tm o "ferro Crculo M".
   - Tm, sim, um grande nmero, embora alguns no estejam
marcados.
   - Parece-te que sejam de boa origem?
   - No posso garantir que no sejam roubados. Mas,
Henry, o meu capataz no  pessoa de grandes escrpulos.
Desculpa, Tex, mas bem sabes como  este negcio.
   - Claro. Felizmente, porm, conhecemo-nos bem um
ao outro. Essa manada pertence a Melrose. Foi roubada.
Alguns dos nossos homens de Little Wichita foram mortos.
Buster Wells est comigo no acampamento. Participou na
luta e foi ferido. Esse homem a quem compraste, Vic
Henderson,  o lugar-tenente de Bill Stewart. Ouviste falar
nele?
   - Ouvi sim - declarou McMillan.
   - Estamos a segui-lo. Jerry, que vais fazer com esse
gado?
   - Entreg-lo ao dono, evidentemente! Mas, co a breca.
vou atrs de Henderson, tambm.
   - Sim, e ficamos todos estendidos com umas quantas
balas por causa dos teus pruridos - interveio um vaqueiro
que devia ser o capataz. - Se vamos perseguir Henderson,
o gado fica ao abandono. Jerry,  melhor prosseguir. Se
chegarmos a Dodge, no perderemos o nosso dinheiro.
   -  mais prudente,  - acrescentou Tex. - Escutem a
   minha proposta. Tu levas o gado de Melrose juntamente
com o teu. Olha l, a como  que o irs vender?
   - Em Dodge, quinze dlares por caBea, no mnimo:
E estou convencido de que do mais.

140   141

   - ptimo. Suponhamos que..... Tiras o que pagaste a
Henderson e, digamos, trs dlares por rs pelo transporte;
e mandas o resto a Melrose. Fazes isso, Jerry?
   - Com muito gosto, rapaz - declarou McMillan. - Mas, que
interesse to especial  esse em encontrar Henderson?
   - Isso  da nossa conta, McMillan - dise Tex, sombrio. - E
vai com cuidado, hem?
   - Descansa. Para os homens de Melrose estarem em
campo,  porque anda ladroagem por a esse art, Henderson e
companhia.
   - Esactamente. At  vista, Jerry-. Depois, sabers
notcias. no Yegx-esso.
   - Um momento! Tenho ouvido falar muito bem desta
regio do Oeste do Texas, para l da nascente do Brazos.
Que tal , Tex?
   - O melhor que h no Texas, Espao Para um milho
de reses. Melrose s deseja bons vizinhos. Quantos mais
tivermos, pior- para os ladres.
   - Pois, ento, contem comigo. A nossa zona j deu o
que tinha a dar. Tex, diz ao teu patro que vou buscar a
famlia e vimos todos, com o resto do gado, no prximo Outono,
se o tempo se aguentar.
   - Explndido, Jerry. At  vista. Boa viagem, rapazes.
   Bruce e Tex meteram por entre as rochas e moitas. Tex
pensava na sorte que tinham tido em fazer aquele acordo
com Jerry, em favor de Melrose, e assim o declarou. Bruce
respondeu-lhe, pondo em foco a desonestidade de Vic Henderson,
e o companheiro retorquiu-lhe com um seco: "No perde pela
demora!".
   Os seus cavalos percorreram rapidamente as dez milhas
at Cooper. No entraram, porm, na povoao; fizeram
um rodeio e dirigiram-se para o acampamento, onde foram
detidos por Jack Melrose que, de espingarda nas mos, bradou:  
   - Quem vem l?
   - No dispares, Jack. Precisas de ns - respondeu
Tex, jocoso.
   Tinham-lhes guardado o jantar quente.
   - Um passeiozinho, hem? Rapazes, olhem para os cavalos
deles - acrscentou Peg, curioso.
   - Tapa os animais com mantas durante um pedao,
Jim - pediu Tex, desmontando. - Bem, amigos, descobrimos o
nosso gado e conseguimos maneira de o restituir ao patro sem
perder muito. Os bandidos andam por a, quer
dizer, andavam, h uma hora. Henderson e mais cinco no
"saloon", e o resto acampados do outro lado da povoao.
Vi uma fogueira. Lee, trinca qualquer coisa e toma um
golo de caf.
   Fez-se silncio no agruPamento, enquanto Tex e Bruce comiam
 pressa. Depois, Tex encarou Bruce com olhar Penetrante.
   - Lee, que pensas de tudo isto?
   - Acho que a melhor altura  agora - respondeu
Bruce, sem hesitar.
   - Tambm eu. As coisas tm corrido bem. Como  que
vamos agir?
   - Vocs tratam da "limpeza" do acamPamento e eu
ajusto as contas com Henderson e a pandilha. Devem estar
a beber e na jogatina. Havia uma porta nas traseiras do
"saloon". Apareo de chofre, trato da sade a Henderson

e a mais um ou dois, e safo-me no meio da confuso.
   - Pistoleiro solitrio, hem? J o calculava, Lee Jones.
ou quem diabo s tu. Mas, no consinto que te arrisques
sozinho. Jim e eu vamos tambm, para o que der e vier.
Peg, levas Jack Melrose, Juan e Buster, localizas o
acampamento, acercas-te o mais possvel, nem que seja de
gatas, e fora neles!
   - Belo programa! Como diabo me certifico de que so
bandidos? - inquiriu Peg.
   - S h um acampamento fora da cidade, alm do
nosso, que  o de Henderson. Pode ser que l estejam todos
agora, embora no seja provvel. Mas, no importa quantos
sejam! Aproximem-se bem e tracem um esquema de assalto.
Assegurem-se de que eles reagem quando te ouvirem gritar.
   - Gritar? Caramba, ns vamos mas  apanh-los descalos.
No mataram eles os companheiros de Buster a sanguefrio?       
   - Sim, mas tu gritars "Eh! Ladres, mos no ar".

142   143

Eles tentam logo puxar das armas e, ento, vocs dolhes
aquela conta. Jack, se no botas figura, prego-te uma
descasca.
   - Figura? Eh! Eu at arranco as orelhas de um coelho
 desfilada! - garantiu o rapaz.
   - Sim? Mas, olha que estes no socoelhos; so homens
duros, que respondem ao fogo. Muito bem, vamos a isto. - Tex
consultou o seu relgio de prta. - Cerca de nove horas. Peg,
se Henderson e os outros estiverem no "salaon", ns demoramos
cerca de um quarto de hora. Deixamos aquios cavalos e vamos a
p.
   E Tex meteu rumo  povoao, com Bruce de um lado
e Jim do outro. Bruce havia muito que suspeitava que aquele
Tex Serks tinha sangue de pistoleiro e, agora, obtinha a
confirmao. No tinha dvidas sobre o resultado da empresa,
auxiliado pelos dois irmos e contando com o elemento
surpresa. Se se tratasse de profissionais como os clebres
Buck Duane, King Fisher, Billy the Kid e outros de igual
valor, a surpresa de nada valeria; mas, Hendersan no era da
mesma categoria, de contrrio j teria fama. Os
pensamentos de Bruce comearam a confluir todos numa
mesma direco e antes de chegarem ao povoado j ele se
encontrava calmo e pronto para entrar em aco. Tex
quase no falou mais. J na rua principal, conduziu os
companheiros para o lado esquerdo. Bruce reconheceu o
"saloon" e comunicou-o a Tex. No havia ningum  vista,
mas o silncio estava longe de existir. Dois edifcios escuros
erguiam-se entre o "saloon" iluminado e os trs homens,
que se encaminharam para junto deles, contornando-os. Em
breve, distinguiram novamente as luzes do "saloon".
Cautelosamente, chegaram-se  parede, perto de uma janela, e
Bruce espreitou. Por momentos, a luz feriu-lhe a vista;
depois, habituou-se. Por sorte, Henderson e os outros estavam
sentados a uma mesa, mesmo no centro daquela parte recuada do
estabelecimento. No havia obstculos entre a
porta e os jogadores, que tinham vrias garrafas na sua
frente. Naquela altura, Henderson declarava: "Aposto mais
cinquenta".

   Bruce empunhou os dois revlveres e, inclinando a cabea
para Tex e Jim, murmurou: 
   - Esto mesmo a jeito!. Atirem com a porta de repelo e
sigam-me. Eu  que falo. Quando eles se resolverem a sacar,
disparem. Depois, abriguem-se.
   Cautelosamente, como ndios, os trs aproximaram-se
da porta. Serks recuou um pouco, os dedos rgidos sobre a
madeira, enquanto Bruce se contraa. Ento, de rompante,
a porta foi empurrada e Bruce surgiu no limiar.
   - Quietinhos! -bradou.
   O tilintar de esporas cessou, bem como todos os outros
rudos. Os frequentadores do "saloon" ficaram imveis nas
posies em que se encontravam, de p ou sentados.
   Henderson, com um homem de cada lado, encarou Bruce
e os irmos Serks. Os outros trs estavam de costas. Um
tossicar nervoso e um rapar de botas no cho quebraram
o silncio sepulcral.
   - Bom, j estamos quietos - declarou HendersonE, - agora,
que querem? 
   A resposta de Bruce foi momentneamente abafada por
um estampido distante de espingarda, seguido de uma rpida
rajada. Henderson ouviu-os, bem como os seus homens, cujos
ouvidos se arrebitaram como se se tratasse de coelhos. 
   - Um assalto, hem? - continuou o chefe dos bandidos.
   - Pois, cavalheiros, no nos levam o dinheiro sem luta.
   - No  um assalto, Henderson. S um ajuste de contas
com uns ladres de gado!
   As respiraes agitadas dos bandidos demonstravam bem
como a declarao de Bruce os afectara e este logo deduziu
que no resolveria o assunto sem tiroteio.
   - Mostra-me as provas to claramente como j mostraram as
armas - retorquiu Henderson, com um brlho sinistro no olhar.  
   - Acabmos de falar com McMillan.
   - Ento, no devem precisar de saber mais nada - disse o
bandido, sarcasticamente.   
   Sabia que estava apanhado, mas sem conhecer quem o
   encurralara. Era evidente que trs vaqueiros, mesmo de
   revlveres em punho, no Lhe causavam grande impresso.
   Por essa altura, todos os frequentadores do "saloon",
   alheios  questo o tinham abandonado, como por encanto.

144     145

   - Onde est Bill Stewart, que anda para a a matar
gente em nome de Bruce Lockheart? - inquiriu Bruce.
   - No se encontra aqui. E quem diabo s tu?
   A ltima pergunta de Bruce tivera manifestamente mais
interesse para Henderson do que os canos ameaadores das
armas. O seu rosto moreno empalideceu. Uma suspeita
nascia no seu esprito, quase sem precisar de confirmao.
A meno do nome de Bruce Lockheart naquele momento
surtra o efeito desejado por Bruce.
   - Olha, podia ser Buck Duane ou qualquer outro, mas
no sou - retorquiu o rapaz, entre trocista e misterioso.
   - Tu s... Lockheart! - sibilou o bandido. - Coa
breca!. Amigos, eu avisei Stewart de que no se escondesse sob
aquele nome.
   Era o amargo protesto de um homem desesperado que

no via sada da ratoeira. Como uma mola de ao
repentinamente solta, levantou-se de um salto, atirando com a
mesa e a cadeira e levando a mo  arma. O tiro de Bruce
foi instantneo. Com gritos selvagens, os homens de Henderson
entraram freneticamente em aco. Bruce acertou novamente em
Henderson, que j cambaleava, e depois no bandido que se
encontrava ao lado deste. O rudu das detonaes ensurdecia-o.
Por entre a fumarada, Bruce esgotou o revlver da mo direita
sobre o grupo que se desintegrara. Sentiu uma pancada que
quase o fez cair e atirou-se para a porta, caindo sobre Jim
Serks, que ia  sua frente.
Quando se endireitou, viu Tex disparar um derradeiro tiro.
Rapidamente, trocou os revlveres e colocou-se ao lado
dele. Espreitou atravs da cortina de fumo, ouviu mais dois
estampidos e conseguiu destinguir homens a correr, uns
retorciam-se convulsivamente e outros inertes no cho.
   Tex puxou-o para trs.
   - J chega... por agora - arquejou. - Demos-lhe
uma lio. Jim, ests bem?
   - Atingido, mas sem gravidade, parece-me - respondeu o
irmo.
   - Eu s me chamusquei. E tu, Lee?
   - Tambm apanhei, mas no  caso para nos determos.
Vamos acabar com isto.
   - J acabou! Os que no morreram devem estar bem
marcados. Anda, toca a fugir. Que sorte! 
   - Mas, eu no quero ir-me embora ainda - protestou
Bruce, carregando o revlver vazio.
   Tex empurrou-o para uma zona mais escura.
   - Que diabo pretendes tu? Vi-te liquidar Henderson e o
outro ao lado dele. E eu e Jim no estivemos a matar
moscas. Foste ferido?
   - No ombro. Eh! Isto est a sangrar bastante - replicou
Bruce, guardando a arma no coldre e comprimindo um leno
contra a ferida.
   - Escuta! -- sussurrou Tex, de sbito. - Cavalos, na
estrada... fora da povoao.
   Bruce ouviu um trotar rtmico de cascos, que indicava
a fuga de alguns dos bandidos.
   - Ouviste. Jim? Quantos sero?
   - Trs pela certa, talvez quatro.
   - Aposto que nenhum deles vai direito. Ns vamos
para o acampamento, tratamos dos nossos ferimentos e
aguardamos a chegada de Peg. Depois, veremos o que h
a fazer.
   Quando chegaram ao acampamento, este estava deserto,
mas a fogueira no se extinguira. Tex deitou-Lhe mais lenha,
que logo comeou a arder. Depois, foi a um saco buscar
pensos e ligaduras. O ferimento de Jim era um buraco de
bala na parte carnuda da coxa, sem grande importncia.
Bruce tinha um golpe doloroso mas sem gravidade no alto
do ombro esquerdo. Ardia-lhe e magoava-o tanto que o
fazia esquecer as outras sensaes do momento.
   - Vem a algum - avisou Jim Serkss.
   Tex pegou na espingarda e voltou-se na direco de
vrios vultos esbatidos que se aproximavam  luz das estrelas.
Ento, o seu receio dissipou-se, ao chegar at ele a voz aguda
de Jack, transportada com clareza pelo ar frio da noite. Tex

contou os vultos.
   - Graas a Deus, vm todos e com bom aspecto!
   Passados instantes, Jack irrompeu no crculo luminoso
da fogueira, seguido por Peg e os outros dois. Excepto

146   147

Jack, que vinha plido e transfigurado, os outros mostravam-se
decididamente sombrios.
   - Eh! Vem algum ferido? - perguntou logo Tex.
   - Nem um arranho. Jack  que ficou com o chapu furado.
   - Olha aqui - gritou o rapaz, estendendo o chapu
e metendo um dedo num buraco na copa. - Furado por uma
bala! Se no me abaixo, aquele homem estoirava-me os miolos.   
- No pode ser, rapaz - disse Peg. - Como  que ele
podia estoirar-te uma coisa que tu no tens?
   Bruce notou logo que Peg estava aborrecido, sem dvida pelo
resultado do empreendimento, enquanto Jack se encontrava
bastante emocionado.
   - Bom, contem l - disse Tex, jovial. - Chegaram
inteirinhos. E, o que quer que tenha corrido mal a vocs,
o certo  que ns demos cabo de Henderson e dos outros.
   - Eia! No me digas! - exclamou Peg, radiante como
a lua descoberta por uma nuvem e envolvendo os companheiros de
Tex num mesmo olhar. - Caramba! Lee, ests ferido!. E Jim
tambm. Oh! Diabo, isso  que foi pior!
Espero que no seja grave.
   - De momento, di-me muito, Peg - replicou Bruce
- mas no tem perigo. A perna de Jim, porm, deve ficar
imobilizada por algum tempo.
   - Quero saber imediatamente como a coisa se passou
- declarou Peg.
   Sentou-se junto da fogueira e estendeu as mos abertas,
que tremiam notavelmente. Tex reparou tambm que Peg
estava um pouco descolorido, o que, acrescido ao silncio
de Buster e ao retraimento de Juan, no abonava muito
em favor do quarteto. Ento, Tex contou em pormenor o
que ele e os seus dois companheiros haviam feito. Peg
escutou com a maior ateno, perfeitamente embasbacado.
   - Porque  que no disseram h mais tempo? Tex,
vamos  povoao, para saber quantos ficaram mortos.
   - Est bem, mas depois de ouvir a vossa histria.
   - Deixem-me contar eu - pediu Jack, agora nervoso
e trmulo, como reaco lgica da anterior euforia.

148

   - Aguenta a, rapazinho! - retorquiu         Peg. - Tex,
vocs foram de facto formidveis!.       Lee, que rica ideia a
tua de os teres feito pensar que eras Bruce Lockheart.
Devem ter ficado passados! Mas, no devias ter corrido esse
risco. Conseguias o mesmo efeito, ou melhor, disparando do
lado de fora da prta. Ah!    Sim, a gente no deve disparar 
traio, nem mesmo contra bandidos destes. Pois, eu acho que
devamos!
   - E se te deixasses de comentrios e comeasses a
palrar o que interessa? - sugeriu Tex.
   - Oh! Sucedeu uma poro de coisas... Deixmos escapar

trs, por culpa de Jack!
   - Mas, eu matei um! - gritou Jack, mortificado e furioso.   
   - um qu?-inquiriu Bruce, admirado.
   - Lee, eu acertei... matei-o... Tenho aqui a arma e o
dinheiro dele, para prova.
   Consternado, embora sem saber bem porqu, Bruce fitou Peg,
que confirmou.
   - Sem dvida - disse este. - Deu-nos uma lio; foi mais
corajoso ou mais doido. No cumpriu as minhas or dens.
   - Sim. Bem, Peg Simpson, conta l isso desde o princpio -
retorquiu Tex, ao mesmo tempo fascinado e incrdulo.
   - Muito bem. Vocs no vo acreditar, mas  verdade.
Encontrmos o acampamento numa clareira, a uns duzentos
metros de qualquer proteco, excepto alguns arbustos que no
abrigariam nem um coelho. Havia quatro homens junto 
fogueira, um a cozinhar e os outros trs a discutir, andando
de um lado para o outro e atentos  aproximao de alguma
pessoa. Deviam esperar Henderson. Perdemos uma poro de tempo
a traar planos. Eu queria disparar de longe; Juan dizia que
no dava nada. Buster concordou comigo, porque no podamos
chegar-nos mais. Irra! Era um suicdio! Aquele rapazola acol,
um segundo Billy the Kid, pelos vistos, escutou a nossa
conversa e a certa altura, comeou a dizer que parecamos uns
ces que mal sabamos ladrar, quanto mais morder. Disse que    
                                                               
             149

tnhamos ordens a cumprir. Dei-me ao trabalho de tentar
explicar a Jack o perigo terrvel que aquilo representava.  
queramos que ningum ficasse ferido, particularmente ele.   
Riu-se-me na cara. "Nesse caso, vou sozinho", disse ele.
   E, antes que algum pudesse segur-lo meteu-se a rastejar   
campo fora. Que diabo! At um gafanhoto eu era capaz de
ver. Que havamos de fazer? Estvamos encravados.
   Jack agarrava-se bem ao terreno; dava um "comanche"
formidvel. Ajoelhmo-nos atrs de umas moitas, espingardas   
apontadas, prontos para disparar se eles o descobrissem.   
Mas, ele alcanou o primeiro tufo de salva, prosseguiu para o
segundo e depois podamos v-lo como uma lagarta negra,
j a meia distncia, apenas com mais um pequeno bosque
de arbustos entre ele e osbandidos. Estes discutiam
acaloradamente e olharam na direco da cidade. Nunca
compreenderei como  que no o viram.
   Buster, ento, disse: "Ele no se arrisca a avanar
mais". Eu calculei o mesmo, mas estava paralisado pelo
receio. Este rapaz estava doido. l isso estava! Mas... eu
disse: "Aguardemos mais um minuto". Jack atingiu a
ltima cobertura e ns quase desmaimns de alvio. Permaneceu
deitado algum tempo. enquanto ns sentamos cada vez maior
formigueiro no dedo do gatilho. Eu calculava que se fose de
dia poderia acertar num daqueles indivduos, mas de noite no
tinha a certeza. De repente, Jack ergueu-se sobre um joelho,
apontou a arma e berrou com toda a fora dos pulmes: "Mos ao
ar, ladres!".
   Havias de os ter visto! Um deles descobriu Jack e levou a
mo ao revlver, mas Jack acertou-lhe, porque ele demorou
muito a fazer a pontaria. Caiu redondinho. Os outros pareciam
formigas a fugir de uma enxurrada. Largaram a fugir,

disparando ao mesmo tempo, agarrando nas coisas, e correram
para os cavalos. Nessa altura, j ns estvamos a disparar,
claro, e Jack fez fogo mais dez vezes tambm. a ajuizar pela
espingarda descarregada. Mas, aparentemente, nenhum de ns
sequer feriu um nico deles, que se sumiram na escurido.
Ouvimos os vossos tiros na povoao e desejmos que tivessem
mais sorte do que ns. Fez-se silncio e ficmos a aguardar.

 150

depois ouvimos cavalos afastarem-se na direco do povoado.
Atravessaram-no e meteram para Oeste. Bem, dirigimo-nos para o
acampamento deles; Jack adiantou-se e quando chegmos j ele
vistoriava o homem cado, com a destreza de um autntico
polcia da fronteira, e increpou-nos: "Vem o que eu dizia? Se
no fossem medrosos, t-los-amos caado a todos. E
   aposto que acertei num dos outros; vi-o cair, levantar-se  
e fugir a coxear". Fiquei arrependido pelo que disse a
   Jack. E foi isto que sucedeu.
   Bruce emudecera, observando as reaces do irmo de
Trinity ao escutar a narrativa do seu comportamento. E
no sabia o que o afectava mais profundamente, se tristeza por
aquele jovem ter derramado sangue pela primeira vez na sua
vida, se admirao pela sua indmita bravura.
   Tex Serks, provavelmente, debatia-se no mesmo conflito
interior, pois abanava a cabea e olhava para Jack, com
certa relutncia em falar. Por fim, disse:
   - Jack, foi uma grande manobra. Mas, procedeste mal.
Peg tinha razo. Supe tu que um de ns estava prisioneiro no
acampamento. Se tal sucedesse, dava cabo de ti! Assim,
limito-me a chamar-te destravado, doido varrido,
e, se no me garantires que no voltas a arriscar-te desta   
maneira, levas uma sova mestra.
   Jack inclinou a cabea, envergonhado.
   - Tex, agora compreendo que foi asneira. Perdi a cabea. Se
no contares... ao pai, juro-te que no caio noutra.
   Bruce, entretanto, perguntou:
   - Tex, vamos perseguir os trs que fugiram?
   - Sem dvida. Devem dirigir-se ao esconderijo de
Stewart e a ns interessa-nos localiz-lo. Mas, com dois
homens feridos, no quero meter-me em novas andanas
sem vocs estarem bons. Claro que podamos segui-los at
 toca e deixar o resto por conta de Jack!
   - Oh! V l de piadas, hem?! - exclamou o rapaz,
indignado.

151


                                    13.


   Dois penosos dias mais tarde, os cavaleiros desmontaram em
Brazos Head. Juan reuniu os cavalos, fatigados, que
relinchavam ao farejar a gua. Jim, coxeando, acercou-se do
alpendre e depois parou.
   - Que ests a ver? - sussurrou Peg, ao notar o
significativo movimento que Jim fazia com a mo.

   Ento, Bruce descobriu uma carruagem e um carro
coberto que lhe eram estranhos,  sombra do armazm.
Nunca antes os vira ali.
   - Quem diabo poder ser? - resmungou Peg. -- Est
sempre a aparecer gente.
   Bruce mastigou uma imprecao e aproximou-se da
porta da sua camarata. Entraram e Peg acendeu uma luz.
   - Ah!  bom chegar a casa. Este mimo estraga-nos.
Sentem-se, amigos - disse ele. - Vou atear o lume e
aquecer gua num instante.
   - Peg, tens razo. Estamos uma vergonha - concordou
Bruce. - gua quente, fazer a barba e vestir roupa limpa.
   - Ora! Aposto que a tua rapariga no te d tempo
para te aperaltares e aparece por a antes.
   Mas, Peg enganou-se. Bruce despachou-se a arranjar-se
sem que Trinity desse sinal de vida, bem como qualquer
outra pessoa. Quanto a Bruce, uma espcie de opresso
pairava sobre a casa. Enquanto Peg cozinhava, Bruce tratava da
perna de Jim, satisfeito com o bom aspecto da ferida, menos
inflamada e em vias de cura.    Naquele momento, soaram passos
no lado norte do alpendre. O sargento Blight surgiu  porta,
com ar curioso e prazenteiro.
   - Ento, que tal, rapazes? - perguntou.
   - No correu l muito bem - informou Peg, depois
de ver que nem Bruce nem Jim pareciam dispostos a falar.
   - Bem, eu avisei Melrose de que no devia deix-los ir.

152

   - Ah! Sim? Pois, deixou e, aqui para ns, a coisa
tambm no foi de todo mal.
   Juan passou por Blight, transportando uma vasilha com
gua e uma braada de lenha. O sargento, pressentindo
que, mesmo que houvesse novidades, nenhum dos vaqueiros o
informaria, resolveu abalar para os seus aposentos. 
   - Porque  que Tex no vem? - queixou-se Peg,
pela segunda vez. - O jantar est pronto.
   - Talvez tenha ido comer com outros - sugeriu Jim.
   - Fez ele muito bem, no perdeu tempo. Vamos a isto,
amigos. H trs dias que no temos comida de gente e esta
est boa.
   No foi preciso insistir e, passado pouco tempo, os
pratos e os tachos estavam vazios. Jim foi-se deitar, enquanto
Juan ajudava Peg a arrumar as coisas, Bruce entreteve-se a
fumar um cigarro, pensativo e nervoso. Todavia, no ouviu
vozes seno quando Juan Lhe fez sinal; ento, encaminhou-se
para a porta e escutou antes de espreitar.
Na escurido, distinguiam-se passos e vozes sonoras de
homens. Lobrigou os morres acesos dos cigarros. A voz
potente de Melrose sobrepunha-se  de Slaughter, mais
aguda, e era interrompida a espaos pela de Tex Serkss.
Alm destes, Bruce reconheceu que havia outros no grupo,
falando mais baixo.
   - A vem Tex - disse Peg, por sobre o ombro de
Bruce. - E o nosso patro. Mas, vem mais algum; Lee.
Gostava de saber quem.
   O riso alegre de Trinity, um pouco falso aos ouvidos
de Bruce, arrancou Peg das suas divagaes e cortou o fio

ao pensamento de Bruce, que recuou para dentro da camarata,
rgido e em guarda, enquanto Peg continuava de atalaia.
   Bruce distinguiu os passos rpidos de Jack sobre o
alpendre e a entrar para o armazm. Acendeu um fsforo.
 Mais gente a aproximar-se contribuiu para aumentar a sua
tenso. Vrios homens falavam ao mesmo tempo, de assuntos
diversos. Pelo andar, Melrose devia seguir na frente,   em
direco ao armazm, acompanhado sem dvida por Tex.

   153

   - Oh! Tex. espere, por favor! - chamou Trinity,
e na sua voz doce Bruce reconheceu o mesmo tom estranho
do riso anterior.
   Mas, Tex entrou. Resmungou qualquer coisa sobre o ter
chegado tarde, mas o seu aspecto era tal que Bruce no
percebeu o que ele disse. Tex estava branco sob a pele
bronzeada. Os seus olhos castanhos brilhavam como ties
e, num lampejo de compreenso, Bruce colocou-se imediatamente
em guarda.    Adivinhara o que as pupilas de Tex significavam,
na
sua muda mensagem. Afastou-se para o centro do recinto,
de braos pendentes, lutando desesperadamente por encon
trar um meio termo entre o estado de perigo latente comunicado
por Tex e a atitude que Trinity esperaria dele.    A rapariga
entrou, acompanhada por um homem alto,
em cabelo, de feies enrgicas e tez tisnada, o que fez
Bruce ter a certeza de que alguma coisa se iria passar.
   Trinity agarrava-se com ambas as mos ao brao direito
daquele texano. Estava maravilhosa, com um fulgor estranho
irradiando da sua expresso radiante e uns lhos
magnficos, escuros como a meia-noite, imperscrutveis a
todos excepto Bruce. que sentia ser aquele momento a um
tempo o mais grandioso e terrvel da sua vida. A sua deliciosa
noiva apoiava-se no brao daquele estranho com perfeita
naturalidade, sem dar por isso talvez, mas para Bruce com um
significado bem definido.
   - Aqui o tem - disse a jovem, apontando para Bruce.
   - Este  que  o felizardo do meu noivo, Lee Jones,
de Uvalde. Lee, apresento-te o capito Maggard, da Polcia da
fronteira.
   Naquele compartimento mal iluminado, Bruce tinha uma
vantagem de que talvez no precisasse. A coragem e o
sangue-frio t-lo-iam abandonado, deixando apenas o terrvel
instante de matar a ter de se render, se no fosse o claro
que brilhava nas pupilas da jovem.
   - Lee Jones, tenho muito prazer em conhecer-te. - disse
Maggard, calorosamente, estendendo-lhe a mo enorme. - E
dou-te os meus parabns por seres o vaqueiro com mais sorte no
Texas.

154

   - Como est, passou bem, capito? - retorquiu Bruce,
atabalhoadamente, apertando a mo que Lhe fora estendida.
- Obrigado... obrigado... De facto, sou. tenho muita sorte.   
Era evidente, os seus olhos cinzentos perscrutavam aquele
indivduo que, pelo facto de ser um estranho, no despertava

nele qualquer dvida, mas apenas curiosidade, por ser noivo de
uma rapariga a quem ele se afeioara havia muito tempo.
   - Jones, hem? Um dos Jones de Big Bend. Bom, nunca
conheci nenhum do ramo bom. Oxal sejas um deles - prosseguiu
o polcia. 
   - Oia, capito Maggard - interrompeu Bruce, num
pretenso protesto - Melrose j me disse o mesmo.
   - Filho, pelo teu aspecto texano. e pelo que oio
dizer, tenho de ser cauteloso ao fazer-te perguntas repentinas
- observou Maggard, sorrindo amigavelmente. 
   Trinity largou o brao do capito e colocou as mos nos
 ombros de Bruce, que tanto precisavam de amparo.
   - Lee, sinto-me feliz... por teres voltado - disse, com 
voz trmula. E Bruce no pde evitar um trejeito de
sofrimento quando ela lhe carregou no ombro ferido. - Lee!.  
Ests ferido! Eu... eu julgava... Jack mentiu-me!
   - Trinity, isto no  nada. s uma beliscadura. - afirmou
Bruce, quando ela se lhe encostou ao peito. 
   Mas, ao senti-la imvel e completamente inerte, exercendo
presso nos seus braos, afastou-a um pouco de si, alarmado,
proferindo palavras sem nexo, e, ao fitar-lhe   o rosto,
verificou que tinha desmaiado.
   - Pobre pequena, coitada! - exclamou Maggard,
paternalmente. - Deita-a a, Jones, e algum v buscar gua.   
   Bruce estendeu-a num pequeno catre e ajoelhou ao
lado dela, enquanto Maggard se debruava sobre ambos e
Peg chegava a correr com um recipiente com gua. Molhando o
leno, Bruce humedeceu-lhe o rosto, com os dedos trmulos e o
corao descompassado. Trinity refez-se rapidamente, na
altura em que o pai e Jack entravam no alojamento.
   - Trinity. Lee, capito, que sucedeu aqui? - trovejou o
rancheiro.
 
 155

   - Patro, no foi nada. Foi ela que desmaiou. - replicou
Bruce.
   - Qu? Trinity desmaiou? Essa agora! Aposto que  a
primeira vez.
   - Steve - interveio o capito - ela estava esgotada.
J no vinha boa quando me deu o brao.
   Entretanto, Trinity olhava para Bruce, para os outros,
e de novo para ele, com os olhos muito abertos. Lentamente, o
medo desapareceu da sua expresso. Agarrou-se a Bruce.
Em seguida recomps-se e sentou-se.
   - Lee. pai! Que aconteceu? - perguntou, com um ligeiro
sorriso.
   - Trinity, desmaiaste - respondeu Bruce.
   - Foste-te abaixo, pequena - disse Maggard. -  natural.   
- Eu, desmaiar?. Tem graa! No me lembro de nada.
   Jack passou-lhe um brao sobre os ombros.
   - Irmzinha, aposto que Lee fez de mim um aldrabo
e foiisso que te desgostou.
   - Oh! Sim... sim... Foi isso mesmo - afirmou Trinity,
e, se no era sincera, mostrava-se uma actriz consumada.
Sentir aquela ferida no ombro dele, hmido e febril. E mal
podia mov-lo. - Lee, tu... tu...
   - Trinity, no foi nada de grave - protestou Bruce. - Um

raspozito sem importncia. Desculpa ter-te assustado.
   - Lee, leva-a para casa e no te demores muito -
interrompeu Melrose.
   E Bruce, como num sonho, encontrou-se na penumbra, com
Trinity a seu lado, estreitando-o nas suas pequeninas
mos. Quando se tinham afastado um pouco mais, Bruce
abrandou o passo e cingiu-a com o brao.
   - Querido. ests de novo em segurana - murmurou
ela, encostando a cabea ao peito dele.
   - Meu Deus. Trinity. foi terrvel! - repLicou Bruce,
quase sufocado com a simples recordao.
   - Oh? Eu j sabia - disse ela, agitada. - Mas, Bruce
querido, eu confiei sempre. Oh! Foste formidvel!
   - No me senti l muito formidvel, meu amor - declarou

156

Bruce. - Encontrar Maggard depois destes dois longos anos de
fuga. de ser perseguido de noite e de dia. foi ainda
pior do que eu imaginava. Mesmo que no estivesses presente,
custava-me, mas assim foi horrvel.
   - Bruce, eu no tinha a certeza de que ele no te
reconhecesse. Foi a derradeira experincia. Tinha de a fazer.  
Agora, graas a Deus, estamos garantidos.
   - Estamos? Estarei... eu alguma vez seguro?. Trinity,
tu agarraste-te ao brao dele e eu bem percebi porqu.
Escusas de tentar enganar-me porque no consegues.
   - Meu amor, eu no pretendo iludir-te - retorquiu
ela. - Tinha idealizado a melhor maneira de resolver o
assunto. No pensei que fosse to custoso. Se ele te tivese   
reconhecido, se tentasse prender-te. eu no o deixaria. S   
pensei em ajudar-te, se tivesses de fugir.
   - Trinity, se Maggard me reconhecesse... e me ordenasse que
me entregasse... dava-Lhe um tiro! 
   - Oh! Isso percebi eu logo que te vi. E nesse momento
no me teria sentido arrependida. Mas, agora, verifico que
estava errada. Felzmente, as minhas preces foram escutadas.   
   - Sabes uma coisa, Trinity? Simpatizo com o caPito
Maggard. Nunca o teria julgado possvel, mas ele  um
texano s direitas. um homem srio, como Sam Houston o deve
ter sido, e McNeely, um dos primeiros capites da Polcia da
fronteira.
   - Bruce, o capito  uma autoridade do Texas - retorquiu
Trinity. - Estamos ambos contra ele e ele representa o Estado
contra Bruce Lockheart! 
   - Caluda! Nunca pronuncies o meu nome - replicou Bruce. -
s tu, Trinity, quem me d esperana e vida. Esta situao
aqui  crtica, mas eu tenho coragem para a enfrentar. Fui
aceite aqui, como empregado de teu pai.. e como noivo da
filha!  inconcebvel.
   - Sim, mas  verdade - respondeu ela, docemente. - Maggard
chegou hoje com dois dos seus homens, vindos de   Fort
Griffin. Perguntou-me se eu tinha voltado a ouvir falar de
Bruce Lockheart e eu respondi-lhe que no. Lee Jones
fizera-me a corte e eu aceitara. Chanou-me marota, riu-se

     157


e no suspeitou de nada. Isto at que ficou satisfeito por
eu no haver tornado a ver-te, Bruce.
   - Mais dia menos dia, aparecer algum que me conhea
- interrompeu Bruce. - Ento, tenho de lutar para rne
defender ou fugir novamente. A regio est a povoar-se
cada vez mais e esta sorte no pode durar muito.
   - Escuta. Bruce. Ontem, chegaram mais trs, com bagagem e
tudo, do Novo Mxico. Com estes, faz nove que j vieram
estabelecer-se por aqui. Mas,  contra estes trs ltimos que
tens de acautelar-te. Se te reconhecerem. se
te apontarem. fazes-te furioso e indignas-te. Sabes muito
bem como deves proceder, mas no mates ningum, a no
ser em legtima defesa. Pode ser que no haja qualquer
suspeita, mas temos de estar precavidos contra tudo. E se
acontecer alguma coisa inesperada - Deus permita que
no - vai bater  minha janela, de noite, e acorda-me.
Planearemos, esconder-nos-emos, fugiremos ou irei ter contigo
depois a um stio combinado. Mas, uma coisa te peo; te
suPlico ardentemente: no me abandones. Boa noite, meu amor (  
 Bruce dirigiu-se vagarosamente para a camarata, tentando
dominar a emoo que Trinity despertara nele, a fim de se
aplicar com ateno ao problema de momento. Por
enquanto, nada mais tinha a fazer que aguardar os
acontecimentos. No quarto, encontrou Tex e Peg Simpson
envolvidos em discusso aparentemente sria.
   - De que  que esto a falar, rapazes? - perguntou Bruce.   
- Temos um problema levado de seiscentos dmnios
para resolver - respondeu Tex.
   - Pois, ento, desembucha - retorquiu Bruce, vivamente
interessado... - Lee, este capito Maggard  um homem
consciencioso e cheio de genica - prosseguiu Tex. - Pe o
maior escrpulo, uma verdadeira paixo no cumprimento do
dever. Quer ajuramentar-nos para nos nomear seus delegados.   
- Qu? Isso  um sarilho.
   - Exactamente como eu pensava. Mas, depois de o ouvir
falar, fica-se a gostar dele.

158

   - Isso j sucedeu comigo, Tex. Admira-ne que Melrose
e Jack no engracem com ele. E ele adora Trinity como
se fosse filha dele, embora no seja retribudo da mesma
forma. Deve ser homem que no tem famlia.
   - So tragdias da vida, Lee. Estes homens arranjam
uma relao ou um conhecimento de vez em quando e tm
de se contentar com isso. Bem, Maggard anda outra vez
na pista desse tal Bruce Lockheart, ou melhor, diz que h
j dois anos que no faz outra coisa. Segundo ele, Bill
Stewart  de certeza Bruce Lockheart. Por isso, agrada-lhe
a ideia de o apanhar, ao mesmo tempo que acaBa com a
ladroagem que rouba Melrose. Lee, aposto que nos vai
mandar com os agentes, quer queiramos quer no.
   - J o calculava e talvez seja boa ideia.
   - Claro. Todos reunidos, limpamos os bandidos num
abrir e fechar de olhos. O que perdemos  o mrito exclusivo
da faanha, mas pouco se me d.
   - Mas, eu no gosto de que me dem ordens! - interveio Peg
Simpson - e no estou disposto a ir, a menos que Maggard nos

d pulso livre.
   - Rapazes, o caso  que Maggard no lhes dar qualquer
ordem. Pedir-lhes- simplesmente ajuda e vocs do-lha com o
maior gosto. A falar verdade, estou satisfeito por ele ter
aparecido - disse Tex. - Vocs sabem perfeitamente
que numa luta com o bando de Stewart um ou dois de ns
podia ficar ferido; podia ser eu, ou tu, Peg, ou tu, Lee:
Pensa em Trinity e sentir-te-s feliz por no teres de te
arriscar tanto.
   - Tens razo, Tex. - afirmou Peg.
   - Indubitavelmente que sim - declarou Bruce.
   A situao era pouco menos do que inacreditvel. Ali
estava ele, Bruce Lockheart, prestes a partir com u seu
 mortal inimigo, capito Maggard,  caa de si mesmo.
Parecia daquelas histrias contadas em volta da fogueira
 num acampamento, por qualquer vaqueiro de esprito novelesco.
Que sucederia ao verdadeiro Bruce Lockheart se o falso fosse
morto? E s-lo-ia com certeza, pois Stewart no era homem
para se entregar. Bruce no podia casar com
Trinity sob o nome de Lee Jones; era uma posio difcil

   159

e Bruce no conseguiu conciliar o sono seno pelae
madrugada, o que o fez dormir at tarde.
   - Ests morto? - ribombou aos seus ouvidos a voz
impaciente de Tex.
   - Oh! Est apaixonado - disse Peg. - O amor embriagou-o.    
   Bruce concordou em que de facto a sua preguia j
passava das marcas. O ferimento j quase no o molestava
e Jim e Buster, os outros atingidos, estavam de p havia
muito tempo.
   - Que barulho todo  esse l fora? -- perguntou Bruce,
comeando a lavar-se.
   -  uma caravana de carros. Chegaram ontem alta noite.
   - grande? - quis saber Bruce, um pouco contrariado.
   - Razovel. Vinte carros. Conheo o guia, chamado
Scever. Fui empregado dele quando era garoto.
   Jack meteu-se de permeio, comentando:
   - Eh! Que gente dorminhoca! J tomei o pequenoalmoo h que
tempos. Tex, o pai quer que tu e Lee vo j falar com ele.
   - Que  que aconteceu, Jack? - indagou Bruce.
   - No sei, mas... apre! Isto  demzis! Deviam deixar-me
assistir s conversas. Toda a gente, at esse guia, Seever, me
toma por um garoto!
   Bruce afastou-se sozinho em direco s pastagens. No
desejava nada encontrar-se de perto com nenhum membro
da caravana. Sabia l o que podia acontecer! O vasto mundo
do Texas estava a tornar-se pequeno. Contudo, no havia
nenhum daqueles carros cobertos de lona branca para aqum
do ribeiro. Cavalos a pastar, homens em volta de fogueiras,
colunas de fumo azulado, tendo por fundo o colorido da
folhagem outonal, tudo isto constitia um cenrio pitoresco.
Das pastagens, Bruce dirigiu-se para o arvoredo.
   Aproximou-se do armazm pela parte de trs, vendo mais
de dez homens no alpendre e no banco e outros a fazer
trouxas. Naquele momento, o capito Maggard apareceu 
   porta, a acender um cigarro. Tex Serks estava encostado  

barra do alpendre, Peg Simpson de joelhos defronte da
porta do seu alojamento e Juan a carregar mantimentos.
Tudo aquilo, no entender de Bruce, significava que os
polcias queriam partir antes do fim do dia. 
   Bruce acercara-se at curta distncia do alpendre quando a
posio e o olhar de um indivduo lhe chamaram a ateno.
Subitamente, o homem bradou, em voz deliberadamente
estentrea:
   - Ali! A est o homem!
E deu um passo em frente, apontando para Bruce. A sua
voz e o seu gesto foram to eloquentes que todas as atenes
se focaram em Bruce, que estacou, surpreendido.
   - Qual homem? - perguntou o capito Maggard, carrancudo,
saindo do alpendre.
   Tex Serks saltou a barra de madeira, deu uns passos e
parou. Melrose apareceu, seguido por Slaughter.
   A estava o perigo to receado! Bruce apercebera-se da
situao num relmpago. Aquele homem conhecia-o e, aceitando o
facto consumado, toda a sua fora interna cresceu
terrivelmente de intensidade.
   - Esse homem! Eu sei quem  - declarou o acusador.
- Vi o baio dele hoje, a pastar. Nunca esqueo um cavalo.
E ele montava-o da primeira vez que o vi.
   - Pois bem, quem ? - insistiu o capito.
   - Bruce Lockheart, o bandido que anda a perseguir.
Vi-o disparar sobre Barncastle. e matar Wistler.
   - Homem, ests bbado! - vociferou Maggard, desdenhoso e
irritado. 
   Contudo, teve uma espcie de choque. Todos os olhares
iam daquele condutor coberto de P para Bruce, que permanecia
imvel, um tanto encolhido e com a mo direita a tremer.
   - Calma a, amigo! - gritou Serks, acercando-se de
Bruce, mas no demasiado.
   - Capito Maggard, esse ... o seu homem - disse o
forasteiro, hesitante, tornando-se cinzento ao verificar o   
160   161

perigo que o seu impulso provocara. - Acabo de chegar.
nesta caravana. Estive em Mendle naquele dia. era um
sbado. sete de Outubro. Encontrava-me defronte do Elks
Hotel-. ouvi Barncastle chamar-lhe Bruce Lockheart. vi-o
puxar do revlver e disparar.
   - Eh! Forasteiro, se no ests bbado, s doido -
increpou-o Melrose, em voz estridente. - Meu Deus. ests no
Texas! Por menos que isto, podias ser morto! - Foi-se
acercando e ordenou: - Quieto com a mo, Lee!
   - J chega, patro!. E o senhor tambm, capito.
O assunto  meu - retorquiu Bruce, com voz glida.
   - Mas, rapaz, este homem enganou-se - protestou Melrose. -
E isso acontece a qualquer um.
   - Mas, no a meu respeito.
   - Seever, quem  este homem? - interrompeu Maggard,
com impacincia. - Vem na tua caravana.
   - Chama-se Clark. Parece-me srio. tanto quanto eu
sei. mas no  texano, claro -- replicou o guia.
   Bruce f-los calar.
   - J todos botaram fala.  a minha vez. Clark, retira
o que disseste ou puxa da arma.

   Maggard rugiu:
   - Eu aqui sou a autoridade! Escutem.
   - No quero saber. Senhor Maggard, se no tem a
certeza de se ter equivocado. pegue no revlver.
   Clark engoliu em seco, sentindo ro-lo a ameaa iminente
que ele prprio provocara.
   - Eu devo... estar enganado...
Retiro o que dise.
   Bruce descontraiu-se e depois encaminhou-se, ao longo
do alpendre, para a sua camarata. Tex seguiu-o e fechou
a porta.
   Podia ouvir-se Maggard soltando imprecaes contra o
causador do alvoroo e Melrose aproveitou para acrescentar:   
- Clark, aquele rapaz que tu acusaste  Lee Jones, um
texano perito em armas. Agora, est como vaqueiro ao meu
servio, alm de ser o noivo da minha filha Trinity.
Desaparece de aqui, vai para o teu carro e agradece a Deus a 
sorte que tiveste. Para a prxima... podes ser menos
afortunado.
   Seguiu-se um coro generalizado de comentrios sobre
o incidente. Entretanto, Tex passava o brao pelo ombro
de Bruce e dizia:

   - Safa, amigo! Esteve por pouco. Aquele homem
reconheceu-te! 
   - Tex!. Meu Deus-.  verdade! - admitiu Bruce.
   E, deixando-se cair no banco, baixou a cabea, vencido
por aquela ltima declarao de Tex, que provava assim
que no tnha dvidas acerca da sua identidade e, no
obstante, permanecia de uma lealdade inquebrantvel.
   - No desanimes. Temos tudo a nosso favor - sussurrou Tex.
- E, em conjunto com Trinity, enganaremos aquela velha raposa. 
  A porta abriu-se de repelo e Jack entrou, plido e
transtornado, com Peg ao lado dele e os outros atrs.
   - Lee, perdi a cabea e fiquei cheio de medo - declarou
Jack. - Aquele... doido de uma figa! A tomar-te por
Bruce Lockheart! Devias ter-lhe dado uma ensinadela.
   - Obrigado, Jack. Creio que me enfureci mais por causa
de Trinity - replicou Bruce, calmamente.
   - Lee, temos de ocultar isto do conhecimento dela.
   - Exactamente. E v l no te descaias, Jack. Tex,
que h de novo? Algumas instrues?
   - Muita novidade. Ouve l esta, que at ds um pulo:
Seever viu uma manada do "Crculo M", levada por quatro
cavaleiros, do outro lado da estrada, a menos de dez milhas da
ponte do Brazos.
   - No  possvel!
   - Pois,  a pura verdade. havias de ter ouvido bIel rose!   
-  o cmulo! - exclamou Bruce, erguendo as mos.
- mais quatro a juntar aos quatro de que j temos
conhecimento, com Stewart e outros sete bandidos, faz
dezasseis, se  que eu sei fazer contas.

162 163

   - Correcto, Lee. Vai ser uma guerra declarada, uma
operao de grande envergadura. Slaughter e Maggard vo
chamr o pessoal de Big Wichita e as pessoas esto j a fazer

a trouxa para uma longa jornada. E no esquecer
fartura de cartuchos.
   - Jack, no posso deixar de ser amigo desse homen
- disse Bruce.
   - Pois, eu no morro de amores por ele - replicou
Jack - mas j no sinto tanta averso por esse caador de
pederneira, desde que convenceu o pai a deixar-me ir.

164

                              14.


   Ao fim da tarde do dia seguinte, tinham alcanado um
acampamento da Polcia da fronteira, no sup de uma montanha
escarpada, dez milhas a oeste de Flat Top Mountain. O capito
Maggard, com o sargento Blight e dois outros homens, partiram
para Cooper, em misso de investigao. Assim, ficaram no
acampamento quatro agentes e oito vaqueiros, o grupo de Tex
aumentado pelo de Lester, que viera na noite anterior de Big
Wichita: Comunicara a Melrose que dezanove cavaleiros do
rancho tinham conduzido cerca de trinta mil reses para
Sycamore Valley e estavam l  espera de ordens.

   O acampamento de Maggard estava bem oculto e inacessvel 
vista, excepto do cume da montanha. Era inteno
do capito conservar ali o seu contingente at ter planos
traados. Uma das caractersticas de eficincia da Polcia
era a mobilidade. Transportavam pouco peso e cobriam
   grandes distncias. Mas, Bruce concordou com Tex em que
   os agentes teriam feito melhor em no se lanarem to
abertamente na perseguio e no ataque. Investidos de total
autoridade, no possuam a argcia de um vaqueiro ou de um
ndio.

   Antes do jantar, Bruce sugeriu ir cam Jack subir
rapidamente  crista, para fazer um reconhecimento, para ver
se descobriam fogueira, e Tex achou boa ideia. Assim,
ziguezaguearam pela ngreme encosta, atingindo o cume -j de   
noite. Uma cuidadosa observao das matas e da longa faixa de
terreno at  pradaria, com o auxlio do culo, f-los
localizar cinco fogueiras, trs minsculas, uma razovel e
   no muito longe, e a quinta um autntico braseiro. Quando
Bruce e Jack regressaram ao acampamento, Tex recebeu a
informao sem se surpreender nem perturbar.
   - Bem, tem havido movimento de homens e gado
para sul desde que chegmos a Brazos Head - objectou,

165

pensativo. - E eu concordei com Luke Slaugther em como
iremos encontrar gado com o "Crculo M" para sul do rio.
   - Talvez esse Stewart seja das bandas do norte - comentou
Peg Simpson. - Seria demasiada ousadia ou loucura da parte
dele fazer todo o negcio no mesmo local.    - A minha ideia 
que, se ele  um homem experiente, concentrar uma manada to
grande quanto possvel aqui perto e seguir com ela por Chisum
Trail para Norte, onde obter o melhor preo. E depois no

voltar.
   Bruce achou a deduo lgica.
   - Era o que eu faria, no lugar dele.
   - Sabem que mais? - interveio Jack. - Depois de
arrumarmos o caso de Stewart, porque no nos tornamos
ladres de gado e limpamos toda a zona desde Waco at
 fronteira canadana?
    excepo de Tex, todos soltaram uma gargalhada.
   - esperto o rapaz, no Lhes parece? - exclamou
Tex. - Rico filho para Steve Melrose e belo irmo para
Trinity, no haja dvida!
   - Claro que no era capaz disso, Tex - continuou
Jack. - Mas, a aventura no deixaria de ser desopilante.
   - Oiam, amigos, descansem que havemos de ter aventura at
ficarmos fartos, antes de regressarmos a casa.
   A conversa esmoreceu a partir de ali. Os primeiros a
ir buscar as mantas foram os polcias e depois os vaqueiros,
um aps outro. Bruce no foi o ltimo, mas depois de ele
se deitar s Tex ficou, para dar uma vista de olhos pelos
cavalos e em volta do acampamento, indo descansar em seguida.  
 Na manh seguinte, levantaram-se todos cedo e bem dispostos,
ansiosos pelo regresso de Maggard e pela aco, que certamente
iria desenrolar-se. Mas, como o capito no apareceu nem
sequer  vista na pradaria, Tex tomou a iniciativa de mandar
Juan em misso de explorao, enquanto lesle e Bruce subiam de
novo  crista. Do alto da montanha, poderiam ver o capito
Maggard e os seus homens muito antes de eles chegarem s
proximidades do acampamento. Nada de importante, todavia,
recompensou meio dia de vigilncia. Magard no voltou naquela
tarde e at  hora de rem para a cama no apareceu. Na manh
seguinte, depois do pequeno-almoo, Tex distinguiu um
cavaleiro isolado, a algumas milhas de distncia. Pegando no
culo, no tardou em declarar:
   - o capito Maggard. Mais ningum  vista. O cavalo vem
cansado.
   - Devia ir algum ao encontro dele - sugeriu Peg.
   - Um de ns, no - retorquiu Tex, iniciando o percurso
entre os dois acampamentos.    Dois dos agentes selaram
rapidamente as montadas e galoparam ao encontro do seu
superior. Tex e Peg faziam conjecturas ao acaso sobre o que
teria sucedido e o que estaria para acontecer.
   - Bom, parece-me que finalmente vamos ver a Polcia
em aco - comentou Tex, num tom que era um elogio para a
prestigiosa corporao.
   Maggard e os seus homens chegaram ao acampamento de Tex. O
capito desmontou e os outros foram logo para a sua seco,
com ar muito atarefado. Magard estava coberto de p e
transpirava.
   - Tomem conta do cavalo - disse. - Corremos um
bom bocado. Tex. que h de novo?
   - Vimos cinco fogueiras nas redondezas, onde detectmos
fumo no outro dia, mas nenhum movimento. Juan tambm foi fazer
uma cuidadosa busca, mas no descobriu pegadas nem vestgios.  
 - Levantei-me antes de o sol nascer. Arranjem-me alguma coisa
que se coma. Chegmos a Flat Top ontem, j depois do
escurecer. Procurvamos stio para acampar quando ouvimos
mugidos de gado nas cercanias. Ento, demos uma volta e
distinguimos uma fogueira, homens a jantar e outros guardando

uma grande manada. Era aquela de que Seever nos falou que ia
para sul. Imensos novilhos com o "Crculo M". Olhmos o tempo
suficiente para concluir que aqueles homens no eram
vaqueiros. Depois, regressmos e ocultmo-nos na vegetao ao
p do riacho. Esta manh, parti antes do alvorecer. Blight
ficou encarregue de ver tudo quanto se passa at eu enviar
mais homens, e depois vir ter connosco aqui ou directamente ao
covil dos bandidos.
 
166   167


   - Quem  que vai mandar? - perguntou Tex.
   - Blight precisa de mais quatro ou cinco homens, um
dos quais conhea bem a regio.
   - Mande um dos seus agentes e...
   - Sim, Horton disse j que queria ir.
   - Bem, pode levar Buster Wells, Lester, Jim Serks
e Peg. Que achas, Peg?
   - Esplndido. Ao Jim, custa-lhe menos cavalgar do
que andar a trepar rocha, e eu palpita-me que vocs vo
ter muito que escalar a p.
   - Aprontar as montadas. Preparar comida, gua e munies,
depressa - foram as ordens incisivas de Maggard.
   - Sim, senhor. Posso perguntar-lhe o que  que eles
iro fazer, s para Peg e os outros terem uma ideia?

  - Depende, Serks. S depois de localizar o acampamento
desse Stewart-Lockheart  que poderia dizer.
   No trocaram mais palavra. Peg serviu o pequeno-almoo ao
capito Maggard e Juan foi buscar os cavalos. Jack sentou-se a
limpar e carregar as suas armas, de sobrecenho carregado.
Bruce encheu de gua um recipiente de lona impermevel e
atou-o  sua sela; encheu os bolsos do casaco com fatias de
carne fumada e vrios biscoitos e fruta seca.
   Na maior ordem, dentro em pouco Horton e a comitiva
estavam prontos a partir.
   - Mais alguma ordem; capito? - perguntou ele.
   - Sim. Deixo tudo ao teu bom critrio. Dirige-te para
leste e sul desse grupo de ladres. Empurra-os nesta direco,
pois ns c estaremos de atalaia. No mates ningum
que possas fazer prisioneiro.
   Afastaram-se descendo a encosta, para norte do leito do
riacho, onde os arbustos e as rvores os ocultariam durante
milhas.
   - Capito Maggard, que  que descobriu em Cooper?
- perguntou Bruce, tentando disfarar a sua tremenda
curiosidade.
   Tex e Jack abandonaram as suas tarefas para escutar.
   - Por muito que me custe diz-lo, foi um trabalho
mais perfeito do que se fosse feito pelos meus homens. -
admitiu o capito. - No consegui ver os corpos, porque a
gente de Cooper enterrou-os. Foi algum amigalhao;  sempre a
mesma coisa. Bandidos com dinheiro exercem sempre
influncia e essa quadrilha de Stewart-Lockheart deve viver 
grande. Rapazes, quando fizer o meu relatrio, no mencionarei
a aco dos vaqueiros. Bem sei que  indecente da minha parte,
mas no fazem ideia da quantidade de inimigos que a nossa

corporao tem. Questo de invejas e despeitos. Espero que no
fiquem aborrecidos.
   - De maneira nenhuma - replicou Tex.
   - Eu at prefiro que o nosso papel no seja posto em
destaque - declarou Bruce, com amargura.
   - No h dvida que vocs so verdadeiros texanos!
Cus! Como eu gostava de que fizessem parte do meu
contingente! H mais de mil celerados, ladres e assassinos
escondidos nas florestas de Rio Grande. Quando se ocultam.
temos de aguardar que saiam; ento, atacamos. Mas, este Bruce
Lockheart!  um homem diferente. Nunca consegui apanh-lo em
falso, a jogar, a beber,  cata de raparigas pelos "saloons",
em parte alguma!
   - Capito, a propsito desse Lockheart - replicou Tex,
com ardor - eu conheo esta regio melhor que o senhor
ou qualquer dos seus homens, desde Panhandle e os dois
Chisum Trail at Dodge e Abilene. E d-me a impresso
de que Bruce Lockheart nunca cometeu algumas das proezas
   de que  acusado.
   Maggard desferiu uma palmada to forte na perna
   que a poeira voou das suas calas. Os seus olhos de guia   
estreitaram-se e luziram como fogo atravs de mbar.
   - Serks, receio isso mesmo - declarou ele. - Pode
   ser verdade. Alis, j mo tm dito. Mas, eu no acredito.
   Perdi quase dois anos a cavalo, tentando caar esse homem.
Segui-o, desde Mercer at Santone, dos velhos trilhos de gatlo
ao Novo Mxico. E tudo quanto posso imputar at agora a Bruce
Lockheart  a participao no assalto ao Banco. Estava com um
tal Belton. Essa quadrilha roubou cento e cinquenta mil
dlares. Recupermos a maior parte do dinheiro. Pell, um dos
meus agentes que foi morto, sabia que Lockheart tinha uma
parte dessa quantia, escondida algures. Tenho a certeza

168   169

de que Lockheart levou o dinheiro todo com ele quando saiu de
Denison. Sempre me fez espcie porque  que ele fugiu em vez
de tentar defender-se. Mas, tanto quanto eu sei, nunca sequer
ameaou um polcia da fronteira, o que tem a sua piada. Um
dia, hei-de chegar ao mago da questo e ficarei muito
contente se Lockheart me sair um tipo como esse Stewart. Bom,
mos  obra - acrescentou o capito Maggard. - Serks, esta
montanha pode subir-se a cavalo?
   - Sim, no  difcil.
   - Muito bem. Deixemos as trouxas e os cavalos entrar
no acampamento, que  bom stio. Os animais no fugiro.
Levamos s o indispensvel.
   Uma hora depois, Maggard, os seus trs agentes e os
vaqueiros subiam a montanha a cavalo, levando de vencida
a ngreme ladeira. Tex, que ia  frente contornou o cume
e dirigiu-se para o local onde ele e Bruce tinham estado
de observao. A, Maggard ordenou que desmontassem e
vistoriassem a regio.
   - Nunca vi um terreno assim - disse ele, apontando
para a zona onde Bruce e Tex haviam localizado as colunas
de fumo e os clares das fogueiras.
   -  muito duro de roer - confirmou um dos agentes,
que estava a fazer uso do culo.

   - Ultrapassa de longe os matorrais de Big Bend e
de Rio Grande - replicou o capito, secamente.
-  mesmo uma tarefa para ns.
   Jack, que espreitava atravs de um grande culo do
pai, foi o primeiro a lobrigar qualquer coisa.
   - Uma nuvem de poeira deste lado de Flat Top. Gado
em movimento - disse, laconicamente, como observador
experimentado.
   - Onde? - indagou Maggard, virando-se para Tex, que Lhe
indicou a direco aproximada, enquanto Jack Lhe entregava o
culo. - Ah!  uma grande rea com poeira, como se fosse a
passar uma manada de bfalos. Mas, no vejo gado a
deslocar-se. Os meus olhos j no so o que eram dantes.
   Tex e o agente Weatherby, apontando os culos na
direco devida, decidiram finalmente que eram reses a
mover-se naplancie, para Oeste em direco  floresta.
   -  estranho - disse Maggard, perplexo. - Porque
 que os bandidos caminharo em sentido oposto ao dos
seus mercados?
   - Capito, h muito tempo que no me sai da cabea
que eles andam a reunir gado para levar para Norte.
   - Assim parece. A ns, convm-nos. Horton e Blight
ho-de intercept-los, aposto. E, se no o fizerem, ns l
estaremos algures  espera. Onde  que  o problema, pois
ainda no consegui ver nada.
   - Pegue no culo e siga aquela clareira esverdeada e
comprida. Isso. At onde ela se estreita e vai encontrar o
incio da mata. Agora... v erguendo o culo devagar, at
descobrir toros de madeira a brilhar.
   De repente, Maggard gritou que "descobrira o objectivo
de Tex" e acrecentou que parecia que estavam a construir
barracas em grande escala.
   -  o nico ponto, at onde a vista abarca, em que se
vem pilhas de toros - disse Tex, significativamente.
   - O que no me agrada nada. Esto mesmo junto do
matagal e este  cerradssimo.
   - Mais fechado ainda que o de Braseda - comentou
Bruce. - Qualquer bando se pode ocultar ali impunemente.
   - Juan pode segui-lo - disse Tex. - Isso  o menos.
MaS...
   Weatherby interrompeu-os, para assinalar um fumo que
se erguia na orla da floresta, na juno com a pradaria.
Aquele tringulo acinzentado mostrava grupos dispersos de
gado, o mesmo, sem dvida, que os vaqueiros tinham visto
previamente. Ningum, contudo, logrou descortinar mais
nada, at que Jack pegou no culo e, aps longa observao,
disse:
   - Vejo cavalos a pastar, o telhado de uma barraca velha e o
mesmo fumo de h pouco. Ali, h gente...
   Mas, depois de porfiadas tentativas, ningum foi capaz
de corroborar a sua afirmao.

170 171

   - Jack - resmungou Maggard - parece-me que ou
sofres de vises ou tens uma pronunciada tendncia para
escrever romances de aventuras.
   - Capito, o que eu no tenho  a culpa de que todos

sej am to curtos de vista como os morcegos. Sempre vi
melhor que toda a gente, excepo feita a Trinity.
   - Rapaz, deixa c ver esse culo - pediu Tex, tomando Jack
a srio. - Diz-me l para onde devo olhar.    E sentou-se de
forma a poder apoiar os cotovelos nos
joelhos, a fim de firmar o instrumento de longo alcance.
Focou-o repetidas vezes e por fim deteve-se sobre um ponto.   
- Bem, SerKs, para demorares esse tempo todo,  porque no h
nada a ver - afirmou Maggard.
   - Ai isso  que h! Jack tem razo e uma vista soberba
- replicou Tex, erguendo-se outra vez, com o olhar brilhante.
- Vi o tecto da barraca por mais de uma vez. Parecia-me uma
rocha. H ali muita gente, pela certa.
   - Jack, peo desculpa - retorquiu Maggard, nobremente. -
Serks, agora mandas tu at l chegarmos. A caminho!
   - Quero dar mais uma olhadela quele terreno em
volta de Flat Tope - disse Tex.
   - A poeira assentou. V-se at sem ajuda do culo,
Tex - afirmou Jack.
   - Tens razo mais uma vez - declarou Tex. - Capito, a
manada est parada.
   - Bem, Horton j teve tempo para entrar em aco.
Se houver perseguio, como suponho, devemos colocar-nos
entre estes que devem estar acol e os que Horton acossar.
   Bruce considerou que era a melhor linha de manobra
e assim o declarou a Serks.
   - Ento, vamos - disse Tex. - Jack, tu conservas-te
ao p de mim. Juan, escolhe o caminho. Tenham todos
cuidado para no aleijar algum cavalo.

   
   Ao cabo de duas horas de caminhada, Bruce calculou
que deviam ter coberto umas quinze milhas atravs de terreno 
bravio, tendo vencido um tero dessa distncia em
linha recta, a partir da montanha. Aquela vasta garganta
que se abria no sop da altaneira escarpa era rochosa e
coberta de mato, e o leito da corrente era agitado por enormes
troncos arrastados desde a floresta, chocando com os rochedos
que afloravam a superfcie. Atravessaram-no cerca do meio-dia,
sempre na direco da nascente, e depois iniciaram uma lenta
subida na margem sul, at  floresta. A, encontraram terreno
plano e fcil de percorrer, com
os devidos cuidados para no tropearem nos troncos e
covas ocultos pela erva alta e compacta. A vegetao comeou a
rarear; nas valas mais profundas, os atoleiros dos bfalos
mostravam uso recente. Sem dvida, os espessos
salgueiros e os macios de buxo ocultavam grande nmero
de cornpetos. Os veados tambm abundavam e a carreira
dos cavalos era frequentemente cruzada por bandos de pers
selvagens e de pombos. Ao chegar a uma funda ravina,
carregada de folhagem verde e moitas enegrecidas, Tex
meteu-se por ela e, descobrindo um charco de gua corrente,
decidiu que era ali que deviam deixar os cavalos. A ideia
no foi do agrado do capito Maggard que, por ser um
indivduo pesado, no gostava de andar a p.
   - Quanto  que falta? - inquiriu.
   - No tenho a certeza. Juan diz que talvez seja a
milha e meia, mas at  clareira no  tanto. J se v atravs

das rvores.
   - Est bem. Podemos sempre voltar ao acampamento;
se for necessrio. Agora, vamos devagar, Serks, para que
eu possa avaliar a configurao do terreno.

   Uma regio mais plana, desobstruda e bela estendia-se
   para sul daquela ravina. A erva crescia at  altura dos
joelhos e farfalhava sob osps. os arbustos eram em menor
nmero e mais dispersos, as rvores mais pequenas indicavam a
proximidade da pradaria.
   -  prefervel esperar at os pers e os veados se
afastarem sem parecerem assustados - avisou Tex, sentando-se 
num tronco para tirar as esporas e as proteces das pernas.   
 - Eh! Olha a por cima da tua cabea - disse Jack,
apontando para um bando de falces que voavam em crculo

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sobre as ramadas verdejantes. - Sempre gostava de saber do que
 que esto  espera.
   O pensamento no era dos mais reconfortantes. O cu
azul com nuvens brancas, o sol candente e as luzes douradas,
variando com as manchas de sombra, a brisa tnue nas copas das
rvores, o tremelicar das ervas e das flores, a neblina cor de
prpura daquele dia de Vero,  distncia,
a serenidade e quietude do bosque - tudo aquilo representava
um gritante contraste com a extrema probabilidade
de uma sbita exploso de tiros, exclamaes, fumo, fogo
e morte. Mas, era esse mesmo o trgico pensamento de
Bruce e no devia ser apenas ele o nico assaltado por to
sombrias meditaes.
   O irrequieto Jack quebrou a austeridade do momento:
   - Capito, e se fssemos explorar este stio, para podermos
planear uma linha de aco?
   - muito boa ideia, filho - foi a resposta.
   Sem mais comentrios, Tex pegou na espingarda e trepou uma
pequena colina at  plancie: Os outros seguiram-no em fila
indiana. Tex vistoriou os arredores, de ouvido  escuta. Era
evidente que ainda estavam longe do seu objectivo, onde quer
que fosse. Depois, o vaqueiro continuou, caminhando
furtivamente e em silncio, espreitando na sua frente, em
semicrculo. Ao fim de uns cem passos,
estacou por um longo momento.
   "O vaqueiro parecia um ndio", pensou Bruce. Marchando
atrs de Maggard, o quarto na fila, Bruce fazia uso de
todas as suas faculdades de percepo. Os polcias da
fronteira, com as suas botas pesadas a quebrar ocasionalmente
troncos midos, aborreciam Bruce e obrigavam Tex a estar
constantemente a recomendar prudncia.
   Todos os contornos que Bruce notara anteriormente pareciam
tornar-se mais ntidos. A certa altura, ao atingirem a
planura, pequenos grupos de reses e alguns bfalos levaram Tex
a optar por um desvio para junto da orla do bosque.
   O rudo de um machado a cortar lenha retiniu aos ouvidos de
Bruce como uma campainha. Todos os homens o escutaram e
ficaram hirtos. Cumprindo a ordem de Maggard, dada por

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um gesto, todos o imitaram, atirando-se para o solo e
rastejando como cobras. A ordem de progresso era agora
diferente. Em vez da fila indiana, espalharam-se em linha,
perto uns dos outros, e olhavam para o capito, aguardando
ordens. Bruce sentia-se dividido entre o dio por aquele
implacvel texano e a admirao pela sua dedicao  Lei e ao
cumprimento do dever. Aqueles homens de vontade frrea e
carcter impoluto faziam falta para evitar que o Texas fosse
invadido e dominado por gente m.    Maggard rastejava uns
metros e parava para escutar e olhar e ganhar alento. Um
ouvido apurado teria detectado a sua respirao ruidosa muitos
metros em redor.
   O barulho do machado cessou. Os gafanhotos e as abelhas
erguiam-se em frente deles; os btios esvoaavam mais
baixo; j se viam cavalos no espao descoberto e distinguiu-se
o murmrio de gua corrente. Durante uma pausa mais longa na
aproximao, Bruce levantou-se um tudo
-nada para espreitar a forma do terreno.
   O vrtice do tringulo da pradaria parecia penetrar
   numa brecha da escura vertente, que se destacava com os   
seus penhascos cobertos de vinha, musgo esverdeado,
pontilhado de flores, fetos e folhagem escarlate e alaranjada. 
   A gua cantante que Bruce distinguira no provinha da
   cascata superficial que brotava como fumo da fenda de
   uma rocha. Era uma corrente de razovel caudal que surgia   
na chanfradura pedregosa. A pradaria de tom prateado
apresentava-se ao mesmo nvel da penedia que formava
parte de um anfiteatro. fora do qual, suficientemente afastada
para ser coberta pela luz do sol, se via uma velha barraca em
runas. Uma coluna de fumo plido e azulado erguia-se para l
da construo. O local era dos mais bonitos e aprazveis que
Bruce jamais vira. Que belo rancho se fazia ali! Depois, quase
simultneamente, teve a sensao lgubre de que podia ser
igualmente o stio da sua sepultura. Se assim fosse,
consolava-o a ideia de no ser possvel ficar mais prximo do
paraso!
   Aps o que deu a impresso de ser um longu intervalo,
Maggard sussurrou a Tex que enviasse algum at mais
perto, para ver quantos bandidos se encontravam ali.

   175

   - Deixa-ma ir - pediu Jack, ansioso. - Sou o mais
pequeno e sei rastejar como uma serpente. Costumava
brincar aos ndios e nunca ningum me descobriu.
   Tex concordou, dizendo:
   - Rapaz, tem muito cuidado contigo.
   Em poucos segundos, Jack desaparecera da vista deles
e era preciso saber-se de antemo qual a direco tomada
para reparar no ondular da erva que ele deslocava.
   Aparentemente, o capito Maggard no inclua a pacincia
na sua lista de qualidades. Mostrava-se inquieto e nervoso e
possudo de uma pressa em actuar que nenhum
dos outros manifestava. Bruce conjecturou que no deviam
tomar qualquer iniciativa pelo menos at Jack regressar.
E a demora deste j comeava a afligi-lo, at porque o
capito no se aguentaria muito mais tempo na expectativa.
Porm, em dada altura, a erva mexeu e abriu-se em frente

de Maggard, Bruce e Tex, deixando Jack aparecer, plido,
arquejante, mas de pupilasreluzentes.
   - Tive de dar a volta...  barraca - murmurou, ofegando. -
Pelo lado de fora... h um guarda da banda da pradaria. Parece
esperar algum... Oito cavalos aparelhados... Cinco bandidos a
jogar, um no cho, com a cabea sobre uma trouxa... a dormir.
Ouvi o guarda responder a algum: "No vejo cavaleiros, mas h
tiroteio ao longe. Chama Stewart!".
   - Bem, filho, mereces pertencer aos meus homens - disse
Maggard, sorrindo satisfeito. Mas, logo se ps srio. - Esto
 espera do resto da quadrilha. Temos de nos apressar.
Distribuam-se aos pares. Cerquem a barraca e disparem quando
eu disparar!. Lee, tu vens comigo.
   Bruce rastejou para o lado de Maggard, quando se
ouviu um chamamento do outro lado da barraca, certamente para
fazer acorrer o chefe, Stewart. Se houve resposta, Bruce no a
ouviu. Maggard abria agora caminho com notvel agilidade,
atendendo  sua corpulncia. Tinha um revlver em cada mo.
Bruce transportava uma espingarda e utilizava a mo disponvel
para se arrastar mais facilmente. Contudo, mal se aproximava
de Maggard, logo este lograva distanciar-se, manifestando uma
pressa que a Bruce se afigurava demasiada, a menos que Tex e
os outros progredissem com a mesma velocidade. Bruce desejava
e esperava que Tex tomasse boa conta de Jack, embora este,
aps a lio de tempos antes, j devesse bastar-se a si
prprio.
   Percorreram alguns metros, descansaram um pouco, 
escuta, e depois, sub-repticiamente, espreitaram sobre a
erva. Na direco da vertente, a erva era mais curta e
menos densa. Bruce viu o canto da coberta de um alpendre
sustentado por um poste, uma pilha de lenha bem arrumada
e um machado cravado numa acha. Na segunda pausa,
Maggard tocou-Lhe com o p, como a querer indicar-lhe
qualquer coisa. Ento, Bruce divisou os oito cavalos e a
sentinela, de p sobre um cepo, observando a pradaria,
com ar de grande concentrao. Maggard avanava agora
 mais lentamente, tentando abafar o som da respirao. O
 murmrio da gua corrente aumentara. Vrias vozes chegavam
at Bruce, mas eram irreconhecveis. Calculou que   mais uns
quinze metros os poriam  vista dos bandidos.
 Estavam numa posio precariamente prxima, a menos
 de sessenta passos do extremo da barraca: Qualquer homem que
para l olhasse poderia ver as suas costas a mover-se. Mesmo
assim, o capito prosseguiu. Tinha uns nervos de ao e uma
coragem sem limites. Sabia o que
queria e havia de alcanar o seu objectivo, a menos que
alguma contingncia inesperada surgisse. Adiantou-se um
pouco mais a Bruce, na direco do alcantilado, que parecia
agigantar-se para eles. O regato corria na sua base,
saltitando sobre as pedras, para a esquerda, at desaparecer
num manso borbulhar.

   Uma franja de relva e fetos impedia Bruce de ver
   para a frente. Maggard, uns trs metros  direita do lado   
da rocha, avanou mais, numa precipitao que Bruce no
   queria imitar. Sussurrou ao agente da autoridade que
esperasse. Uma espcie de enregelamento tremendamente agudo   
de todas as faculdades de Bruce no o deixava progredir.

   O perigo, para ele, era um somatrio de todos os seus
sentidos ampliados num sexto.

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   Afastando a cortina de verdura, espiou diante de si.
Um trilho largo e muito usado passava ali mesmo. Maggard
deslocara-se at cerca de meio, figura imponente e ameaadora,
arma estendida em cada mo.    De repente, um ligeiro rudo,
semelhante ao bater da
armao de um veado contra madeira, sobressaltou Bruce
e fez-lhe escaldar o sangue nas veias. Maggard tambm o
escutou, pois espalmou-se ainda mais, a meio do trilho.
Por um segundo, Bruce estremeceu. No era veado! O ar
estava carregado com o perigo de ml outras vezes. De novo, o
mesmo som lhe feriu o tmpano, diferente agora, mais
parecido com o de uma bota a andar furtivamente. Algum
vinha a. No se atreveu a levantar a cabea sobre os
fetos, mas encostou o ouvido ao solo.
   No eram passos, mas o rtmico bater de cascos rpidos
em terreno duro! E no era aquele o rudo que fizera
Maggard colar-se ao cho. O capito virava-se agora para
a barraca e a sua expresso dura indicava que abriria
fogo logo que determinasse o perigo iminente que ele sentia e
que Bruce tinha a certeza de pairar sobre eles.
   O silncio pesado foi rasgado pelo grito de alarme da
sentinela. Vozes speras, tropear de botas, tilintar de moedas
e de armas contra a madeira, atestavam a aco imediata
dos bandidos. O timbre de alerta da voz do guarda no
deixava outra alternativa. Tanto os bandidos como o grupo
que rastejava pareceram ficar surpresos. Tex e os companheiros
esperavam sem dvida o sinal do capito. Este continuava
estendido, sabendo que a morte, de alguma origem ainda
desconhecida, estava perto.
   Nesse momento, Bruce viu, pelo canto do olho, o movimento
de qualquer coisa mais acima, na direco da escarpa. No era
uma ave! Era escura, ocultava a luz. Olhou para
cima.
   O seu rpido relance captou uma escada de madeira
que subia em ziguezague pela rocha acima. No mesmo
instante, distinguiu o vulto deslizante de um homem,
debruando-se com aspecto maligno e olhar inflamado. Sustinha
a respirao, brio de raiva, enquanto apontava uma 
espingarda para baixo! Magard, ainda  escuta, no se
apercebera do perigo pendente sobre ele.
   Veloz como um raio, Bruce disparou para o alto. O bandido
contorceu-se com violncia, disparando tambm. Ao dar o tiro,
Bruce viu a chama e o fumo irromperem da
arma do outro e ouviu a pancada da bala junto de si,
zunindo aps o ricochete e perdendo-se no espao. O atirador
soltou um grito lancinante de agonia e precipitou-se do cimo
da escada, enfiando de cabea no regato.
   Maggard rebolou para trs, para o meio dos fetos e
Bruce deixou de o ver. O trovejar de espingardas e gritos
selvagens dos vaqueiros fizeram Bruce correr para detrs
de uma rvore.
   Fazendo assomar primeiro a espingarda, Bruce espreitou.
Naquele momento, no via nenhum bandido a quem pudesse

atingir. Mas, obviamente, Maggard viu, pois Bruce
distinguiu detonaes de revlver por entre as rajadas mais
afastadas e cheirou-lhe a plvora. Uma outra rvore maior
oferecia-lhe melhor proteco e domnio da situao. Bruce
conteve o impulso de correr e estendeu-se para rastejar para a
nova trincheira.
   J instalado, verificou que a balbrdia atingira o auge.
Nuvens de fumo, clares alaranjados, estampidos trovejantes,
cavalos relinchando e s upas, homens correndo como loucos
para a barraca, outros s voltas, atarantados,  mistura com
os animais espantados - toda esta confuso distraiu a ateno
de Bruce de um objectivo sobre o qual podia ter
disparado.
   No meio do caos, trs cavalos largaram  desfilada,
com os cavaleiros curvados sobre as selas. Bruce deu um
tiro  pressa, mais outro, mas falhou. Um dos vaqueiros,
porm, acertou num bandido, pois Bruce viu-o tombar e
ser arrastado pelo campo fora, com um p preso no estribo.
Os trs cavalos em breve penetraram no bosque.
   O tiroteio abrandou. O prprio Maggard no descobria
mais alvos.
   - Ateno, Lee! - bradou. - Olha a barraca!
   Mas, Bruce nem sequer fumo via sair da porta. Algumas
detonaes, porm, provavam que havia gente l dentro.

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   Bruce gastou algum tempo a observar o cenrio. No
via nem polcias nem vaqueiros mas, passado algum tempo,
descobriu fumo que subia da erva em vrios pontos, atrs
de um tronco do lado direito e de junto das rochas do lado
esquerdo. As balas crepitavam nos troncos da barraca,
dentro da porta e debaixo da coberta do alpendre. As figuras
inteiriadas de dois bandidos em primeiro plano davam ideia
dos fins mortais da investida. Dois cavalos estavam por terra;
outros trs, de rdeas esvoaando, sem cavaleiro, comeavam a
abrandar a mais de cem metros do local, de onde tinham fugido
espavoridos.
   Os tiros de fora da barraca tornaram-se mais espaados
e acabaram por cessar; igualmente, se notou uma diminuio de
fogo do interior. 
   - Eh! Bandidos, vocs a de dentro! - bradou o capito
Maggard. - Rendam-se, se querem salvar as vidas!
   - Anda c buscar-nos! - gritaram de dentro.
   - Queimamo-los a todos!
   - Quem so vocs? - foi a resposta.
   - Os agentes do capito Maggard, comandados pelo prprio.   
- Ah! s um mentiroso. Ns vimos foi vaqueiros. E j
no so tantos como eram. Ah! Ah!
   Aquela brutal aluso fez gelar o sangue nas veias de
Bruce. Podia bem ser, provavelmente era mesmo verdade.
Aquele irrequieto Jack! Talvez fosse uma das vtimas.
   - Dou cabo de vocs! - clamou Maggard, em voz que no
deixava dvidas quanto  inteno.
   - Vai para o diabo!
   - Rendam-se ou sero enforcados os que no carem agora!
   Como rplica, ouviram-se alguns tiros e algum projctil do
calibre usado na caa ao bfalo assobiaram sobre a cabea de

Bruce.
   - Capito,  melhor calar-se - avisou Bruce.
   - Parece a voz de Maggard, amigos - disse uma voz
diferente. - Maggard,   meu perdigueiro das dzias,
preferimos morrer do que rendermo-nos a ti.
   - Dou-lhes um minuto! - exclamou o capito, transtornado
pela clera. 
   - Ora adeus! - foi a provocante resposta.
   Bruce ouviu Maggard praguejar. O velho polcia da
fronteira nunca se esquivara  luta nem era avesso a derramar
sangue, mas parecia ter especial propenso pela captura dos
criminosos.    De repente, a voz aguda de Jack fez-se ouvir,
estridente:
   - Eh! Eh!. Tex, ateno! Aproximam-se cavaleiros!
   Aparentemente, Jack estava bem vivo e escondido algures,
numa elevao, de onde podia ver melhor do que Bruce. Este;
porm, distinguiu detonaes ao longe, na pradaria.
   - Lee, ouviste disparar? - perguntou Maggard.
   - Sim.  em campo aberto.
   - Vs algum de a?
   - No Estou demasiado baixo para ver ao longe.
   A pesada arma de caa ao bfalo ribombou de novo
de dentro da barraca e um projctil assassino raspou na
rvore que abrigava Maggard, perdendo-se no bosque.
   - Esta passou perto, Lee - disse Maggard, sombrio e
apreensivo.
   - Afaste-se para o lado e no deite a cabea de fora,
capito. Aquele homem no sabe apontar, mas na dvida...
   De novo, o grito penetrante de Jack atroou os ares.
Devia estar escondido nma rvore frondosa,  direita de
Bruce. Imitava o grito de guerra dos "comanches" de
forma quase perfeita. Jack era uma preciosa ajuda, com a
sua vista inigualvel e o seu nimo inextinguvel. Apso
prolongado grito, que ecoou por toda a floresta, chegou o
seu aviso.
   - Luta entre homens a cavalo aqui perto! Ateno!
   Toda a gente dentro e fora da barraca ouviu a advertncia
do rapaz, que provocou completo silncio. Bruce no via nada a
mexer e calculava que os outros tambm no.
   - Lee - chamou Maggard, detrs da sua rvore.
   - Estou a ouvir, capito.
   - Aquele garoto at me faz ccegas.
   - A mim tambm. At faz passar o medo.
   - Devem ser Horton e Blight  caa daquele grupo de
Flat Top.

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   - No podem ser outros. J se ouvem melhor os
tiros: Capito, isto vai aquecer deveras.
   - Tambm acho.
   Bruce arriscou uma espreitadela do lado direito da
rvore. Viu trs cavalos sem cavaleiro  desfilada pela
pradaria, em direco ao acampamento. Zip! Uma bala arrancou
estilhas da casca da rvore, que foram bater na testa de
Bruce. O estrondo da espingarda da caa ao bfalo
acompanhou o acto e Bruce retirou precipitadamente a cabea,
sentindo um suor frio correr-lhe pela espinha abaixo. Quase

simultneamente, ouviu-se a detonao de uma "Winchester 4". A
bala embateu algures na barraca e no foi em madeira. Um
grito selvagem de fria e dor aumentou
a convico de Bruce. Jack Melrose era um real valor.
   Tiros intermitentes soaram com clareza na pradaria.
Cautelosamente, Bruce voltou a espreitar do seu esconderijo.
Os trs cavalos abandonados, de caudas ao vento, corriam
vertiginosamente para o acampamento. Atrs deles,
a uma meia milha, vinham cinco ou seis homens, espalhados,
galopando to depressa quanto os seus cansados cavalos
conseguiam. Quando Bruce olhou, viu uma baforada de fumo,
depois outra, seguidas de detonaes. Aqueles
cavaleiros, viravam-se nas suas selas, disparando contra
outra linha de cavaleiros, em nmero de seis, claramente
vaqueiros. Bruce julgava que estes ltimos poderiam ter
diminudo a distncia entre os dois grupos, se quisessem
correr esse risco. Sabiam da surpresa que mais tarde ou
mais cedo esperava os bandidos.
   - Que  que vs, Jones? - indagou Maggard, impaciente.
   Bruce contoulhe em poucas palavras e notou uma resmungadela
de satisfao do capito.
   - Est tudo a correr bem - replicou ele. - Mas,
esses cavalos podem atropelar algum dos nossos homens.
   - Eles esto atentos. Jack j nos avisou e eles ouviram
tambm. Com a breca! Os bandidos l de dentro j sabem!
Vo fazer a vida negra para Tex e os outros escondidos na
erva.
   Um tiroteio incessante de dentro da barraca provava
que os criminosos encurralados tinham previsto e talvez
observado que os que os cercavam tentavam mudar de
posio. Entretanto, os cavalos solitrios chegavam ao
acampamento, suados e estoirados, estacando por fim. E logo
chegaram as duas linhas de cavaleiros, uma fugindo e a
outra perseguindo.
   - Lee, aguarda at chegarem mesmo aqui - ordenou
Maggard, secamente.
   Bruce colocou o chapu na ponta da espingarda e f-lo
assomar fora da proteco da rvore, num estratagema para
fazer disparar o atirador da rma da caa ao bfalo. Porm,
ningum disparou! Ou o bandido fora atingido ou mais
provavelmente, fora juntar-se aos outros, para conjugarem
todas as foras contra os vaqueiros em precria posio.
   - Lee, aquele tipo da espingarda caadeira teria desistido?
- perguntou Maggard. 
   - Sim, ou ento chegou-se para o lado da frente da barraca. 
  - Vou acercar-me da porta da traseira.
   - No se arrisque, capito. A luta est a decorrer a
 nosso favor.
   -  uma oportunidade demasiado boa para se perder.
Vigia bem!
   O capito correu para outra rvore, escondeu-se por um
momento, depois para a esquerda durante uns quinze metros e de
a alcanou a parede posterior da barraca. Levava uma
espingarda na mo esquerda e um revlver na direita, e tinha
um aspecto soberbo ao atingir a porta aberta. Bruce sabia que
a sua aco fora derivada de um
perfeito ajuizar, amparado por um perfeito domnio de
nervos. Espreitando para o escuro umbral, Maggard no

conseguia ver nenhum bandido que lhe servisse de alvo.
   Bruce deixou de olhar para o capito, pois a aco
que decorria na sua frente atingia o auge, desviando a sua   
ateno. A menos de cem metros, os bandidos recmchegados
bradavam, manifestamente para que os seus companheiros
acorressem em seu auxlio. Os seis perseguidores surgiram,
ento, de revlveres erguidos, em atitude confiante e
ameaadora.

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   Bruce nunca passara por situao que se assemelhasse
quela, nem em envergadura nem de molde a massacrar
tanto os nervos. Os fatigados animais aproximaram-se e
Bruce j distinguia os rostos brilhantes de transpirao dos
seus sombrios donos. Achou difcil fazer boa pontaria sobre
qualquer deles. Mas, esperava a todo o instante uma rajada em
forma contra eles, dos seus companheiros ocultos na erva.    O
fogo dos defensores da barraca continuou, trs armas
a disparar quase em unssono. Subitamente, detonaes
mais fortes quase ensurdeceram Bruce. Maggard, protegido
pela ombreira da porta, excepto o brao direito e metade
da cabea, fazia fogo intenso para dentro da barraca.
   Enquanto Bruce observava os acontecimentos, uma dzia
de revlveres atroou os ares,  direita e  esquerda dos
cavalos a galope. Um dos cavaleiros da vanguarda foi
projectado de cabea para fora da sela. Outro, atingido em
cheio, tombou sobre o animal, arremetendo directamente
sobre os vaqueiros daquele lado do bosque. Um cavalo
abandonado escoiceava em frente da barraca, relinchando
apavorado e investindo na direco dos outros. Bruce disparou
contra o bandido que passava  sua esquerda como uma flecha e
teve a certeza de Lhe ter acertado. Os outros, dois
cavaleiros, um j atingido, escaparam-se aos vaqueiros e
correram para o arvoredo.    Ento, a intensidade do fogo
diminuiu. A espingarda oculta na rvore  sua esquerda,
certamente manejada por
Jack, detonou mais duas vezes. Bruce viu os restantes
cavaleiros separarem-se, dois para cada lado, em perseguio
dos bandidos que fugiam, enquanto o ltimo par se aproximava
do local.
   Um brado sonoro desviou a ateno de Bruce para um
bandido que surgiu da barraca, vacilante e de mos no ar,
seguido por Maggard, que lhe apontava o revlver.
   - No os larguem! - trovejou este. - Serks...
Weatherby... vocs todos... corram para os cavalos. No
larguem esses bandidos!
   Bruce viu Jack correr para Tex e Juan, que pareceu
nascer do cho. Juntaram-se todos a Weatherby e correram

184

para o Bosque, onde haviam deixado as montadas. Das traseiras
da barraca, surgiu um policia da fronteira, aparentemente
ferido, pois cambaleava e mal podia andar. 
   - Bates!: Ests ferido? - gritou Maggard.
   - Creio que... no  de cuidado. Mas, Dfiller deve ter

morrido. Vi-o cair - replicou o valoroso agente.
   O bandido aprisionado, incapaz de se conservar de p,
estendeuse e encostou-se a um fardo. Parecia estar desarmado e
muito abatido. Bruce acercouse, lentamente, de revlver ainda
na mo, sem ter a certeza de que no houvesse mais. Porm,
conhecia o capito o suficiente para confiar em que tinha
liquidado os outros.
   - Ainda no acabmos o servio - disse Maggard,
sombriamente, guardando as armas e amparando Bates.
- Onde  que foste atingido? - perguntou a este.
   - Aqui debaixo do brao.
   - Deita-te. Deixa ver. Bates, por aqui ainda as tripas no
te vo sair. Onde tens o leno?. Jones, emPresta a o teu.     
   Bruce, carregando a espingarda, diminuiu gradualmente a sua
vigilncia. No ouviu mais tiro nenhum. Fitou atentamente o
bosque e a pradaria; s viu cavalos, nem sombra de homem. Os
fugitivos do bosque tinham de ser seguidos pelo rasto deixado.
Bruce calculou que, se tivesse alvejado aquele que espiava,
haveria trs feridos, um deles com gravidade. Um dos ladres
de gado, porm, devia ter ficado inclume. Aproximou-se do
bandido ferido e Perguntou-Lhe como se sentia.
   - Oh! optimamente - respondeu o outro, com um
esgar de dor que pretendia ser um sorriso.
   - Onde est Stewart?
   - Ah! Bem, no se encontra aqui.
   Bruce foi ter com Maggard e, pousando a espingarda
   no cho, ofereceu-se para o auxiliar. Mas, antes de iniciar 
  qualquer gesto, distinguiu um leve rudo que dava a
impresso de provir da escarpa.
 
185

   - Que  aquilo? - inquiriu o cauteloso Maggard, de
ccoras e com as mos sujas de sangue
.  Bruce no respondeu.
   -  atrs da barraca! - murmurou o capito.
   - No pode ser! - declarou Bruce.
   Mas, instintivamente, voltou-se naquela direco. Uma
espcie de atraco magntica levou Bruce a olhar para a
escada em ziguezague, que conduzia a uma plataforma de
observao no alto e que ele ainda no tinha visto. Percorreu
o local cm olhar atento. A esquina do alcantilado treminava
uns dez metros mais alm e para l se dirigia o curso de gua.
A vista de Bruce tentou abarcar mais para a esquerda.
   - No devia ser nada - disse o capito, reatando a sua
tarefa de enfermagem.
   A intuio de Bruce, todavia, no se iludira. Ento, um
ligeiro estalido, de casco contra pedra, sobressaltou-o. Um
agente ou um vaqueiro atravessava o riacho! Mas, a ideia
repugnava ao seu raciocnio. Maggard de novo se endireitou,
com o leno ensanguentado na mo contrada. Um chapinhar,
um relincho, uma pancada subiTa!
   Bruce virou-se como uma flecha e vi um homem a cavalo, 
beira da corrente, e outro cavalo sozinho surgindo da parede
de folhagem verdejante:  direita de Bruce, um homem de
magnfica compleio fsica apareceu, aps ter transposto o
riacho de um salto gil.
   - Bill? - gritou o cavaleiro, em tom de terror e alarme.

  
186

                                    15.


   Uma surpresa tremenda quase paralisou Bruce. Passando
o primeiro instante de estupefaco, ao reconhecer Stewart,
toda a sua fria se dirigia contra o capito Maggard.
   - Qu... quem ? - perguntou este, gaguejando.
   -  Stewart, seu... cabea de atum! - sibilou Bruce,
incapaz de se conter.
   J refeito, analisou a situao num pice. Stewart tinha
vantagem. Se tivesse sacado, teria liquidado Bruce. Porm,
ficara igualmente pasmado e a incerteza impedira-o de reagir
prontamente, embora instintivamente se tivesse colocado em
guarda, de ps ligeiramente afastados e a mo direita
em baixo.
   O esprito de Bruce, veloz como a luz, compreendeu
instantneamente os factores em jogo. O cavaleiro no estava
armado,  excepo da espingarda enfiada no coldre da sela,
sobre a qual se via estendido o corpo de um veado, pendente
at  altura dos joelhos. Menos de dez metros separavam Bruce
do chefe dos bandidos. A suprema tentativa de bruce consistia
em distra-lo ou faz-lo perder o domnio de si prprio no
instante crtico. 
   - Lloae - disse Stewart, com voz cava, o rosto
congestionado pela raiva - eu bem te disse que tinha ouvido
tiros.
   Ento, o vulto do ferido  esquerda de Bruce levantou
a cabea.
   - Patro, chegou atrasado... para ns... Estamos
liquidados.
   - Quem foi que os atacou?
   - Os agentes de Maggard... que est aqui... e vaqueiros.   
- Onde esto... os outros?
   - Foram atrs dos nossos... que pouco devem resistir
por estarem... quase todos feridos.

   187
   
   O chefe da quadrilha no desfitara Bruce e Maggard
durante o curto interrogatrio.
    - Ah! Sim?... Perseguir at ao ltimo alento, no ,
Maggard? - disse ele, com voz gelada. - Pois, foi a sua
ltima faanha, capito!
    Maggard conservava-se acocorado, imvel e mudo, 
espera de uma bala traioeira pelas costas, e tentou fazer
um gesto com a mo trmula, sem qualquer significado.
   - E tu tambm, polcia de m morte! - prosseguiu
Stewart, apontando para Bruce.
   - No sou polcia - replicou o rapaz, com firmeza.
   - Vaqueiro  que no s.
   - E quem  que disse que era? - provocou Bruce.
   Stewart vibrou de forma perceptvel e anulou a
substituio.
   - Pistoleiro, hem? - inquiriu, em tcita afirmao.
   - Sim! O homem a quem roubaste o nome! - atirou

Bruce, de chofre.
   - Eh!. Quem? - berrou Stewart com o rosto transtornado.   
- Bruce Lockheart! Roubar o nome foi fcil, mas a
firmeza de pulso  impossvel! - sibilou Bruce,
propositadamente.
   Era a suprema cartada - um momento de espera, um
lampejo! Na mesma fraco de segundo, puxou do revlver
e disparou. A arma de Stewart foi projeetada pelos ares
quando este ficou com o corao varado pelo projctil de
Bruce. Ainda teve tempo de soltar um grito mortal antes de uma
segunda bala lhe perfurar a cabea, estatelando-o por
terra.
   Quase ao mesmo tempo, j o capito Maggard se voltara, de
revlver na mo. Bateu em seco por duas vezes e 
terceira percutiu um cartucho. E o bandido a cavalo, que
j puxava da espingarda e esporeava o animal, caiu para
trs, de braos no ar, escorregando para um dos lados enquanto
o corpo do veado tombava para o outro. O cavalo, espantado,
largou em direco ao ribeiro, enquanto o outro,
que devia pertencer a Stewart, escoiceava freneticamente,
mas sem fugir.
   - Devem estar despachados, mas  melhor irnos dar uma
olhadela - sugeriu o capito, respirando a custo.
   Cuidadosamente, Bruce cumpriu a ordem. no que respeitava ao
cavaleiro. Este jazia de cara para baixo, aflorando a gua e
tingindo de vermelho a sua transparncia cristalina. Ao
regressar, Bruce no foi capaz de despregar o seu olhar
sombrio do corpo daquele bandido que tanto contribura para
degradar o nome de Lockheart. O chefe da quadrilha perdera a
chama vital, mas aquilo que fora ressaltava ainda das suas
feies pronunciadamente duras e cruis. Alguns metros mais
adiante, encontrava-se o corpo meio submerso do bandido que
fora derrubado do alto da escadaria.
   Bruce, profundamente indisposto por vrios motivos,
voltou para junto de Maggard, transmitindo-lhe com o seu
silncio uma mensagem tranquilizadora. O capito dirigiu
o olhar para Bruce, calmo e frio. Todavia, por detrs daquela
mscara imperscrutvel de bronze, para alm da luminosidade
pardacenta das suas pupilas de guia, havia qualquer coisa
intangvel, que nenhum homem saberia ler.
   - Ouve, filho - disse, devagar. - J me tm salvado
a vida muitas vezes, desde que me conheo, mas nunca
numa situao to aflitiva nem duas vezes pelo mesmo
homem. Estou to embaraado que... francamente, no sei
o que te diga.
   - Meu Deus, capito! - exclamou Bates, entusiasmado. - Foi
mais rpido que um corisco!
   - Tinha de o ser, Bates. Quase que cheguei a sentir a
bala na espinha. Lee, o teu truque de te fazeres passar
por Bruce Lockheart, para o desorientares, foi do melhor
que tenho visto.
   Por momentos, Bruce no pde acreditar no que escutava. Um
truque. pretendera ser Bruce Lockheart. pensaria realmente
Maggard assim? Perante uma situao de vida ou de morte, para
ele e para o capito, revelara de novo a sua identidade,
confiado instintivamente em que o nome de Bruce Lockheart era
uma arma to poderosa como o seu prprio revlver. Que Maggard
no se tivesse apercebido da sua sinceridade e julgasse ter  

188   189

sido um estratagema parecia quase inacreditvel, de tal forma
Bruce se obcecara por tudo quanto o seu nome implicava.
   Comps uma expresso do modo mais natural que pde
e respondeu:
   - Se no fosse isso, capito, ele ter-me-ia levado a
palma. Mas, j tinha tentado o mesmo de outra vez e deu
resultado.
   - Lee, como  que deduziste que Stewart no era Lockheart?
- perguntou Maggard, curioso.
   - Bem. creio que Tex me ajudou a chegar a essa
concluso - retorquiu Bruce, medindo as palavras. - Se
ele fosse Lockheart, eu dava logo por isso.
   - Que maada! - exclamou o capito, como se s ento casse
em si. - Toda esta carnificina para nada. Lockheart continua 
solta!. Onde diabo se mete ele?
   - Capito, acho que  injusto em afirmar que no valeu
a pena a expedio - retorquiu Bruce, num misto de surpresa e
indignao.
   - Sim, de facto, tens razo. Mas, eu andava na pista
de Bruce Lockheart. Se a Polcia da fronteira tivesse de se
ocupar dos ladres de gado, que seria do Texas?
Transformar-se-ia em campo de manobra de todos os criminosos
do Oeste.
   - Ento. faz distino entre os ladres de gado e os
outros criminosos?
   - Sim. Vocs, vaqueiros, e os criadores de gado consideram
naturalmente o ladro de gado como o grande mal do Texas. Mas,
esto errados. Que so algumas reses, mil que sejam, para um
criador como Melrose? Ele nem sabe ao certo quantos milhares
possui! Pelo contrrio, pensa no mascarado que assalta uma
diligncia, no ladro de Bancos e de caravanas, no assassino,
no fora-de-lei. Esse, sim,  que constitui pesadelo para a
autoridade.
   - Percebo.  questo de perda de dinheiro, de derramamento
de sangue - retorquiu Bruce, acomodando-se  ideia.
   - Lee, pega na espingarda e trepa quele cepo, para
observar em volta.

190

   Bruce ficou contente por poder esquivar-se  proximidade do
capito Maggard, por quem, de momento, sentia quase um dio
ilimitado e uma raiva indizvel. Ao que no lograva furtar-se
era aos seus pensamentos decididamente sombrios. Do cimo do
tronco Bruce dominava os arredores do acampamento. Para alm
da franja de arbustos, divisou mais terreno plano, bem
arborizado, com um ligeiro declive no sentido da mata.   
Passado algum tempo, viu cavaleiros vindos de duas
direces. Eram o contingente dos agentes, transportando
um prisioneiro ferido, e Tex com os seus vaqueiros, que
comunicaram a fuga de dois bandidos, um deles tambm
atingido. Bruce continuou de atalaia, embora se sentasse.
Jack apanhara dois cavalos. Agora, que a luta terminara,
o jovem parecia quebrado pela tenso a que fora submetido.
No se aproximou de Bruce, o que era indicao suficiente
de forte perturbao. Finalmente, surgiu Peg Simpson com

mais dois cavalos. Bruce viu-os todos em redor do capito
Maggard, em animada conversa. Por fim, Tex Serks foi ter
com ele, fitando-o com o olhar penetrante. Mas, havia um
estranho calor, uma espcie de admirao, na forma como
a sua mo bronzeada lhe apertou o ombro. Peg seguiu-o
pouco depois.
   - Peg, onde est Jin? - perguntou Bruce, lembrando-se s
naquela ocasio do irmo de Tex.
   - Ferido com gravidade, mas em estado de voltar ao
rancho. Ele e Blight foram atingidos logo no incio da
contenda. Blight apanhou em cheio; quando cheguei ao
p dele, j estava morto. Depois, foi o tiroteio em corrida.
Aps as primeiras milhas, j tnhamos abatido trs bandidos. A
minha ideia era for-los a fugir para aqui, por dois motivos;
primeiro para lhes descobrir o covil e depois para os colocar
entre dois fogos. Correu exactamente como eu esperava e com
muita sorte para o nosso lado.
   - Muitssima sorte, dizia eu, pelo menos para mim.
   - J ouvi falar disso - replicou Tex, secamente - Maggard 
um macaco velho, destitudo de sensibilidade. Blight e Miller
morreram. Cole em perigo de vida e Wey mouth ferido. Tudo ao
servio do Texas e da Polcia da fronteira,

191

declarou aquele presumido, inchado de vaidade como um pavo.
Contou-nos que lhe tinhas salvado a vida duas vezes. Ficou-te
muito grato, Lee, mas eu creio que o que fizeste foi mais por
ti do que por ele. Maggard no se cansa de apregoar a
originalidade do teu ardil. fingires ser Lockheart para
atrapalhar Stewart. E todos fazem coro com ele. Nem o capito
nem eles suspeitam que s o prprio...
   - Ponto final, amigo Tex. pelo menos, por agora -
interrompeu Bruce. - Mas, no quero deixar de te exprimir o
meu reconhecimento pela tua lealdade.
   - No fao mais que o meu dever. Estou do teu lado.
   - Que tenciona aquele homem fazer em seguida?
   - No sei. Vou ver. De qualquer forma, temos trabalho entre
mos. Oxal Jim chegue ao rancho e melhore!
   Tex deixou Bruce numa grande confuso de pensamentos, uns
sombrios, outros agradveis. Ainda era cedo para pr de parte
a sua tendncia para matar, apesar de ter salvado a vida do
seu grande inimigo. Que diria Trinity? E ao pensar nela, Bruce
sentiu uma poderosa emoo comear a absorver os sentimentos
de violncia. Sentia que podia ter matado cem homens, ter-se
transformado em carniceiro do seu semelhante e, todavia, a
simples recordao de Trinity, a esperana imperecvel de a
conquistar e o consequente e irresistvel caudal amoroso
seriam suficientes para operar uma modificao profunda no seu
esprito e na sua vida.

 
                                    16.


   Ao aproximar-se sozinho do rancho, a disposio de
Bruce assumiu terrveis propores. Por algum tempo, a
intervalos, a posterior emoo era substituda pela vvida

imagem da aco recente, pelos acontecimentos inconcebveis,
pelas sensaes habituais que acompanhavam cada desafio 
morte. Mas, a ideia avassaladora que comeava a
dominar--lhe a alma era o desespero de ter de continuar a
ocultar-se sob o falso nome de Lee Jones. Gradualmente,
a convico da lamentvel realidade subjugou a tenso da
sua tremenda luta de conscincia e dominou por completo
o seu esprito atormentado.
    medida que percorria as milhas e ia encurtando a
distncia, mais insuportvel se lhe sEmelhava a tragdia,
para ele e para Trinity. E quando o sofrimento psquico
atingiu o auge, Bruce sentiu um mortal impulso de trair
a sua identidade e matar Maggard.
   - Quero faz-lo! - monologou, raivosamente. - Tenho de o
fazer!. No por dio nem por vingana, mas para pr fim a esta
situao interminvel. Com Maggard morto, ficarei livre para
sempre.
   Trinity era a nica barreira que se opunha  realizao
do seu projecto. Este agigantou-se diante dos seus olhos,
tomava propores esmagadoras, de uma terrvel clareza,
para logo se desvanecer como chama assoprada pela ventania.   
- E depois? - resmungou.
   Parecia-lhe que toda a sua vida se reduzia a fugas
consecutivas, rduas, interminveis, para escapar  Justia,
aos inimigos,  priso e  morte. Naquele mesmo instante, era
como se temtasse fugir de si prprio. No era Maggard, era a
sua conscincia que o perseguia!
   Chegou o rancho com pequeno avano sobre Jack e a
coluna de cavaleiros que se prolongava mais atrs. Retirou
a sela do cavalo, deu de beber ao animal e acompanhou-o

192    193

at s pastagens, demorando propositadamente o seu regresso.   
Quando ia j de volta para a camarata, viu brilhar as
luzes no seu interior, atravs das janelas e das portas. No
quarto, encontrou Peg em arrumaes, Juan a acender o
lume e Tex debruado sobre o irmo. Foi ento que se
lembrou de que o jovem Serks estava ferido.
   - Jim!. Ests vivo, o que j no  mau. Espero que
no seja grave.
   - O que me fez pior, Lee, ainda foi a estafa.
   - No deves ter perdido muito sangue. Alguma bala
l dentro?
   - No, mas sinto um peso no corpo todo que mal posso
mexer-me.
   - Quem  que te tratou?
   - Slaughter e no pareceu apoquentado. Por issso, tambm
no estou.
   Bruce apressou-se a ir lavar-se e fazer a barba, no
porque sentisse grande vontade, mas para fazer qualquer
coisa e evitar a conversa que viria mais tarde ou mais cedo.
Depois do jantar, Bruce estendeu-se no seu catre,
completamente vestido, pois tinha a certeza de que o sono no
o visitaria naquela noite. Jim adormeceu; Tex e Peg fumavam
incessantemente. Juan entrou e foi sentar-se tranquilamente
junto ao fogo, activando mais o lume. Passado algum
tempo, que a Bruce deu a impresso de uma eternidade,

ouviram-se passos ligeiros no exterior, sobre o cascalho, e
depois no cho do alpendre. Uma pancada seca soou na porta.   
- Quem ? - perguntou Tex.
   - Trinity. Abram a porta - foi a peremptria resposta.
   Tex olhou para Bruce, que fez que no com a cabea,
e para Peg, que baixou a vista.
   - Deixem-me entrar! - ordenou Trinity, em tom
au toritrio. 
   - Mas, Trinity, Lee est a dormir. e Jim bastante
ferido.
   - A dormir? Acorde-o!

194

   E a jovem comeou a bater reptidamente contra a
madeira com qualquer objecto slido, possivelmente o cabo
de um chicote.
   - J estou na cama, Trinity. Espera para amanh - pediu
Bruce, desalentado.
   - Nada disso, querido - replicou Trinity. - Quero
falar-te agora, nem que tenha de arrombar a porta ou
saltar pela janela.
   Ento, Bruce foi abrir. A luz projectou-se sobre a
rapariga, enrolada num grande casaco, mas bem visveis o seu
rosto afogueado e os olhos brilhantes.
   - Anda! Veste-te depressa - disse ela.
   - Eu no disse que estava despido - retorquiu Bruce.
- Mas... mas...
   - Nem mas nem meio mas, querido. Pega no casaco.
Est um frio de rachar.
   Tex levou-lhe o casaco e aproveitou para meter a colherada: 
   - Trinity, se  s para saber como foi a luta, deixe-o
descansar que eu conto-lhe.
   - Obrigada, Tex; mas  com ele que quero falar.
   Talvez devido  fadga, Tex retorquiu, irritado:
   - Olhe l, acha que so horas de namorar. para um
homem que acaba de andar aos tiros e a arriscar a vida?
   - Idiota! Quem lhe disse que quero namorar? - exclamou
Trinity. - E quero l saber que tenha matado dez ou mil! O que
me interessa  que est so e salvo e quero-o para mim!
   Bruce achou conveniente intervir, para evitar que a
impetuosa jovem originasse burburinho.
   - Desculpa - apressou-se a dizer. - S pretendia que
esperasses at amanh, Trinity.
   Enfiou o casaco, com Trinity j pendurada do seu brao,
e deixou-se guiar por ela atravs da penumbra. A noite
estava escura, sem estrelas, e um vento gelado varria a
pradaria. Os coiotes uivavam lugubremente. A solido e a
melancolia pareciam ter para Bruce um cruel significado.
Trnity agarrava-lhe o brao com ambas as mos e dava
mostras de querer conduzi-lo para a orla de arvoredo que
delimitava o ptio.

195

   - Tinha de te ver... meu amor - disse ela.
   - Sim, claro, acho muito bem. Eu tambm queria falar-te e
tanto faz agora como noutra ocasio. 

   Passaram por entre as grades da vedao e, procurando
o caminho na escurido de breu, por entre as rvores, foram
ter ao banco. Ali, sentiam-se mais abrigados, enquanto o
vento ululava sobre eles.
   - Trinity estou farto desta vida de enganos. deste receio
de que me conheam como Bruce Lockheart. E mais tarde ou mais
cedo algum me reconhecer. Tenho de resolver o assunto com
Maggard - disse Bruce, num tom de voz que traa a sua
angstia.
   - Oh! Bruce, eu sei que  horrvel viver assim!exclamou
Trinity. - Mas, que sucederia se dssssemos a verdade? Seria
o nosso fim, pois ele levar-te-ia. - Pegou-lhe na mo e
sentaram-se. - E da, talvez no, depois do que fizeste hoje.
Talvez acreditasse na tua inocncia. Jack contou-me muitas
coisas acerca da luta. que salvaste a vida de Maggard por duas
vezes. Fiquei doida de alegria. Tinha rezado tanto para que
sucedesse qualquer coisa que o fizesse ficar-te reconhecido!
Graas a Deus, valeu a pena... Que sorte... - Interrompeu-se.
- Mas... no temos provas em teu favor! - concluiu,
desanimada, quase num soluo.
   - Trinity, estou sempre a tempo de o matar - declarou
Bruce, friamente.
   - Claro! No estado de esprito em que me encontro,
quase o desejava. Mas, para nosso bem... nem pensar nisso.   
- Trinity, quando vnhamos na estrada, tive esse mesmo
pensamento. caso contrrio, Maggard e o seu agente estariam
mortos a esta hora e eu a cinquenta milhas de aqui,
vagueando pela floresta.
   - Pensaste em mim, querido? - murmurou ela, num
   arroubo de paixo.
   - Foi o que salvou Maggard.
   - Amo-te ainda mais por isso.
   - Quanto tempo mais vai ele ficar aqui?
   - Ouvi-o dizer ao pai um dia ou dois, at os agentes
feridos se recomporem. Oh! Est desejoso de chegarem a
Austin para dar publicidade  notcia do extermnio de uma
quadrilha de bandidos.
   - Est a fazer-se velho - declarou Bruce- Mas chegou a
acreditar que Stewart era Bruce Lockheart.
   - Bruce, o que ele mais anseia  deitar a mo a Lockheart.
E, embora tenha uma faceta mais branda, que  a de gostar de
mim, sinto-me incapaz de o demover do seu propsito.
   Chegaram-se mais um para o outro, como que para atenuarem o
frio intenso que o vento agravava.
   - Bruce, no preciso de me cansar a fazer mais planos
- disse Trinity, aps uma pausa - J resolvi tudo...
   - Tudo o qu?
   - H duas hipteses de agir... apenas duas...
- Como ele no falou, ela prosseguiu: - Podemos arriscar-nos a
viver juntos, depois de casados, como sendo o casal Lee Jones,
em qualquer ponto do desfiladeiro. Pode ser que nunca ningum
te reconhea. disfaras-te e evitas encontros    com
estranhos.
   Fez uma interrupo, que Bruce aproveitou para perguntar:   
- E a outra alternativa?
   - Planeamos partir juntos e combinamos a hora. Depois, vais
ter com o capito Maggard, apontas-lhe o revlver e atiras-lhe
a verdade  cara, acompanhada com o dinheiro roubado e que ele

tanto interesse tem em recuperar. Juras que foi esse o teu
nico delito, que tudo o resto so mentiras, crimes cometidos
 sombra do teu nome, enquanto fugias. Diz-lhe que se no
fosses tu teria sido morto por Stewart, no uma mas duas
vezes! Afirma-lhe que qualquer homem com sentimentos de
humanidade, por muito polcia que seja, poria de parte dios e
vinganas e te deixaria em liberdade. E acrescenta que
tenciono ir contigo e que se alguma vez tentar perseguir-nos e
tu no conseguires desfazeres-te dele, que o matarei eu!
   No discurso emocionado da filha de Melrose perpassara
toda uma gama de valentia, abnegao e estoicismo Prprios de
uma verdadeira texana. Bruce sentiu-se to profundamente       
                                                               
            196   197

tocado que nem sequer teve nimo para Lhe aprofundar as
consequncias, limitando-se a perguntar:
   - E qual das solues devo adoptar?
   - Isso agora  contigo, Bruce.
   Calaram-se novament, estreitamente enlaados, enquanto
o vento cantava a sua montona melopeia por entre os
ramos. Os coiotes haviam cessado o seu concerto mas, ao
longe, escutou-se o uivo prolongado de um lobo, um lamento
arrepiante que fez vibrar a atmosfera como um diapaso,
deixando a flutuar uma nota de ferocidade, de fome, de
luta pela conservao da vida.
   - Bruce, j  tarde e estou muito abalada - disse, ento,
Trinity. - Leva-me para casa. Tens de me ajudar a
entrar pela janela, porque pensam que j estou deitada.
   Ele deixou-se conduzir sob as copas das rvores at
surgir o edifcio do rancho, escuro e imvel. Bruce no
fazia ideia de como iria ela descobrir a janela, naquela
escurido impenetrvel, mas, na verdade, foi quase direita
ao local exacto. E, daquela vez, no foi a jovem que se
lembrou de um beijo como despedida, mas Bruce e, ao apert-la
nos seus braos, de lbios muito unidos aos dela, foi como se
o mundo se fechasse  sua volta.
   - Bruce! - sussurrou ela, meio sufocada, afastando-se.
- Por muito amor que te tenha... preciso... de respirar.
Deus te ajude! Qualquer que seja a tua deciso, estou contigo.
Boa noite!
   Bruce deixoua, afastando-se com o crebro em tumulto.
Atravessou o ptio, passou a camarata e encaminhou-se para
a pradaria. O vento frio e cortante, a solido e o negrurne da
noite, tudo parecia conjugar-se para aumentar o seu nervosismo
e m-disposio.    Para alm da ternura, do seu entranhado
amor por
Trinity, da atraco dos seus dedos esguios e dos seus lbios
macios, da glria da entrega do seu amor por uma vida
inteira - para alm de tudo isto impunha-se a grave deciso
que tinha de tomar.
   A segunda hora de cogitaes encontrou a sua conscincia em
estado de absoluta e inaltervel recusa a considerar a
hiptese de ma vida de decepo e receio de ser  I
descoberto. A simples suposio era falsa. Durante muito
tempo tinha sido umfugitivo, um matador de hmens. um
fora-da-lei, um criminoso com tanta fama que os verdadeiros
bandidos escondiam a sua identidade sob o mome dele. No

podia suportar mais aquilo. Queria viver como Bruce Lockheart
e andar de cabea erguida. ,    E Bruce passou  alternativa,
a soluo que o fazia estremecer com o interminvel cortejo de
consequncias que adviriam. Trinity desconhecia uma infinidade
de pormenores da vida de um fora-da-lei, que ele por seu
turno, conhecia por experincia! Era desgra-la ali, em
Brazos Head, fazer ecoar o nome dela por montes e vales como
uma leviana que se deixara ssduzir por um bandido, for-la
a partilhar a sua fuga e todos os tormentos que representava
para uma mulher o constante movimento sem comida, conforto,
asseio, sem dormir nem repousar, a se esconder em barraces
velhos, nas cavernas e nas matas, viver uma vida selvagem e,
mais dia menos dia, ser encurralado ou no campo ou em alguma
rua de povoao, aonde as garras da fome os arrastasse; lutar
por ela e v-la lutar por ele, talvez derramar sangue to bom
como o seu prprio; e certamente v-lo tombar, por fim,
crivado de balas, a seus ps; ficar sozinha. repudiada por
todos, uma mulher cuja infmia e mal orientada lealdade nunca
se apagariam dos anais das histrias de vaqueiros, da Histria
do prprio Texas. Era este o gnero de vida que a esperava.
E Bruce - nunca aceitaria tal sacrifcio da mulher amada.


   Ao alvorecer, tomara uma deciso. O sol ergueu-se risonho,
a iluminar aquelas paragens que no mais veriam Bruce. A sua
beleza, o ar puro e saudvel, frio e adocicado
da pradaria, a solido e vastido dos camPos, e a erva
espessa e ondulante, to cara para o corao de um vaqueiro
e criador de gado em potencial - todas estas maravilhas,
por triste ironia mais belas e atraentes do que nunca, jamais
seriam para Bruce Lockheart.
 
198   199

   Para ele, eram os matagais bravios, os covis de ladres, a
fuga de toca em toca, at ser apanhado! Que esprito mau
o dominava, que o fazia matar, querer matar antes de
morrer? Era o dio, uma vez adormecido e novamente
despertado, chamejando nele contra a injustia da vida e a
brutalidade da Lei.
   Mais uma vez, naquele dia, por amor de Trinity, Bruce
Lockheart estenderia a mo contra o grande inimigo da sua
vida! Mas, era a ltima vez, nunca mais se voltaria contra
um polcia da fronteira, nem mesmo por amor da jovem.


   Espirais de fumo azulado, o bater de machados, vozes
e assobios denunciavam que os vaqueiros e os agentes da
autoridade, nas suas camaratas, haviam iniciado um novo
dia. Quando Bruce passou pela porta aberta do armazm,
houve algum que o chamou, mas ele fez de conta que no
ouviu. Ao entrar no seu quarto, um sorriso afvel de Tex
gelou logo  nascena. Peg, atarefado como de costume, olhou
para Bruce, reparou na sua expresso e no voltou a
fit-lo. O rapaz no reparou nos outros. Embrulhou os seus
pertences numa manta e atou-a de forma a poder coloc-la
rapidamente atrs da sela. Enfiou as esporas nas botas, com
mos nervosas e feroz determinao. Depois, puxou o saco

da sela de debaixo do catre.
   - Peg, arranjas-me um pacote com frutas secas, carne
fumada, biscoitos, a uns cinco quilos ao todo? Um pacotnho
de sal tambm? - pediu, com uma voz que ele prprio no
reconheceu.
   - Claro... companheiro, claro - replicou Peg, nervosamente. 
  - Obrigado, peg, pelo ltimo dos muitos favores que
me fizeste. - disse Bruce.
   E, Pegando nos arreios, dirigiu-se s pastagens. Ao
afastar-se do alpendre, ouviu Peg comentar:
   - Santo Deus! Que  que.?
   E Tex interrompeu, com voz dura e fria:
   - O teu palpite de ontem  noite estava certo. No
podemos fazer nada.

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   "Legs", que se encontrava perto du porto da zona de
pastagem, viu Bruce e correu para ele, relinchando, como
que a pedir-lhe o costumado saco de gro. Apesar de couraado
contra as emoes, Bruce no pde deixar de sentir um baque no
peito. Afeioara-se quele explndido animal que vrias vezes
lhe salvara a vida. Mas, "Legs" pertencie a Trinity; num
momento de arrebatamento, Bruce oferecera-lhe o seu cavalo. 
   - "Legs", meu mariola - disse Bruce, dando-lhe palmadinhas
no focinho inteligente. - Toma l uma mancheia de cereal, em
lembrana dos velhos tempos, e esquece-te de mim. Agora, tens
outra dona, que te adora. "Legs", vou comear em andanas
outra vez.

   Descobriu o cavalo possante que j algumas vezes montara e
escolheu-o para a futura jornada, mais pela resistncia que
pela velocidade. Deixou-o comer  vontade, reajustou os
arreios e colocou-lhos. Ao conduzi-lo para junto da camarata,
Bruce apurou a vista  procura de algum agente.
   Ao p da barra do alpendre, ps-lhe a sela, amarrou a
sua bagagem e entrou na camarata. Todos os vaqueiros ali
estavam; todos sabiam o que se passava. Se os olhos e as
expresses falassem, todos se declarariam do seu lado. Bruce
comeu algum presunto, uns biscoitos e uma chvena de caf.
   - Peg, estes... biscoitos,  falta de balas, fazem o mesmo
efeito - disse ele.
   - Sim, esto duros e pesados, tal como a vida se apresenta
a alguns de ns.
   No foi dita mais palavra no aposento, onde a prpria
atmosfera estava carregada de dvidas e interrogaes.
   - At  vista, amigos - disse Bruce, saindo e saltando para
a sela.
   Tex transps a porta e segurou-o pelo cinturo. Bruce
fitou-o longamente em sombria censura.
   - Tex, no te metas nisto - disse, gravemente.
   - Olha l, companheiro, e se fosses para o inferno,
para variar? - observou Tex, com um sorriso.

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   -  precisamente para l que vou imediatamente, e
quer queiras, quer no.

   Bruce dirigiu a montada para o edifcio principal do
rancho, transps o porto, desmontou e prendeu o cavalo.
Jack aproximou-se a assobYar, mais uma prova de que a
sorte protegia Bruce.
   - Olha l, pequeno, eu simpatizo muito contigo e gostava de
que continussemos amigos. Fazes-me um ltimo favor?
   - Lee?. Claro que sim!
   - Eu sou o verdadeiro Bruce Lockheart e vou diz-lo
de caras a Maggard. Onde est ele?
   - Tu...? - Jack empaLideceu de assombro, mas finalmente
respondeu: - Amigo. Est com o pai e Luke. Mais ningum; mas,
vem a o Tex. Qual  o favor?
   - No deixes aproximar Trinity, nem que tenhas de
a amarrar.
   - Ela est longe, mas vou ver se a descubro. Meu Deus,
isto  terrvel!
   Jack correu pelo ptio e deu a volta  casa. Bruce olhou
para trs, enquanto subia os degraus do alpendre. Tex
aproximava-se a passos largos, em atitude que no desmentia as
suas intenes. Se fosse necessrio, tornar-se-ia tambm um
fora-da-lei, para no abandonar aquele a quem o ligavam
indissolveis laos de amizade. Por isso, Bruce
galgou de um salto o espao do alpendre e abriu a larga
porta do edifcio, deixando-a escancarada.
   Slaughter acendia um cigarro. Melrose estava sentado
com Maggard, de costas para o fogo. O capito fitou Bruce.
   - Bom dia, Lee. Eu...
   Interrompeu-se e desviou o olhar. Melrose fez-se lvido
e o rosto queimado de Luke Slaughter iluminou-se, ao
compreender a situao.
   - Maggard, estou a apontar-lhe uma arma - disse
Bruce, com voz sinistra, clara como o repicar de um sino.
   - Isso vejo eu! - replicou o capito, friamente. - Rapaz,
como no deves estar bbado a esta hora,  porque
enlouqueceste.
   Melrose exclamou:
   - Lee, por amor de Deus.!
   - Estejam quietos, o senhor e Luke - ordenou Bruce,
avanando dois passos, com o revlver baixo e seguro por
mo firme.
   A testa lisa de Maggard sofreu uma espamtosa metamorfose. O
seu trax expandiu-se, os lbios comprimidos soltaram um
silvo, mas a pergunta prestes a sair no se con cretizou.
   - Eu sou Bruce Lockheart! - Bruce deixou a declarao em
destaque por alguns segundos. - Sou eu o homem... o foragido
que o senhor persegue h dois anos! Sou incriminado de ter
tomado parte no assalto ao Banco de Denison!. Mas esse foi o
meu nico delito. E guardei o dinheiro... at ao ltimo dlar,
do meu quinho! Trinity tem esse dinheiro e dar-Lho-. Prometi
a ela que nunca mataria um polcia da fronteira, mas vou
quebrar essa promessa aqui e agora. Comece de novo a
perseguio ao seu homem, capito Maggard. e ver!
   Bruce terminou o seu amargo discurso e recuou at 
porta, saindo para o alpendre. Tex afastou-se e deixou-o
passar. Bruce saltou os degraus e correu para o cavalo. Nesse
instante, um grito sacudiu-lhe os nervos. um grito
de dor, apaixonado, lanado por Trinity, que se encontrava
na sala de estar. Bruce montou como uma flecha, esporeou

a montada e atravessou a clareira, em direco ao caminho
que passava atrs da camarata.
   Uma vez isolado e j bastante afastado, meteu o cavalo
ao trote. No devia cans-lo sem necessidade. No olhou
para trs; no conseguira ver nada distintamente. Cumprido
o seu propsito fatal, a terrvel e dramtica denncia de
si prprio, que no poderia desdizer jamais, sentia no crebro
e no corao um tumulto que o cegava, que quase o Enlouquecia. 

   Cerrou os dentes, conservando os ps nos estribos e
agarrando-se bem ao aro da sela, at que a vista deixou
de estar nublada e os seus pensamentos ganharam coerncia.
Nem mesmo na ponte que cruzava o Brazos se voltou para

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trs; fora ali que conhecera Tex e os outros vaqueiros.
Logo a seguir, deixava de ver o rancho.
   Na frente de Bruce, a pradaria descia suavemente at
uma grande clareira verde-cinzenta, dividida pela estrada
esbranquiada e delimitada ao longe, j em ligeira inclinao
ascendente, por uma fileira de rvores. Mais alm, no fim da
subida, via-se Flat Top Mountain e, a pouco mais
de dez milhas  direita, a montanha escarpada que ele
conhecia to bem forneceu-lhe um elemento de orientao.
Os matagais escuros no estavam ao alcance da vista. Apenas a
crista abrupta de Staked Plain marcava a barreira naquela
direco.
   O cavalo progredia, firme, rtmico, infatigvel, declive
abaixo para a clareira, para depois percorrer a imperceptvel
ladeira que ascendia para o horizonte verdejante. Daquele
lugar dominante, ainda a umas cinco milhas de distncia,
olharia para trs pela primeira vez, para ver. para ver se era
perseguido!
   Seria uma alucinao, uma obsesso do seu esprito?
No! Era mesmo um cavaleiro! Via uma nuvem de poeira
erguer-se  passagem do cavalo a galope!
   Uma spera gargalhada escapou-se dos seus lbios. A
menos de cinco milhas na retaguarda, logo a seguir  ponte,
distinguia-se o vulto escuro na fita branca da estrada. Era
algum polcia mais entusiasmado no cumprimento da sua
misso, talvez o prprio Maggard em pessoa! Que teimosia,
que demonaca persistncia na execuo do dever!
Involuntariamente, o corao de Bruce rendia-Lhe homenagem.
   - Capito, que pena no ser em prol de uma melhor
causa! - monologou ele, com sarcasmo. Era uma lstima
que Maggard fosse ao encontro da morte, pois Bruce jurara
a si prprio mat-lo se ele se aproximasse o suficiente.
   A distncia era grande, mas mesmo assim o olhar experiente
de Bruce f-lo suspeitar de que o seu perseguidor ganhava
terreno. Agora, voltava-se para observar com mais
frequncia, para o cavaleiro e para mais alm,  espera do
peloto em forma!
   De sbito, apareceram mais homens a cavalo na curva
da ponte. Quatro. cinco!
   - J o calculava - resmungou Bruce, em voz alta.
   Acicatou o cavalo e meteu a galope. Amaldioou-se por


no ter enveredado antes para a floresta, ao afastar-se do
rancho. Ali se encontrava agora, a dez miLhas, na encosta, sem
qualquer proteco e demasiado longe dos bosques.
Contudo, para ele, montado num robusto animal, cinco milhas
representavam o mesmo que cinco centenas de metros.
Aqueles agentes da autoridade utilizavam cavalos pesados,
escolhidos para duras jornadas e dotados de pouca rapidez.
Nunca o alcanariam. E se o seu cavalo se aleijasse ou
surgisse qualquer acidente imprevisto, Bruce tinha uma
espingarda e mataria o casmurro do capito e os seus
homens.
   Aps o que pareceu a Bruce um longo perodo de tempo,
calculou a distncia que lhe faltava percorrer at ao cimo
da subida da pradaria. Ainda trs milhas ou mais! Avaliara
mal a distncia devido  rarefaco do ar. O cavalo corria
   com desenvoltura. Bruce sabia despertar a fibra de um
   bom animal, numa corrida de vida ou de morte. Era uma
das virtudes que, infelizmemte, fora forado a cultivar.

   Olhou de novo por sobre o ombro e verificou com surpresa
que o perseguidor ia recuperando o atraso. Ganhara mais uma
milha. Era um cavalo grande e veloz. O andamento que Bruce
imprimia  sua montada era de molde a no permitir veleidades
a qualquer outro de tmpera vulgar. porm, no seu crebro to
propenso a pessimismos, comeou a surgir uma dvida.
   Seguiu-se qualquer coisa, uma aguda percepo, uma
   suspeita, uma certeza - aquele cavalo era um baio - um
   baio corpulento, de pernas altas.
   - Meu Deus! - exclamou Bruce. -  mesmo Aquele
maldito polcia, persegue-me no meu prprio cavalo!
   Bruce instigou a montada at ao limite das suas
possibilidades. Uma vez no alto da elevao, calculava ter
tempo para atingir proteco de alguma espcie. O seu cavalo
   corria bem, mas no se comparava com "legs". Havia destino
mais fantstico e cruel do que o de ser perseguido pelo
animal que tanto estimava e que assim contriBuiria para o   
transformar num assassino? Bruce transps os ltimos 
 
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metros que o separavam do seu objectivo, sem se atrever a
olhar em frente.
   Do outro lado, estendiam-se milhas e milhas de pradaria,
sem arbustos nem arvoredo! De certo modo, a vegetao de pouco
lhe serviria como escudo. Precisava da floresta mais densa,
dos matagais cerrados, ambos inatingveis, a menos que
conseguisse alvejar o seu perseguidor. 
   Continuou a andar, com a deciso tomada. Seria o seu
fim e estava resolvido a aceit-lo. Afinal, s morreria uma
vez. Por isso, lutaria contra os agentes at ao ltimo alento. 
   Bruce olhou para trs, distinguindo com clareza a pradaria
verdejante e a estrada esbranquiada. Nesse mesmo instante, o
baio veloz como um relmpago, surgiu  sua vista na planura,
quase embevecendo Bruce com a sua rapidez prodigiosa.
   - "Legs",  assunto arrumado - murmurou Bruce? - No tarda
muito que seja eu a montar-te. assim que matar esse...!
   Fez estacar a sua montada e, desmontando, tirou a
espingarda do coldre da sela e voltou-se para a estrada com

feroz determinao. O cavalo deu mais uns passos, arrastando
as rdeas pela erva, e comeou a pastar. Bruce cal culou que
teria tempo suficiente para desatar a sua bagagem, amarr-la
depois sobre "Legs" e fugir antes que surgisse o peloto
perseguidor. Maggard podia considerar-se um homem morto. Os
seus agentes encontr-lo-iam estendido por terra, de rosto
coberto de poeira.    Bruce introduziu um cartucho na cmara e
deixou o percutor puxado atrs. As suas mos, ao sustentar a
arma, eram como ao. Ento, aguardou em observao. "Legs"
carregava o avultado corpo do capito como se o peso nada
significasse para ele. Era bem dirigido, pois o seu cavaleiro
era um consumado mestre na arte da equitao. Curvava-se
bem sobre o aro, as bandas do seu casaco esvoaando de
cada lado. O cavalo aproximou-se mais e mais, como o
vento da pradaria, como a sombra de uma nuvem que tudo
fosse envolvendo!
   - Eu sei, capito. Perseguir at  morte! - mastigou
Bruce, furiosamente.
   Maggard no tinha medo. No esperava morrer. Conseguira
forar o foragido a parar. Porm, Bruce calculava que Maggard
fizesse alto em qualquer ponto da estrada fora do alcance dos
tiros, embora a distncia capaz de fazer ouvir uma estentrea
intimao a render-se. Estranhava, por isso, ver o inimigo
acercar-se at meia milha, um quarto de milha, sempre 
desfilada, em magnfica velocidade. "Legs" prosseguia. Bruce
escutou o tropear rtmico dos seus cascos. Como era possvel
ser-se to louco, para caminhar assim ao encontro da morte?
Seria aquele homem to curto de vista como acanhado na viso
dos factos? No estaria j suficientemente perto para ver
Bruce  sua espera, de espingarda em punho? Mas se o viu no o
demonstrou.
   Avaliando friamente a distncia,    como um caador,
Bruce ergueu a arma. Era fcil atingir o animal, que vinha a
direito como um furaco, mas difcil fazer a pontaria sobre o
cavaleiro todo curvado sobre ele. E Bruce queria a todo o
custo evitar alvejar o cavalo.
A menos de duzentos metros, Bruce rectificou a pontaria e
puxou o gatilho. Um objecto redondo - o chapu do agente da
autoridade - voou pelos ares e tombou no terreno.
   - No foi mau de todo, capito, atendendo  dificuldade -
comentou Bruce, para consigo, carregando de novo a arma e
metendo-a  cara. Pelo canto do olho, viu uma mo enluvada a
acenar-Lhe. Imaginaria o autoritrio polcia que poderia
comandar o Destino com um gesto da mo? Mais sombrio ainda.
Bruce apurou a linha de mira com o maior cuidado.
   No momento em que se preparava para premir de novo
o gatilho, descobriu que o cavaleiro tentava  viva fora
fazer estacar o animal. Inclinava-se para trs e retesava as
rdeas. Mas, "Legs" tomara o freio nos dentes e nada o
                                                     
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detinha. Demasiado tarde! O capito verificava o seu erro,
sem possibilidade de emenda.
   O olhar de Bruce captou o seu vulto. To pequeno...
to delgdo! E to prximo! Ia j a disparar quando viu
o cabelo comprido flutuando ao vento. Depois, um rosto
plido! Trinity!

   - Deus seja louvado! - exclamou.
   A espingarda tombou-lhe das mos paralisadas e
disparou-se em contacto com o solo. O rapaz tremia dos ps 
cabea, ao pensar que estivera  beira de matar a mulher
amada. Entretanto, o baio passou por ele como um turbilho, em
desenfreada correria. Trinity fazia esforos desesperados para
o dominar e gritou ao passar junto de Bruce. O cavlo
aumentou ainda mais a velocidade at que, no incio de uma
ligeira ondulao do terreno, comeou a abrandar e, sacudindo
o longo pescoo, acabou por parar.
   Bruce refez-se do seu assombro. Pegando na espingarda,
correu a montar o seu cavalo. Trinity alcanara-o para
compartilhar da sua fuga, tal como jurara fazer. Ultrapassara
os polcias da fronteira. Bruce olhou de novo para trs, na
direco do limite da pradaria. Nenhum cavaleiro 
vista! O sangue como que comeou a correr-lhe nas veias,
em contraste com a anterior apatia. E gaLopou ao encontro
de Trinity, cuja montada se aquietara, finalmente.

   Bruce abriu a boca para falar, mas mal conseguiu articular
uma ou duas palavras incoerentes, ininteligveis. Por seu
turno sob o afogueamento da galopada, a jovem dava
mostras de intensa palidez e as suas pupilas eram como
   poos negros e insondveis.
   - Ento... sou capaz... de... montar "Legs"? - arquejou
ela, desafiante, enquanto com a mo enluvada afagava o pescoo
suado do animal. 
   - Trinity... tu... tu. - murmurou ele, com voz rouca.
   E, apontando com a mo trmula na direco de onde ela
   viera: - Aqueles cavaleiros. a seguir a ti. quem so?
   E de novo dirigiu o olhar nublado para o horizonte.
   A pradaria, porm, continuava sem vivalma, solitria.
   -  Jack. e os vaqueiros -. replicou ela.
   - No  Maggard... nem os outros?
   - No, querido - disse Trinity, colocando-lhe
carinhosamente a mo sobre o ombro. 
   Bruce abateu-se sobre o aro da sela, conseguiu segurar-se
milagrosamente enquanto retirava os ps dos estribos, e
escorregou para o cho, deixando-se cair, por fim, sobre a
erva. Trinity acorreu logo para junto dele, falando-lhe e
amparando-o. Mas, Bruce no podia v-la nem ouvi-la, naquela
convulso emocional. 
   No pde dizer quanto tempo permaneceu inconsciente.
Trinity limpava-Lhe as lgrimas e a transpirao do rosto.
Bastante afastados, descortinou cinco cavaleiros pardos,
conversando paulatinamente.
   - Trinity, que sucedeu? - indagou ele, num fio de voz.
   - J te disse... o que foi - replicou ela,
entrecortadamente, demonstrando a Bruce que a coragem, o nimo
valoroso, haviam sofrido um ntido colapso, aps o culminar 
dos acontecimentos.
   - Mas, eu... no consegui escutar-te...
   - Bruce, eu ia a chegar... com Jack - comeou ela,
apressadamente, agarrando-lhe a mo como se necessitada de
ajuda. - Atravs da sala de estr. ouvi o capito
Maggard... Tinhas-lhe apontado o revlver... No pude
mover mais os ps. Disseste-Lhe tudo! E desapareceste.
Voltei-me... e corri ao meu quarto. Peguei no cimturo com o

dinheiro. entrei pela sala dentro... e atirei-o ao
capito Maggard. Gritei a Jck que corresse a aparelhar
"Legs". No me lembro do que disse ao capito, mas perdi
a cabea e devo ter proferido palavras terrveis. Ele
empalideceu... corou... e olhou para o dinheiro. Ficara
transformado. Ento, ergueu-se, com expresso alarmada e
gritou-me: "Trinity, por mim, considero-o ilibado, de culpa.   
Vai ter com ele. Leva os vaqueiros. Alcana-o a todo o
custo!". Doida de alegria e de temor, corri a vestir este   
fato e a calar as botas. agarrei o casaco e sa para o
ptio. Jack apareceu logo com "Legs" arreado. Saltei
para a sela e gritei a Jack que me seguisse com os rapazes.   
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Oh! Foi terrvel... terrvel... at que te vi a atravessar a
clareira. Ento, convenci-me de que j no me fugias,
Bruce Lockheart!
   - Sim, cavalgaste melhor. mais depressa do que eu.
Oh! Trinity, quase provocaste a tua morte!
   - Quase... Quando me apercebi de que te preparavas
para dsparar, calculei que me tivesses tomado por Maggard.
Fiz-te sinal. Tentei deter "Legs", mas aquele demnio tinha
tomado o freio nos dentes. No pude fazer nada. Bruce, fizeste
saltar-me o chapu da cabea.
   - Eu sei. E, quando te reconheci, ia tendo uma sncope.
V l tu que...
   - Bruce, erraste a pontaria. Mas, eu teria preferido
que me matasses a perder-te definitivamente. Anda, vamos
buscar o meu chapu. e depois para casa.
   Conduziram de novo os cavalos at  estrada. Trinity
apanhou o chapu e mostrou o orifcio no alto da copa.
Meteu um dedo atravs dele e riu, num lampejo da sua
habitual euforia.
   - Guard-lo-emos sempre... Servir-te- de lio,
duplamente: nunca mais tentes separar-te da tua Trinity, e
aponta sempre mais baixo quando quiseres acertar no alvo!


F I M


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                             Setembro de 1996



